segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Desmate fez civilização Nazca desaparecer do atual Peru, diz pesquisa

REINALDO JOSÉ LOPES
da Folha de S. Paulo

Folha Online (09/11/2009)


A imagem só pode ser definida como surreal: um tronco maciço de árvore, que deve ter levado séculos para atingir seu tamanho derradeiro, morto e abandonado na desolação do deserto costeiro do sul do Peru. Para uma equipe internacional de pesquisadores, a árvore é a prova de um crime ambiental pré-colombiano --um dos principais indícios de como a cultura nazca destruiu as bases de sua própria subsistência.
O grupo liderado pelos arqueólogos David Beresford-Jones, da Universidade de Cambridge (Reino Unido), e Susana Arce Torres, do Museu Regional de Ica (Peru), baseia a hipótese numa análise da vegetação e da dinâmica do solo no baixo vale do rio Ica, um dos desertos mais secos do mundo, com precipitação média de apenas 0,3 milímetro por ano.
Apesar da aridez, argumentam os pesquisadores, a região era habitável graças aos bosques milenares de árvores do gênero Prosopis (algarobeiras), conhecidos como "huarangales" entre os peruanos.
Os "hurangales" seriam a chave para manter rios e canais estáveis, com água disponível para uso humano e agrícola. Sem eles, a população nazca, famosa por desenhar no solo os gigantescos geoglifos que ainda podem ser vistos por quem sobrevoa o deserto costeiro do Peru, teria ficado vulnerável a um El Niño catastrófico.

Civilização destruída

O choque climático finalmente destruiu essa civilização por volta do ano 600 da Era Cristã. "O que nós estamos dizendo é que a mudança climática é apenas a causa imediata, e não a causa inicial, dessas mudanças", afirmou Beresford-Jones à Folha.
Os dados para afirmar isso vêm de uma área de 50 hectares na bacia de Samaca, hoje totalmente despida de vegetação. No entanto, escavações revelaram 54 troncos de algarobeira, erodidos pelo vento que hoje varre a área.
Em artigo na revista científica "Latin American Antiquity", o grupo conseguiu mostrar que há uma sucessão mais ou menos clara na vegetação de Samaca, que pode ser acompanhada nas camadas de pólen depositadas no sítio arqueológico.
Na parte mais funda, mais de 70% do pólen é de algarobeira, que formava uma espécie de mata ciliar seca. Há também sementes de coca e goiaba, provavelmente plantadas em conjunto com as árvores nativas.
Depois, o que predomina é o pólen de algodão e de milho, junto com o de ervas daninhas que aparecem quando a salinidade do solo aumenta --sinais, respectivamente, de agricultura intensiva e problemas com o uso da água. Finalmente, apenas o pólen dessas plantas aparece --coincidindo com a fase do colapso da cultura Nazca.
Para os arqueólogos, a derrubada das algarobeiras, que possuem um sistema de raízes profundo e grande capacidade de fertilizar o solo com nitrogênio, abriu as porteiras para o desastre. Quando intactas, as raízes das plantas teriam ajudado a deter a erosão e manter os canais de irrigação dos nazcas rasos e cheios de meandros, o que facilitava a distribuição de água no território.
Sem elas, o precioso líquido teria ficado cada vez mais inacessível, até que enchentes associadas ao grande El Niño teriam destruído de vez o sistema de canais.
"Certamente o crescimento populacional seria o fator óbvio capaz de levar o sistema a um ponto de não-retorno", diz Beresford-Jones. No entanto, ele diz que também é preciso levar em conta o surgimento de centros urbanos no altiplano do Peru, cuja influência se expandiu para a costa.
"Isso pode ter forçado a conversão excessiva de terras para a agricultura, visando mercados distantes, forçada por gente que não entendia as condições biofísicas da área", argumenta o britânico.

"Sonhando"

Apesar dos dados em favor do modelo, ainda deve demorar para que outros arqueólogos o aceitem. Giuseppe Orefici, do Centro Italiano de Estudos e Pesquisas Pré-Colombianas, é incisivo: "Não creio que esse senhor tenha alguma vez vindo a Nazca, onde trabalho faz 27 anos. Mas conseguiu achar um tema importante e na moda para fazer as pessoas sonharem".
Orefici concorda que, para produzir as vastas quantidades de cerâmica nazca achadas até hoje, foi preciso derrubar "uns 400 quilômetros quadrados" de mata, mas adverte: "Isso aconteceu ao longo de quase mil anos, e é irrelevante em termos de impacto ambiental".
O arqueólogo italiano, que trabalha no centro cerimonial de Cahuachi, diz que esse sítio importante foi destruído pela combinação de um El Niño portentoso com um grande terremoto, e afirma que o povo nazca tinha conhecimento técnico suficiente para "controlar de forma sábia" seu suprimento de água por meio de uma rede de aquedutos.
Beresford-Jones diz não se abalar com a ideia de que a pesquisa segue um modismo ambiental. "Certamente a nossa pesquisa é estimulada, em parte, pelo que vemos como sua relevância moderna. Não vamos pedir desculpas por causa disso." O arqueólogo diz temer que o mesmo destino dos centros nazcas sobrevenha à derrubada das poucas algarobeiras que sobraram nas regiões do sul do Peru que só foram ocupadas no século 20.

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