Zapotecas e o submundo: arqueólogos revelam túneis ocultos sob igreja católica no México.
Por Revista Amazônia -
17 de abril de 2026
A ressonância do passado: a geofísica revela o labirinto
de Mitla
No coração de Oaxaca, no México, o solo da zona arqueológica
de Mitla acaba de entregar um segredo guardado por meio milênio. Através de um
esforço conjunto liderado pelo Instituto Nacional de Antropologia e História (INAH),
pesquisadores confirmaram a existência de um complexo sistema de túneis e
câmaras subterrâneas sob a Igreja de San Pablo Apostol. O achado valida séculos
de tradição oral e crônicas coloniais que descreviam o local como Lyobaa, o
“lugar de descanso” ou a entrada para o submundo na cosmologia zapoteca. O que
antes era considerado um mito propagado por missionários do século XVII para
justificar a construção de templos cristãos sobre ruínas pagãs revelou-se uma
estrutura arquitetônica tangível e monumental.
A descoberta foi possível graças ao Projeto Lyobaa, uma
colaboração internacional que envolve a Associação para a Pesquisa eExploração Arqueológica (ARX) e especialistas da Universidade Nacional Autônoma doMéxico (UNAM). Diferente das escavações tradicionais, que poderiam
comprometer a integridade da igreja colonial construída sobre as ruínas, a
equipe utilizou tecnologias de arqueometria não invasivas. Radares de
penetração no solo (GPR), tomografia de resistividade elétrica e medições de
ruído sísmico permitiram “enxergar” através das fundações de pedra, mapeando um
labirinto que se estende por vários metros abaixo do altar principal e das
naves do templo.
Arquitetura sagrada e a sobreposição de crenças em Oaxaca
A configuração de Mitla é única na Mesoamérica pela precisão
de seus mosaicos de pedra e pela sua função estritamente religiosa e funerária.
Enquanto outras cidades pré-hispânicas funcionavam como centros administrativos
ou militares, Mitla era a morada da elite sacerdotal zapoteca e o destino final
de seus reis. A descoberta dos túneis sob a igreja reforça a teoria da
sobreposição cultural estratégica utilizada durante a colonização espanhola. Ao
erguer a Igreja de San Pablo diretamente sobre o centro nevrálgico do culto aos
mortos zapoteca, a Igreja Católica buscava transmutar a sacralidade do espaço,
embora, ironicamente, tenha acabado por preservar as estruturas subterrâneas ao
selá-las sob toneladas de alvenaria.
Os dados coletados mostram que os túneis não são apenas
cavidades naturais, mas câmaras meticulosamente trabalhadas que se conectam a
outras estruturas já conhecidas na zona arqueológica. Para a culturazapoteca, o submundo não era um lugar de punição, mas uma dimensão de
transição essencial para a manutenção do ciclo da vida e do cosmos. A precisão
técnica dessas passagens, localizadas em uma região de alta atividade sísmica,
demonstra um conhecimento avançado de engenharia que permitiu que o labirinto
de Lyobaa permanecesse intacto, apesar dos séculos de pressão estrutural
exercida pelo edifício colonial que hoje o encima.
A ciência a serviço do resgate da memória zapoteca
O uso de geofísica aplicada à arqueologia representa um
marco na preservação do patrimônio mexicano. O Google Arts &
Culture, que frequentemente documenta esses avanços, destaca como a
tecnologia permite reconciliar o desenvolvimento urbano e religioso moderno com
a preservação de raízes ancestrais. O Projeto Lyobaa não buscou apenas
encontrar túneis, mas compreender a relação espacial entre os vivos e os mortos
na antiga Mitla. A identificação de anomalias no subsolo sugere que ainda
existem câmaras maiores e possivelmente oferendas ou restos mortais da nobreza
zapoteca que nunca foram perturbados por saqueadores ou pelo tempo.
Esse avanço coloca o México novamente na vanguarda da
pesquisa histórica nas Américas. A Sociedade Geológica da América (GSA) tem acompanhado
estudos similares onde a tecnologia de resistividade revela como as
civilizações antigas interagiam com a geologia local para criar espaços de
poder. Em Mitla, os túneis servem como um arquivo físico de uma civilização
que, mesmo após a conquista, continuou a exercer sua influência através da
memória da paisagem sagrada. A validação científica dessas estruturas oferece
uma nova camada de interpretação para os fluxos migratórios e rituais que
definiram o vale de Oaxaca por mais de mil anos.
O futuro de Lyobaa e o desafio da conservação
arqueométrica
Com o mapeamento digital completo do subsolo, o próximo
desafio enfrentado pelas autoridades do Governo do México e pela comunidade científica é a
conservação e o acesso a esse conhecimento. Embora a abertura física dos túneis
para o turismo seja um processo complexo devido aos riscos estruturais para a
igreja, a criação de modelos em 3D e experiências de realidade virtual promete
democratizar a descoberta. A “passagem para o submundo” deixa de ser um relato
empoeirado em crônicas de frades dominicanos para se tornar um pilar da
identidade histórica de Oaxaca.
A descoberta em Mitla é um lembrete contundente de que a arqueologia moderna não precisa destruir para descobrir. A preservação de Lyobaa sob as fundações cristãs é um símbolo da resiliência das culturas pré-hispânicas. Enquanto o Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (ICOMOS) avalia os dados para garantir que a gestão do local siga padrões globais de proteção, o mundo volta seus olhos para o México, onde o passado e o presente coabitam em um labirinto de pedras e fé. O submundo zapoteca, enfim, emerge da escuridão dos mitos para a luz da evidência científica.
Fonte: Olabirinto sagrado que a igreja tentou esconder no México



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