Artefato encontrado na Guatemala pode reescrever a história da matemática nas Américas

Em muitas culturas mesoamericanas, os números tinham papel além de representações quantitativas; eram um emblema de significado espiritual e simbolizavam estações, rituais e eventos importantes

Por: Anne Silva - 15/06/2026 

Um achado no sítio arqueológico de La Blanca, na costa guatemalense que encara o Pacífico, reabriu um dos debates mais relevantes sobre a arqueologia da América Central: quando os povos da região começaram a contar e a registrar números em seus sistemas de contagem.

Segundo um artigo publicado no periódico Latin American Antiquity, conduzido por pesquisadores da University of Texas e da University of California, um pequeno objeto de cerâmica encontrado em La Blanca pode dar pistas sobre o sistema numérico mais antigo já documentado na Mesoamérica (entre 750 e 650 a.C.).

A descoberta é significativa porque remonta a séculos antes dos registros classicamente associados às civilizações maia e zapoteca, que floresceram na região.

O objeto, uma figurilla de cerâmica pertencente à tradição das figurillas lengüeta, denominadas assim porque têm uma extensão plana no lugar onde ficaria a cabeça da escultura, foi encontrado a cerca de um quilômetro do centro cerimonial de La Blanca, no setor chamado de Grupo Joyas.

A peça tem onze círculos pequenos impressos no barro antes da queima, que aparecem em três colunas verticais. Na coluna da esquerda, foram feitos três pontos; na coluna central, quatro pontos; e, na coluna da direita, mais quatro pontos, totalizando os onze pontos que se acredita formarem um sistema numeral.

Segundo os autores, Julia Guernsey, Stephanie M. Strauss e Michael Love, a hipótese deve ser tratada com cautela, mas há indícios de que esses pontos representem um numeral (o número 11), devido à forma como seus pontos “numéricos” se organizam.

Há uma assimetria controlada entre a disposição dos registros, afirmam. Na arte mesoamericana do período pré-clássico, esses padrões, se fossem elementos de decoração, tendiam a privilegiar a simetria e o equilíbrio visuais. Os ornamentos também vinham em pares ou espelhados.

No caso da disposição avistada no objeto, a distribuição assimétrica, mas ainda sistemática (que forma um padrão 3-4-4), gera um total ímpar, o que é menos intuitivo, mas compatível com um instrumento de contagem.

Além disso, o sistema numérico mais conhecido associado à cultura mesoamericana combinava pontos e barras, no período conhecido como Pré-Clássico Tardio (300 a.C.–250 d.C.). Acredita-se que os sistemas numéricos possam ter precedido a escrita formal.

Outro ponto notável no objeto é a localização dos 11 pontos, que aparecem na parte superior da figurilla, onde está a cabeça. Nas tradições mesoamericanas, essa região estava associada a signos de identidade social ou política.

Os autores sugerem, então, que o numeral 11 (se a intenção dos pontos for a de formá-lo) poderia indicar algo sobre o indivíduo representado, como linhagem ou identidade pessoal.

Em muitas culturas mesoamericanas, os números tinham papel além de representações quantitativas; eram um emblema de significado espiritual e simbolizavam estações, rituais e eventos importantes. Entre os maias, o calendário sagrado de 260 dias combinava 13 coeficientes numéricos e 20 signos de dia, a fim de que cada nascimento na cultura fosse associado a uma combinação específica.

A antiga cidade de La Blanca, onde o achado arqueológico foi registrado, floresceu entre 1000 e 900 a.C. na costa pacífica da Guatemala. Durante o auge do sistema político, havia uma hierarquia complexa na faixa costeira, onde foram erguidas algumas das maiores estruturas do Pré-Clássico Médio mesoamericano.

Há mais de cinco mil figurillas em La Blanca, entre rostos de possíveis ancestrais da cultura e as lengüetas como a do artigo.

Até então, apenas essa apresentava uma sequência numérica clara.

A peça foi escavada em contexto estratigráfico confiável, entre 70 e 80 cm de profundidade, e a camada cerâmica pertence à subfase Conchas E, datada por carbono-14 em torno de 650 a.C., embora a fabricação da peça possa remontar à subfase Conchas D (750–650 a.C.).

É a evidência datada com maior segurança de um possível sistema numérico registrado por pontos na Mesoamérica, afirma o artigo, que, no entanto, não crava com certeza se de fato se trata do numeral mais antigo do continente.

Fonte: Artefatoencontrado na Guatemala pode reescrever a história da matemática nas Américas -Revista Fórum

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