DESCOBERTO O MAIOR PAINEL DE ARTE RUPESTRE DO ESTADO DE SÃO PAULO

Em entrevista exclusiva ao ARQUEOLOGIA AMERICANA, o professor Astolfo Araujo, do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE-USP) da USP, nos conta sobre a incrível descoberta do que é, até o momento, o maior painel de arte rupestre de nosso Estado:

Painel descoberto em Ribeirão Bonito tem 50 metros de gravuras rupestres – Foto: Divulgação

01 - A pesquisa realizada em Ribeirão Bonito revelou o maior painel de arte rupestre do Estado de São Paulo. O que isso significa na prática? Já podemos afirmar que a região foi usada pelos paleoameríndios, como centro cerimonial ou como alguma espécie de área para socialização entre grupos distintos?

O painel de Ribeirão Bonito com certeza foi usado de maneira cerimonial, tendo em vista o apelo simbólico dos grafismos, mas ainda não temos dados para dizer se foi um local de uso exclusivo de uma unica população ou um ponto de encontro. Alguns grafismos semelhantes são encontrados em vários outros sítios na região de Analândia, por exemplo. Outros parecem exclusivos de Ribeirão Bonito, mas o fato é que o Estado de São Paulo é tão pouco conhecido deste ponto de vista que ainda temos muito mais perguntas do que respostas.

02 - Se comparado à Pedra do Ingá (Paraíba), podemos afirmar que esta descoberta revolucionará nosso entendimento sobre as migrações dos antigos povos pelo sudeste brasileiro?

Não achamos que nossas descobertas tendam a "revolucionar" muito a ciência. Podem encaminhar outras questões, ou fortalecer algumas hipóteses em detrimento de outras. Com certeza o abrigo de Ribeirão Bonito foi uma surpresa enorme e muito agradável, mostra que em São Paulo temos um potencial muito grande para esse tipo de estudo, e que há aqui coisas tão interessantes como a Pedra do Ingá. Por outro lado, como temos sítios menores mas com grafismos semelhantes em outros lugares do Sudeste de Sul do Brasil, torna-se mais uma questão de construir o conhecimento de maneira constante do que de uma revolução em si. Claro que, dependendo de mais escavações, podemos chegar a níveis mais antigos, datar a idade da arte rupestre, e eventualmente chegar a conclusões mais surpreendentes ainda.

Gravuras lembram pés de pássaros e são chamadas de “tridígitos” – Foto: Divulgação

03 - Até este momento, o que acreditam ser o conteúdo do painel? O que podem significar os símbolos ali existentes?

O potencial informativo desses painéis está mais nas similaridades e diferenças, a partir de seu estudo sistemático, do que a respeito do significado que eles tinham para as pessoas que os fizeram. Podemos fazer algumas suposições e perceber padrões, algum tipo de gramática que estruture as figuras e seu posicionamento, mas o significado específico de cada figura jamais saberemos.

04 - Na região próxima de Dourado, foi descoberto em 2015 o sítio arqueológico mais antigo do Estado de São Paulo, com 12,5 mil anos de idade. De que forma esta descoberta está vinculada à existência do painel de Ribeirão Bonito? Vocês acham que existe a possibilidade de surgirem outros sítios tão antigos como esse de Dourado?

O Sítio Bastos, em Dourado, que foi datado em 12.500 anos está bem próximo do abrigo com arte rupestre e é muito possível que a mesma população tenha circulado nos dois locais. O problema é que ainda não temos datações confiáveis e nem material escavado suficiente no abrigo para comparar os dois sítios. Vamos precisar pedir mais verba para pesquisa.

05 - Muitos geoglifos na América do Sul – em especial os do norte do Chile – tinham como uma de suas funções, a marcação de um caminho pré-colombiano, percorrido por caravanas de lhamas. Vocês acham que o painel de Ribeirão Bonito possa ter alguma função semelhante: a de demarcar um espaço ou território para migrações de paleoameríndios?

Creio que o painel tinha sim uma função de demarcação, na medida em que os grafismos passam um recado claro para quem chega: "este local tem dono", ou "este local faz parte de nosso território". Por outro lado, como se trata de um local relativamente escondido, não creio que tenha sido uma espécie de marcação de caminho. De todo modo, como mencionado antes, o significado exato é difícil de ser desvendado.

Os pesquisadores descobriram o painel com ajuda de moradores locais – Foto: Divulgação

06 - Desde 2014, vocês recebem da FAPESP o apoio financeiro para as explorações na região. Com a atual crise na Cultura, existe o perigo dos trabalhos serem prejudicados? Existe algum canal para as pessoas – ou empresas interessadas – colaborarem para essa pesquisa?

A FAPESP, assim como outros órgãos de financiamento, são importantíssimos e agradecemos muito sua existência. Não creio que os trabalhos futuros sejam prejudicados porque os governantes aparentemente entendem que a FAPESP funciona muito bem, e que diminuir sua dotação seria um absurdo. Claro que pessoas que tenham interesse em ajudar, principalmente dando informações sobre materiais arqueológicos ou doando peças encontradas na lavoura, são sempre bem vindas. Aliás, gostaríamos de mencionar que os proprietários da região de Dourado e Ribeirão Bonito têm sido grandes parceiros, confiando em nosso trabalho e permitindo o acesso da equipe em suas terras. Em especial, agradecemos a Ricardo Bastos e Maria Helena Monteiro, proprietários da Fazenda Monte Alto / Café Helena, que têm ajudado muito com a logística, fornecendo alojamento para nós.

07 - É cedo demais para pensarmos em transformar o local em um Parque Arqueológico? Existe algum projeto nesse sentido, à exemplo do existente em São Raimundo Nonato?

Creio que ainda seja cedo para pensarmos em turismo do porte de São Raimundo Nonato. É algo que depende de muito diálogo, inclusive com os proprietários. Já há algumas ações nesse sentido, por exemplo o sr. Ricardo Bastos leva crianças da rede publica de ensino para visitar o Sítio Bastos, que fica em sua propriedade. É um otimo exemplo de cidadania da parte dele, que pode ser ampliado para outras fazendas e outros sítios, formando um "tour arqueológico". Aliás, a região possui sedes de fazenda maravilhosas, muito bem cuidadas, que poderiam fazer parte de uma rede de visitas. Isso teria que ser bem articulado, com empresas especializadas e credenciadas junto aos proprietários, evitando transtornos. Seria ótimo para a região, com certeza. Por que não? Na região de Analândia isso funciona muito bem.

Obs: As imagens foram extraídas do Jornal da USP, edição digital de 02/05/2019: https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-humanas/pesquisadores-descobrem-maior-painel-de-arte-rupestre-de-sao-paulo/



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