segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Imagens do Passado


Frederick Catherwood
"Galeria Principal do Palácio de Palenque"
México, 1841-1843

Geoglifos do Acre - gigantescas estruturas de terra revelam o passado das culturas amazônicas






Entrevista com Alceu Ranzi
Fotos: Sergio Valle

01 – Alceu, vamos começar com uma pergunta óbvia. O que é um geoglifo? Tecnicamente, como ele é construído? Existem diferenças de construção entre os geoglifos brasileiros e os encontrados no Chile, Peru e Bolívia?

Ranzi - A palavra geoglifo é composta de dois vocábulos. Geo - significa terra. Glifo – com o significado de marca, sinal ou grife. Os geoglifos amazônicos são construídos pela escavação de um fosso e a terra escavada é colocada cuidadosamente na parte externa formando uma mureta. Forma-se assim um desenho geométrico, em alto e baixo relevo. Os geoglifos brasileiros são de grandes dimensões, acarretando um movimento de terra fantástico. Nos Andes os geoglifos ocorrem em áreas de deserto, no Brasil é em plena floresta amazônica.

02 – Como o senhor se envolveu com este assunto? Conte-nos um pouco sobre suas pesquisas e dedicação aos geoglifos brasileiros.

Ranzi - Em 1977, no Acre, acompanhamos uma expedição, sob a coordenação do Dr. Ondemar Dias da UFRJ. Naquela oportunidade foi localizado o primeiro geoglifo, um grande circulo na Fazenda Palmares, no eixo da BR 317.
Em 1986 lideramos uma busca aérea e conseguimos as primeiras fotografias de um geoglifo do alto. O fotógrafo foi o acreano Agenor Mariano e a foto foi publicada no Jornal O Rio Branco. Hoje esse geoglifo é denominado Seu Chiquinho.
Depois disso, por mais de dez anos, nos dedicamos inteiramente à paleontologia, estudo da megafauna da Amazônia. Ao mesmo tempo os arqueólogos se dedicaram a escavar, catalogar e analisar as cerâmicas das “estruturas de terra”. Talvez os arqueólogos, atraídos pela cerâmica e não pela observação aérea, não tenham percebido a monumentalidade dos geoglifos.
Em 1999, por puro acaso, avistamos da janela de um avião comercial, outro geoglifo circular, num vôo entre Porto Velho e Rio Branco. Notar que nossa formação básica é em geografia e paisagem que visualizamos do alto nos deixou impressionados.
Como o assunto, apesar de tantos anos de conhecimento, não havia chegado ao grande público, resolvemos registrar com fotos e fazer ampla divulgação. Assim, conseguimos com o apoio do Governo do Estado do Acre, os recursos e o avião para os sobrevôos. O fotógrafo que nos acompanhou foi o Édison Caetano. As fotos ficaram belíssimas e foram amplamente divulgadas pela imprensa nacional e internacional.

03 – Os geoglifos amazônicos são conhecidos desde a década de 70. Deste então, como andam os trabalhos de pesquisa dessas imensas estruturas? Existe atualmente algum grande projeto de catalogação relacionado a eles?

Ranzi – Como disse anteriormente os geoglifos do Acre são conhecidos desde 1977. Mas o primeiro artigo sobre o tema só foi publicado em 1988 por Ondemar Dias e Eliana Carvalho, portanto onze anos depois da descoberta. O grande público só tomou conhecimento mesmo a partir do ano 2000 com as fotos do Edison Caetano.
Atualmente os projetos em andamento estão sob a Coordenação da Dra. Denise Schaan da Universidade Federal do Pará. Um dos projetos, para a escavação de cinco geoglifos, conta com a colaboração da Universidade Federal do Acre, Museu Goeldi e a Universidade de Helsinki, com financiamento da Academia de Ciências da Finlândia. O outro projeto, com o apoio do CNPq, da Universidade Federal do Acre e do Governo do Estado do Acre, visa o registro, a catalogação, fotos e desenhos de todos os geoglifos conhecidos, fazendo o uso de sobrevôos, fotografias aéreas e imagens de satélite.

04 – Quando falamos em geoglifos, imediatamente lembramos das famosas Linhas de Nasca, no Peru. Tive a oportunidade de conhecer este e outros localizados em Arica e Iquique, no norte do Chile. Podemos afirmar que ocorreu na América do Sul, um grande “movimento” de construção de geoglifos entre 500 aC e 1000 dC? Os geoglifos brasileiros fariam parte deste “movimento”?

Ranzi - Acredito que devemos ser parcimoniosos ao tentar fazer relação entre os geoglifos clássicos do Atacama e os geoglifos do Acre. São duas realidades distintas, uma nas terras úmidas da Amazônia e a outra no deserto do Atacama.

05 – Muitos arqueólogos chilenos afirmam que estas manifestações serviam como sinais de orientação para caravanas de comércio entre o litoral e as terras altas. Esta idéia faz sentido, uma vez que os geoglifos estão localizadas no topo de morros, em locais estratégicos. O que pensa desta teoria? Os geoglifos brasileiros teriam a mesma função?

Ranzi - Os geoglifos do Atacama estão em locais elevados, permitindo sua visão à distância. Os geoglifos brasileiros estão na planície, pela inexistência de morros, a sua vista completa é sempre limitada. Na Amazônia, a visão do alto, em sua plenitude, somente é possível com o uso de pequenos aviões e helicópteros.

06 – Muitos sítios arqueológicos – principalmente no Peru – são saqueados e destruídos em busca de objetos metálicos pelos huaqueros (caçadores de tesouros). Os geoglifos brasileiros não correm este risco. Hoje, quais são os fatores que ameaçam a integridade dos geoglifos?

Ranzi - O que ameaça os geoglifos do Acre é o desconhecimento e a ignorância. Apesar da legislação, rodovias federais foram abertas, construídas e asfaltadas, cortando geoglifos. Projetos de assentamento do Incra foram implantados em áreas de ocorrência de geoglifos. Ao mesmo tempo em que o desmatamento da Amazônia revelou os geoglifos, o pisoteio do gado e as máquinas agrícolas são uma ameaça constante. A partir da divulgação da existência desses monumentos, o Ministério Público Federal e o Ministério Público Estadual do Acre, em recomendação conjunta, determinaram que doravante, nos estudos de impacto ambiental dos projetos em implantação, a variável geoglifos seja levada em consideração.

07 – Alceu, uma coisa me desperta curiosidade... Os geoglifos de Nasca e do Atacama foram feitos em terreno limpo, sem árvores. Os geoglifos brasileiros estão sob a floresta. Devemos entender que, na época de sua construção, não existia a floresta amazônica?

Ranzi - Estudando a megafauna do Acre, chegamos à conclusão de que há alguns milhares de anos passados na Amazônia Ocidental predominava um ambiente de savana. Foi uma surpresa. Mas isso só veio confirmar os modelos propostos por Aziz Ab’Saber e outros. Devemos observar que os geoglifos foram construídos por uma cultura que viveu no Acre, a partir de 2000 anos passados. A ocorrência de geoglifos no Acre também é um forte indicativo de ausência da floresta. Posteriormente, a floresta, como nós conhecemos, ocupou, recobriu e mascarou a paisagem cultural dos povos construtores de geoglifos. O mesmo ocorreu na América Central, onde a floresta recobriu os templos e pirâmides Maias em Honduras e Guatemala.

08 – Quais foram às culturas amazônicas responsáveis pela construção dos geoglifos? Esses povos representaram, como em Nasca, figuras antropomorfas e zoomorfas? Pode haver alguma ligação entre as figuras e a mitologia desses povos?

Ranzi - Essas são perguntas que os projetos multidisciplinares em andamento tentarão responder. Pelo que sabemos a representação dos geoglifos do Acre é composta por desenhos geométricos, em especial círculos simples e duplos, retângulos, quadrados simples e duplos e octógonos. A monumentalidade poderia ser um traço marcante comum.

09 – Recentemente, foi anunciada a investigação de um monumento localizado no Amapá, semelhante a Stonehenge. Sua função como observatório celeste é inegável. Os índios brasileiros manifestavam de forma rotineira essa preocupação de observar os corpos celestes? Acredita que os geoglifos tenham alguma ligação com isso?

Ranzi - O Dr. Michael Heckenberger, da Universidade da Florida, acredita que os geoglifos do Acre tinham finalidades cerimoniais. Essa seria uma das razões de sua monumentalidade – a comunicação com entes superiores. Como não existem pedras no Acre, só restaram os vestígios da movimentação intensa de terra. Não temos inferências para afirmar que os geoglifos estavam alinhados ou direcionados com algum corpo celeste.

10 – Quando falamos em geoglifos amazônicos, devemos pensar em que outros Estados além do Acre? No norte da Bolívia foram encontradas manifestações deste gênero? Quantas formações foram localizadas até o momento?

Ranzi - Além do Acre, já temos informações seguras da ocorrência de geoglifos nos Estados do Amazonas e Rondônia. Na região de Baures, no Departamento do Beni, na Bolívia, o Dr. Clark Erickson registrou a ocorrência dessas estruturas. Os últimos levantamentos (junho de 2008) indicam que aproximadamente 150 dessas estruturas já foram catalogadas.

11 – Os geoglifos de Nasca são conhecidos mundialmente graças às desastrosas teorias de Erich Von Daniken. No Brasil, os geoglifos são desconhecidos do grande público. Como a imprensa brasileira está tratando o assunto? Existe sensacionalismo na abordagem do tema?

Ranzi – Embora fazer jornalismo científico seja uma arte, existem várias reportagens escritas de boa qualidade sobre os geoglifos do Acre, mas é difícil ao profissional escapar dos “deuses astronautas”. Os geoglifos foram tema de reportagens das Revistas IstoÉ, National Geographic e Época. Vários dos grandes jornais brasileiros se dedicaram ao assunto, alguns enviaram seus próprios profissionais ao Acre. Vale ressaltar que na televisão os geoglifos do Acre são temas constantes nas emissoras de Rio Branco e já foram veiculados pelo Fantástico da Rede Globo. Digno de nota é que, nesses oito anos de nosso envolvimento maior com o assunto, os jornalistas profissionais do Acre perceberam o potencial midiático dos geoglifos e com seu trabalho tem pautado a grande imprensa nacional e internacional. A maioria das fotos que mostram os geoglifos foi obra de profissionais do Acre, em especial Édison Caetano e Sergio Vale.

12 – Da década de 70 para cá, quais as principais inovações tecnológicas que permitiram o melhor estudo dos geoglifos? Vejo pesquisadores autônomos que hoje utilizam ferramentas caseiras como o Gloogle Earth, com resultados surpreendentes.

Ranzi - Até a década de 1970 a Amazônia Ocidental estava quase intocada pelos grandes projetos agropecuários. A floresta estava em pé e os geoglifos invisíveis. O uso intensivo de sobrevôos, para a obtenção de fotos aéreas visando o registro dos geoglifos aconteceu a partir do ano de 2000. Imagens de satélite com boa resolução e o advento do Google Earth permitiram a localização de novos geoglifos sem a necessidade de usar aviões. Em 2007, juntamente com Roberto Feres e Foster Brown da Universidade do Acre, publicamos um artigo sobre o uso do Google Earth para a localização de geoglifos na Amazônia (Ranzi, A. & Feres, R. e Brown, F. 2007 Internet Software Programs Aid in Search for Amazonian Geoglyphs. American Geophysical Union - EOS (88)21:226 e 229).

13 – Em Nasca, a arqueóloga Maria Reich travou uma longa e dura batalha até conseguir a proteção daqueles geoglifos. Hoje, Nasca é Patrimônio da Humanidade. Qual o caminho a seguir para a preservação de nossos geoglifos? Transformar aglomerações de geoglifos em Parques Nacionais com visitação controlada é uma opção?

Ranzi - O Governo do Acre demonstrou interesse em divulgar os geoglifos e desenvolver uma indústria turística, tendo os geoglifos como atração. Estuda-se a possibilidade da construção de torres de observação. Ao mesmo tempo o Governo do Acre, por recomendação do governador Binho Marques, está investindo em sua catalogação, registro, documentação e publicação de um livro. Apesar do esforço do Governo do Acre, como os geoglifos são patrimônio da União, em última análise compete ao IPHAN às medidas de educação patrimonial e preservação. O Dr. Martti Parssinen, da Universidade de Helsinki, acredita que os geoglifos do Acre possuem o potencial para tombamento, pela UNESCO, como Patrimônio da Humanidade. Mas para isso acontecer primeiro teremos que fazer o dever de casa - tombar os geoglifos como Patrimônio de todos os brasileiros.

Alceu Ranzi - Membro Efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Acre. Graduado em Geografia, Mestre em Geocências e Doutor em Ecologia da Vida Selvagem. Autor do livro Paleoecologia da Amazônia - Megafauna do Pleistoceno, Editora da UFSC, Florianópolis, 2000. Juntamente com Rodrigo Aguiar é autor do livro Geoglifos da Amazônia - Perspectiva Aérea, Faculdades Energia, Florianópolis. Atualmente é membro do Grupo de Pesquisas Geoglifos da Amazônia, sob a coordenação da Dra. Denise Schaan da UFPA e da Dra. Miriam Bueno da Universidade Federal do Acre. Site: www.geoglifos.com.br

Livros



A Estrada do Sol - o redescobrimento das estradas dos Incas é uma daquelas obras clássicas da década de 50 capaz de direcionar a vida de uma pessoa. Olho hoje para esse livro com muito carinho, pois ele foi um dos responsáveis pela minha decisão em estudar História e por realizar tantas viagens à Cordilheira dos Andes. O autor Victor W. Von Hagen conta em detalhes sua expedição em busca do antigo sistema de comunicação da cultura incaica. Sua narrativa é uma hábil mistura de romance arqueológico, aventura e informações científicas. Ao final do texto, o leitor certamente ficará estupefado com a magnitude dessa verdadeira obra de engenharia dos povos pré-colombianos. Uma obra tão colossal, que merece certamente a fama de maravilha do mundo. Foi emocionante para mim, poder caminhar e verificar várias das histórias de Victor pessoalmente, em especial na região do lago Titicaca. Recomendo a todos que queiram iniciar seus estudos sobre as culturas pré-colombianas da América do Sul.

A obra pode ser encontrada em vários sebos, sem muita dificuldade:
www.estantevirtual.com.br/ (média de R$25,00)

Von Hagen, Victor W. A Estrada do Sol - o redescobrimento das estradas dos Incas. Editora Melhoramento, s/d, São Paulo, SP.

Imagens do Passado


Frederick Catherwood
"Colossal Cabeça em Izamal"
México, 1841-1843

Desmate fez civilização Nazca desaparecer do atual Peru, diz pesquisa

REINALDO JOSÉ LOPES
da Folha de S. Paulo

Folha Online (09/11/2009)


A imagem só pode ser definida como surreal: um tronco maciço de árvore, que deve ter levado séculos para atingir seu tamanho derradeiro, morto e abandonado na desolação do deserto costeiro do sul do Peru. Para uma equipe internacional de pesquisadores, a árvore é a prova de um crime ambiental pré-colombiano --um dos principais indícios de como a cultura nazca destruiu as bases de sua própria subsistência.
O grupo liderado pelos arqueólogos David Beresford-Jones, da Universidade de Cambridge (Reino Unido), e Susana Arce Torres, do Museu Regional de Ica (Peru), baseia a hipótese numa análise da vegetação e da dinâmica do solo no baixo vale do rio Ica, um dos desertos mais secos do mundo, com precipitação média de apenas 0,3 milímetro por ano.
Apesar da aridez, argumentam os pesquisadores, a região era habitável graças aos bosques milenares de árvores do gênero Prosopis (algarobeiras), conhecidos como "huarangales" entre os peruanos.
Os "hurangales" seriam a chave para manter rios e canais estáveis, com água disponível para uso humano e agrícola. Sem eles, a população nazca, famosa por desenhar no solo os gigantescos geoglifos que ainda podem ser vistos por quem sobrevoa o deserto costeiro do Peru, teria ficado vulnerável a um El Niño catastrófico.

Civilização destruída

O choque climático finalmente destruiu essa civilização por volta do ano 600 da Era Cristã. "O que nós estamos dizendo é que a mudança climática é apenas a causa imediata, e não a causa inicial, dessas mudanças", afirmou Beresford-Jones à Folha.
Os dados para afirmar isso vêm de uma área de 50 hectares na bacia de Samaca, hoje totalmente despida de vegetação. No entanto, escavações revelaram 54 troncos de algarobeira, erodidos pelo vento que hoje varre a área.
Em artigo na revista científica "Latin American Antiquity", o grupo conseguiu mostrar que há uma sucessão mais ou menos clara na vegetação de Samaca, que pode ser acompanhada nas camadas de pólen depositadas no sítio arqueológico.
Na parte mais funda, mais de 70% do pólen é de algarobeira, que formava uma espécie de mata ciliar seca. Há também sementes de coca e goiaba, provavelmente plantadas em conjunto com as árvores nativas.
Depois, o que predomina é o pólen de algodão e de milho, junto com o de ervas daninhas que aparecem quando a salinidade do solo aumenta --sinais, respectivamente, de agricultura intensiva e problemas com o uso da água. Finalmente, apenas o pólen dessas plantas aparece --coincidindo com a fase do colapso da cultura Nazca.
Para os arqueólogos, a derrubada das algarobeiras, que possuem um sistema de raízes profundo e grande capacidade de fertilizar o solo com nitrogênio, abriu as porteiras para o desastre. Quando intactas, as raízes das plantas teriam ajudado a deter a erosão e manter os canais de irrigação dos nazcas rasos e cheios de meandros, o que facilitava a distribuição de água no território.
Sem elas, o precioso líquido teria ficado cada vez mais inacessível, até que enchentes associadas ao grande El Niño teriam destruído de vez o sistema de canais.
"Certamente o crescimento populacional seria o fator óbvio capaz de levar o sistema a um ponto de não-retorno", diz Beresford-Jones. No entanto, ele diz que também é preciso levar em conta o surgimento de centros urbanos no altiplano do Peru, cuja influência se expandiu para a costa.
"Isso pode ter forçado a conversão excessiva de terras para a agricultura, visando mercados distantes, forçada por gente que não entendia as condições biofísicas da área", argumenta o britânico.

"Sonhando"

Apesar dos dados em favor do modelo, ainda deve demorar para que outros arqueólogos o aceitem. Giuseppe Orefici, do Centro Italiano de Estudos e Pesquisas Pré-Colombianas, é incisivo: "Não creio que esse senhor tenha alguma vez vindo a Nazca, onde trabalho faz 27 anos. Mas conseguiu achar um tema importante e na moda para fazer as pessoas sonharem".
Orefici concorda que, para produzir as vastas quantidades de cerâmica nazca achadas até hoje, foi preciso derrubar "uns 400 quilômetros quadrados" de mata, mas adverte: "Isso aconteceu ao longo de quase mil anos, e é irrelevante em termos de impacto ambiental".
O arqueólogo italiano, que trabalha no centro cerimonial de Cahuachi, diz que esse sítio importante foi destruído pela combinação de um El Niño portentoso com um grande terremoto, e afirma que o povo nazca tinha conhecimento técnico suficiente para "controlar de forma sábia" seu suprimento de água por meio de uma rede de aquedutos.
Beresford-Jones diz não se abalar com a ideia de que a pesquisa segue um modismo ambiental. "Certamente a nossa pesquisa é estimulada, em parte, pelo que vemos como sua relevância moderna. Não vamos pedir desculpas por causa disso." O arqueólogo diz temer que o mesmo destino dos centros nazcas sobrevenha à derrubada das poucas algarobeiras que sobraram nas regiões do sul do Peru que só foram ocupadas no século 20.

Cidade Maia na Guatemala pode ter acabado após luta em pirâmide

SARAH GRAINGER
da Reuters, em El Salvador

Folha Online (10/09/2009)

Uma das maiores cidades maias da Guatemala pode ter desaparecido numa violenta batalha, no alto de uma gigantesca pirâmide, entre a família real e invasores vindos de centenas de quilômetros de distância, disseram arqueólogos.
Pesquisadores estão fazendo testes de DNA em amostras de sangue provenientes de centenas de pontas de flechas e lanças encontradas com fragmentos de osso e cerâmica na cúpula da pirâmide El Tigre, na cidade maia de El Mirador, enterrada sob vegetação de floresta a 8 quilômetros da fronteira da Guatemala com o México.
Boa parte das lâminas é feita de obsidiana, cuja fonte os arqueólogos localizaram a centenas de quilômetros de distância numa região montanhosa do México. Eles acreditam que as lanças pertenceram a guerreiros de Teotihuacan, uma antiga civilização perto da Cidade do México e aliada de Tikal, cidade inimiga de El Mirador. "Encontramos mais de 200 flechas de obsidiana, assim como de pedra, indicando que houve uma tremenda batalha", afirmou o líder da escavação Richard Hansen, cientista do departamento de antropologia da Idaho State University que defende a teoria da batalha na pirâmide. "Parece que esse era o ponto final de defesa para um pequeno grupo de habitantes," afirmou ele à Reuters.
El Mirador é uma das maiores cidades antigas no Hemisfério Ocidental e acredita-se que tenha abrigado no seu auge entre 100 mil e 200 mil pessoas. Historiadores estimam que ela tenha sido construída em torno de 850 a.C., cresceu durante centenas de anos antes de ser misteriosamente abandonada em 150 a.C., afirmou.
Muitos arqueólogos acreditam que a culpa por isso deve ser atribuída à decoração de estuque dos prédios da cidade, pois os moradores usaram as pedras, árvores e o reboco à base de cal nas construções até o esgotamento completo dos recursos.
A equipe de Hansen acredita que um grupo de cerca de 200 pessoas, que se supõe ser os últimos remanescentes da família real, permaneceu na metrópole em ruínas até serem atacados por guerreiros de Teotihuacan.
Eles acreditam que os invasores eram aliados de Tikal, situada cerca de 60 quilômetros a sudeste, que se ressentia de ser engolfada pelas enormes pirâmides de El Mirador e queria se certificar de que o inimigo não se recuperasse jamais. Eles acham que os guerreiros de Teotihuacan fizeram um cerco aos sobreviventes antes da sangrenta batalha selar o destino da cidade.
Os arqueólogos de Hansen encontraram inscrições que eles acreditam ter sido deixadas pelos combatentes de Teotihuacan, que destruíram monólitos maias e deixaram desenhos conhecidos como Tlalocs em pedras, como prova de sua vitória.

Imagens do Passado


Frederick Catherwood
"A Porta do Grande Teocalis"
Uxmal, México, 1841-1843

O Mistério da Pedra do Ingá


Texto de Vanderley de Brito

A Pedra do Ingá, uma rocha que se sobressai soberba em meio a um lajedo aflorado à margem esquerda do riacho Bacamarte, na Paraíba, interior do Brasil, com seus inúmeros curiosos desenhos entalhados, é um monumento arqueológico que excita perplexidade até naqueles mais apáticos aos mistérios latentes da humanidade. E, como tal, não fica a dever aos mais extraordinários e misteriosos feitos das remotas sociedades primitivas da Terra.

No Peru existe a espantosa série de padrões geométricos sulcados no chão, de imensos desenhos cobrindo grandes áreas e tão grandes que só podem ser distinguidos do ar, e
que até hoje é difícil saber o objetivo ou como puderam os antigos indígenas de Nazca os tracejaram sem o necessário distanciamento. Na Inglaterra há os misteriosos círculos monolíticos de Stonehenge, os intrigantes dolmens e as longas fileiras de menires, cujo mistério reside não só no tamanho das pedras e na questão de como foram transportadas e colocadas nos seus lugares, porém mais ainda no padrão racional destas construções pré-históricas. Como estas curiosidades, podemos ainda citar as imensas pirâmides egípcias, maias, astecas e toltecas e tantas outras intrigantes obras da Idade da Pedra cujo mistério é ainda palpitante.
No Ingá, o monumento ígneo é formado por um elaborado conjunto de símbolos que foram, em tempos remotos, perfeitamente entalhados e polidos em sua dura superfície gnáissica. Ainda não existe qualquer resposta sobre o que veio a representar ou mesmo quem foram estes complexos povos pré-históricos, cujo monumento vem ser um testemunho de seu grau artístico-cultural. É pouco provável que os gráficos do Ingá representem um conjunto ideográfico, como os hieróglifos egípcios, ou silábico, como a escrita cuneiforme do antigo Oriente Médio.
A sua disparidade e, principalmente, a falta de conexões sistêmicas que sugira uma organização textual, testemunha muito pouco em favor de uma escrita. No entanto, é inegável que ali contém uma mensagem cifrada.

O sítio ocupa um hectare de área tombada como “Monumento Nacional” pelo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - SPHAN - atual IPHAN - desde 30 de novembro 1944 por vias do Museu Nacional do Rio de Janeiro e iniciativa do pesquisador José Anthero Pereira Júnior, sendo o segundo monumento pré-histórico tombado em nosso país (1).
No seu principal painel, ora denominado de “Painel Vertical”, existe uma grande profusão de sinais, extraordinariamente complexos, gravados extensamente ao longo de um opulento paredão em gnaisse, de 46m de comprimento por 3,8m de altura, que se eleva no lajedo do riacho Bacamarte, no sítio Pedra Lavrada, município de Ingá. Além deste atípico mural em parede longitudinal, na adjacência imediata, há dois outros gravados no piso horizontal.Os quais, segundo proposta do pesquisador Gilvan de Brito, denominamos de painéis: “Superior”; localizado no dorso da formação, e “Inferior”; insculpido de frente ao painel vertical, no lajedo à base do paredão, onde se observa um conjunto de possíveis astros que muitos já aludiram semelhanças com a configuração da constelação de Orion.

O conjunto principal da Pedra do Ingá é composto por insculturas profundamente sulcadas, em obediência a complexos motivos gráficos, que até hoje intriga cientistas e todos os demais que se depara com sua primorosa composição petrográfica. Indubitavelmente, o complexo rochoso do riacho Ingá do Bacamarte é o mais famoso e visitado sítio de gravura rupestre do Brasil e referenciado internacionalmente. No entanto, nas paredes de outras rochas do pedregal também existem símbolos gravados que se apresentam sinópticos e sob técnica de gravação superficial e tosca, diferente, portanto, daquelas gravuras largas, profundas, bem polidas e conjuntas dos painéis do conjunto principal. Sob aparente frivolidade, estes diversos registros ignóbeis, segundo proposição terminológica do estudioso Thomas Bruno Oliveira, da Sociedade Paraibana de Arqueologia (2), denominamos de inscrições “Marginais”. Estas, se apresentam raspadas no lajedo suporte do pedregal como também picoteadas ornando o piso, paredes e caldeirões de margens de uma pitoresca corredeira do riacho Bacamarte, encerrada entre paredes, que se localiza imediatamente por traz do mesuro conjunto de inscrições.

Os sinais rupestres do Ingá foram insculpidos com apurada técnica e, segundo cremos, por uma comunidade pré-histórica, que ao longo dos recursos hídricos gravava duras rochas com fino acabamento e polimento e que, não se sabe por que, em algum momento de nossa pré-história essa prática estagnou na inatividade. A simbologia e suas formas simétricas muito elaboradas variam entre: pontos capsulares agrupados, retângulos gradeados, figuras antropomorfas, zoomorfas, possíveis fitomorfos, sulciformes, contornos curvilíneos, círculos pendulares, cortados, cheios, concêntricos e outras formas ambíguas. Cultura gráfica recôndita que certamente materializa em seus elementos constitutivos as definições imaginárias - profundas e autênticas - de um determinado grupo social extinto.
Naturalmente, muito se conjectura sobre a origem destas intrigantes gravuras, que são atribuídas a finalidades e artífices diversos; desde povos vindos de outras longitudes continentais até alienígenas vindos do firmamento sideral. Segundo a arqueóloga Gabriela Martin, da Fundação do Homem Americano – FUMDHAM (3), estas propostas fantásticas que cercam o monumento gráfico do Ingá vêm afastando os pesquisadores acadêmicos. De fato, a Pedra do Ingá é historicamente marcada pelo sensacionalismo.

Seguramente, a Pedra do Ingá já perdeu muito dos primitivos sinais e tantos outros perderam espessura e apresentam tão somente resquícios. Uma reprodução do painel realizada pelo museólogo Balduíno Lélis há mais de 15 anos, por encomenda do Banco do Estado da Paraíba, exibe representações que hoje não mais figuram no painel. José Anthero Pereira Jr., quando de sua visita ao Ingá, em fevereiro de 1945, recolheu informes entre pessoas nascidas e criadas naquela região, que há trinta anos passados muitos outros sinais figuravam no rochedo, que era então quase totalmente insculpido na sua face vertical. Há informes também, do professor Clóvis Lima dos Santos, que até a década de 1950 o conjunto de pedras com inscrições rupestres era bem maior, ocupando área de 1.200m2, mas, infelizmente, segundo o engenheiro Leon Clerot, que durante décadas desenvolveu pesquisas arqueológicas na Paraíba, em 1953 surpreendeu operários destruindo o pedregal e os blocos da cercadura nas duas margens do riacho estavam sendo reduzidos a rachões e paralelepípedos para a pavimentação das ruas da Capital. Embora tardia, a ação foi sustada pela Prefeitura do Município e pelo IPHAN, depois de denúncia formulada pela Sociedade Paraibana de História Natural.
A Pedra, muito provavelmente, apesar de já muito depredada, ainda comporta um modelo rudimentar de pré-escrita, cuja chave da decodificação se perdeu no transcorrer dos milênios e, é bem possível que oculte um código mnemônico melódico, onde cada símbolo individual represente toda uma linguagem reunindo morfemas, lexicais e gramaticais, que venha expressar, de forma polissíntese, palavras ou mesmo frases rítmicas completas.

Portanto, na Pedra do Ingá, assim como nos muitos mistérios monumentais da humanidade, repousa segredos ininteligíveis. Contudo, no Ingá os segredos remontam uma possível sociedade degenerada e, talvez, só se encontre alguma plausibilidade conjetural se empreendidas pesquisas dedicadas à mitologia comparativa. Uma vez que os ameríndios sul-americanos são os únicos remanescentes deste passado perdido, que podem ter guardado, hermético nas entrelinhas de seus mitos, algumas pistas sobre estes antepassados elaboradores de itacoatiaras. Hierática, ou sacerdotal, não há pista alguma acerca da língua oculta naqueles entalhes. Pois, através da cultura rupestre que representa, temos apenas uma vaga noção de padrões gráficos. Mas se algum dia descobrirmos o que dizem aqueles baixo-relevos petrificados no passado – cujas possibilidades são exíguas – com certeza saberemos muito mais sobre a origem de nossa civilização, nosso passado cultural, nossa pré-história e, talvez, sobre nós mesmos.

Notas:

1 - O primeiro sítio pré-histórico tombado no Brasil foi o sambaqui do Pindaí (1939) em São Luís do Maranhão, por iniciativa do pesquisador Raimundo Lopes.

2 - SPA, Sociedade civil fundada em Campina Grande, registrada no Cartório do Único Ofício Maria das Neves Ramos Vidal Ribeiro em 11 out./2006, presidida pelo autor desse artigo, com objetivo de reunir pesquisadores afins para fomentar as pesquisas arqueológicas na Paraíba.

3 - FUMDHAM, ONG dirigida pela arqueóloga Niéde Guidon que administra os 1.291 km2 do Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, em co-gestão com o Ibama e o Ministério da Cultura.

Vanderley de Brito é historiador, pós-graduado em História do Brasil, pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), e especialista emérito em pré-história da Paraíba, pela soma de estudos empreendidos na área, em especial na Pedra do Ingá. É também autor dos livros: “A Serra de Bodopitá: pesquisas arqueológicas na Paraíba” (2006); “A Pedra do Ingá: itacoatiaras na Paraíba”, em duas edições (2007/2008); “Arqueologia na Borborema” (2008); e co-organizador do livro “Pré-história: estudos para a arqueologia da Paraíba” (2007). Contato: vanderleydebrito@gmail.com

Imagens do Passado


Frederick Catherwood
"Idolo em Copan", Honduras, 1841-1843

Machu Picchu: a "descoberta da Cidade perdida dos Incas" (parte 2)



Texto de Dalton Delfini Maziero

Além de Lomellini, Bingham contou com o apoio de outros participantes americanos (Isaiah Bowman, geólogo/topógrafo; William G. Erving, cirurgião; Kai Hendrikson, topógrafo; Harry W. Foote, naturalista; H. L. Tucker, engenheiro e Paul B. Lanius, assistente) e vários carregadores. O grupo seguiu através do majestoso Vale do Urubamba, sempre acompanhado do caudaloso e barrento rio de mesmo nome. No caminho, conheceu várias ruínas menores como Salapuncu, Llajtapata, Q'ente, Torontoy, além da grande Ollantaytambo. Para desespero da equipe, que já se impacientava com as dificuldades do trajeto, a cada nova ruína visitada, eram obrigados a ouvir de Bingham que não era aquilo o que procurava, citando de cabeça os detalhes encontrados nas crônicas antigas. Ele buscava uma capital, local que deveria abrigar grandes edifícios, com templos, sepulturas e patamares. Nenhuma das ruínas vistas até então eram dignas das descrições de religiosos e soldados espanhóis na época da conquista.

Por onde passava, Bingham perguntava aos camponeses sobre grupos arqueológicos. Em uma dessas paradas, na localidade de Mandorpampa, interrogou através de um intérprete, o camponês quêchua conhecido como Melchor Artega, que de imediato apontou para o alto da montanha dizendo: "Machupijchu", traduzido como "Topo Antigo".
Melchor não compreendia qual o interesse dos estrangeiros naquele amontoado de pedra, e relutou em levá-los ao local, resistência que logo esmoreceu frente ao pagamento de "um Sol", o equivalente a três salários básicos do país, na época. A subida, na manhã chuvosa e fria do dia 24 de junho de 1911, foi desgastante e perigosa. A travessia por uma ponte que não passava de alguns troncos deitados sobre o caudaloso Urubamba, foi somente uma amostra das dificuldades da região. Qualquer escorregão seria fatal. Como se não bastasse, tiveram que se embrenhar num mato espesso, correndo risco de serem mordidos a qualquer momento pela temida "serpente de ouro", também conhecida como "chicotillo", uma cobra venenosa capaz de grandes saltos. Para surpresa de Bingham, a cansativa subida acabou com o encontro de outros camponeses já na entrada das ruínas, que os receberam com cabaças cheias de água. As duas famílias que lá se encontravam, eram chefiadas por Toribio Richarte e Anacleto Alvarez, que plantavam batatas, abóboras e legumes nos antigos patamares de Machu Picchu, com o intuito de fugirem dos impostos próximos às cidades. A desilusão do arqueólogo era evidente. Ao invés de templos, havia encontrado duas cholpanas miseráveis.

Após um breve descanso, Bingham foi acompanhado por um garoto índio que o levou por entre árvores, muita vegetação e pedras soltas, até a encosta da montanha, de onde revelou-se uma imagem irreal. Como por encanto, enormes patamares de plantio se abriram aos seus olhos, e uma centena de estruturas arquitetônicas deixavam-se ver por entre emaranhados de arbustos e árvores. O garoto - cujo nome nunca é citado, é procurado por outras expedições sem que jamais seja encontrado novamente - leva-o até a Tumba Real, o Templo das Três Janelas e o Templo Principal. Desta forma, Machu Picchu deixa seu abandono secular, para revelar-se ao mundo moderno.

Ao contrário do que muitos possam pensar, Machu Picchu era bem diferente do que se vê hoje. Bingham encontrou uma cidade em ruínas, um emaranhado de pedras desconexas, arbustos, raízes e amontoados disformes. Contudo, naquela visão caótica, estava uma das mais notáveis cidades incaicas, que levaria anos para ser reconstruída. Apesar da fantástica descoberta, Bingham descobriria, pouco tempo depois, que não era aquilo que procurava. Os primeiros estudos das ruínas mostraram a ele que Machu Picchu não era Vilcabamba la Vieja, a última morada dos incas. Um feliz engano - devemos confessar - que acabou por revelar ao mundo, um dos melhores exemplos da urbanística incaica.

domingo, 29 de novembro de 2009

Restauração de pirâmide gera polêmica entre UNESCO e Bolívia

O ministro da Cultura da Bolívia disse não acreditar que a restauração de parte de uma pirâmide de 2.500 anos possa fazer com que o local perca a designação de Patrimônio Mundial da Humanidade.
Uma delegação da Unesco visitará a região este ano para decidir se as obras mudaram significativamente o local, a ponto de ele ser retirado da lista de Patrimônios Mundiais.
O ministro boliviano, Paul Groux, disse à BBC que o governo interrompeu as obras na pirâmide de Akapana, na cidade de Tiwanaku, no oeste do país, no começo deste ano, a pedido da Unesco.
Ele disse ser improvável que a Unesco venha a retirar Akapana de sua lista de patrimônio mundial porque a pirâmide não chegou a ser excessivamente alterada.
Arqueólogos que trabalham na restauração usaram barro e gesso à base de argila, em vez de pedras na reforma da estrutura, despertando críticas na comunidade científica internacional.
Para alguns especialistas, a obra poderia provocar até o desabamento da pirâmide.
A pirâmide de Akapana, construída há 2.500 anos, é uma das maiores e mais antigas construções pré-hispânicas da América do Sul. Ela teve grande influência na civilização Tiwanaku, que é anterior ao império Inca.
Para Jose Luis Paz, arqueólogo boliviano que foi nomeado em junho para avaliar danos na pirâmide, a estatal de arqueologia boliviana Unar cometeu um erro grave ao reconstruir parte da pirâmide com barro, em vez de pedra.
Paz disse que as autoridades de Tiwanaku tinham simplesmente pedido a Unar para que desse um jeito de tornar as pirâmides mais atraentes para turistas.
Mas Groux defendeu a Unar, dizendo que a restauração deixou a estrutura bem mais parecida com seu formato original.
(Folha Online, 21/10/2009)

Machu Picchu: A descoberta da "Cidade perdida dos Incas" (Parte 1)


Texto de Dalton Delfini Maziero

Pode uma cidade das proporções de Machu Picchu, ficar "perdida" por tantos séculos? Muitos tem falado dos mistérios que estas ruínas custam a revelar, mas poucos comentam hoje sobre os detalhes de sua inusitada e quase casual descoberta, feita pelo norte americano Hiram Bingham em 1911.

Como se "perde" uma cidade? Machu Picchu não esteve propriamente "perdida", como falam quase todos que se referem a ela. O termo - bastante impróprio - trás contudo, um ar de mistério e romantismo ao local. Certo seria chamá-la de "abandonada". E assim realmente esteve durante muitos anos. Abandonada sim, levando-se em conta que após a queda dos incas, jamais voltou a ser ocupada enquanto cidade, como em seu glorioso passado, mas ao que parece, nunca completamente esquecida.
A descoberta de Machu Picchu é quase tão fascinante quanto o estudo de suas construções, revelando-nos um lado repleto de surpresas e pouco conhecido dos milhares de visitantes que para lá se dirigem todos os anos. Sua história, para o mundo moderno, tem início durante o século XIX. Em 1894, Agustín Lizárraga, morador de Cusco, conduz Luis Béjar Ugarte até os escombros da antiga Machu Picchu, refazendo o trajeto anos mais tarde com outros dois "clientes", Enrique Palma e Gabino Sánchez. O objetivo dessas viagens foi o de buscar tesouros perdidos. Lizárraga descreve posteriormente que em sua incursão, havia encontrado um camponês arrendatário de terras, que ali vivia há cerca de 8 anos. Portanto, já naquela época, algumas pessoas sabiam da existência das ruínas "perdidas", sem contudo terem ideia de sua importância arqueológica.

Mas a descoberta oficial viria somente alguns anos mais tarde, sob o comando do arqueólogo norte americano Hiram Bingham (1875 -1956). Nascido no Hawai, dedicou-se ao estudo da história e a carreira de professor. Além de historiador, era aviador, alpinista, explorador e político, chegando a ocupar o senado e governo do Estado de Connecticut, nos EUA. Em sua primeira viagem ao Peru, não tinha qualquer objetivo em descobrir ruínas incaicas. Estava interessado em estudar a rota do libertador Simón Bolivar, refazendo - montado em mulas - o antigo trajeto do comércio espanhol entre Buenos Aires e Lima. Seu desvio dos objetivos iniciais ocorreu em 1909, quando encontrava-se em Cusco. Nessa ocasião, o prefeito da província de Apurimac, J.J. Núñez, impressionado com o conhecimento de Bingham, convidou-o a visitar as antigas ruínas de Choqekirau (conhecida como o "Berço de Ouro"), chamando-as de "última morada dos incas". Na verdade, Núñez pretendia unicamente verificar a existência de tesouros que estivessem soterrados no local. A viagem foi longa e difícil, mas suficiente para despertar o interesse do americano no passado incaico. Parece certo que durante esta primeira experiência, Bingham entrou em contato com boatos e depoimentos de camponeses, que falaram-lhe sobre ruínas perdidas em meio às montanhas, motivando-o a retornar aos EUA em busca de financiamento para uma grande expedição.

Com o apoio da Universidade de Yale e da National Geographic Society, Bingham retorna a Lima em junho de 1911, onde permanece várias semanas estudando antigas crônicas coloniais. Em especial, uma lhe chama a atenção: "Cronica Moralizada de la Orden de San Agustin", escrita pelo padre Antonio de La Calancha em 1630. Nela, encontrou nas citações das antigas capitais incaicas de Vilcabamba e Vitcus o motivo que precisava para adentrar a Cordilheira. Portanto, ao montar sua expedição, Bingham buscava em especial estas duas cidades e não Machu Picchu, como tantas pessoas acreditam até hoje. De volta a Cusco, traça seu roteiro através do Vale do Urubamba e parte, com o auxílio de um italiano radicado - César Lomellini - para sua histórica jornada.