Entrevista exclusiva com ADRIÁN ILAVE, historiador e artista peruano!


01 - Adrián, você é peruano de nascimento. Conte-nos um pouco de sua infância e adolescência na terra dos antigos Incas. Em que momento você “despertou” para as riquezas históricas de seu país?

Eu cresci na casa da minha avó cusquenha, em Lima, onde morei com a minha mãe ate os 5 anos. Em quanto a minha mãe trabalhava, a minha tia me levava pra uma escola de danças peruanas onde ela ensaiava, eu só olhava. Logo ela voltava com as roupas e fantasias típicas para casa onde a minha avo as costurava. Eu estava ali, no meio de tudo isso, e claro as historias andinas da minha avó que ela contava pra mim, enquanto deitávamos a sesta da tarde no quarto dela. Quando fiz 5 anos, a minha mãe casou e fomos morar no norte Peru, onde passei quase toda a minha infância e adolescência

02 - Conte-nos um pouco mais sobre suas experiências com a arqueologia peruana. Parece que chegou a participar de várias escavações? Como foi essa fase de sua vida?

Passaram os anos e a minha mãe organizou com a escola uma viagem pra Chiclayo, (quando eu tinha 11 anos) para passear e visitar o museu Brunning e as pirâmides de Túcume. Foi ai que acordou aquele antigo interesse pela cultura peruana, e nunca mais parei.

Já adolescente, voltamos a morar em Lima e meu interesse aumentou sabendo que tinha museus incríveis na capital. Então quis pesquisar como era a carreira de arqueologia na faculdade de Ciências Sociais da Universidade Mayor de San Marcos e os alunos foram muito gentis comigo e me convidaram para ajuda-los nas escavações arqueológicas na mesma faculdade. Eu aceitei na hora e os estudantes fizeram uma petição de autorização a famosa arqueóloga Ruth Shady, que naquele momento estava encarregada do projeto “Senhorio de Maranga” e perto de descobrir a grande Caral. Foi ela que assinou o papel para eu trabalhar com eles. Toda semana eu esperava com ansiedade o sábado e as férias da escola para mergulhar nas pirâmides e huacas, que viraram meu segundo lar. Aprendi a abrir tumbas e múmias; e restaurar e respeitar com mais formalidade o patrimônio arqueológico. Com isso, outros arqueólogos começaram a me chamar para participar de projetos. Também fiz serviço social sobre proteção de patrimônio com a prefeitura e órgãos municipais.


03 – Você é design por formação. De que modo a proximidade com o mundo pré-colombiano influenciou sua carreira artística?

Eu estudei três anos na Escuela Nacional de Bellas Artes del Perú, só que não quis acabar por motivos pessoais. Eu não pretendia acabar com o titulo de artista porque não era a minha meta. Acontece que também ganhava concursos de arte no Peru e até ganhei na China. Foi então que começou uma etapa de dúvidas e assim decidi usar as artes para expressar a historia. Por isso é que a arte para mim é só um meio de expressão, já que eu me considero mais um historiador que se expressa através das artes.

04 - Conte-nos mais sobre sua carreira como design. Você disse certa vez: “Minha ideia não é falar de um estilo, é falar de uma transformação para a evolução”. Explique-nos melhor essa frase!

Essa frase eu que fiz, rsrsrs... Eu não acredito no estilo, porque fica um tempo e logo vai embora e vira superficial. Acho que para conquistar o mundo tem que existir primeiro uma consciência de que as coisas devem mudar para melhor, de não se esquecer de onde nós viemos e o para que estamos neste mundo. Acho que a ideia de estarmos aqui na terra não é só para criar empresas, indústrias ou formas de moda (seja qual fora a religião ou crença do ser humano) É importante que os humanos cuidem de seu próprio entorno e quando seja assim a humanidade vai se transformar sozinha sem muito esforço para logo evoluir com esse novo pensamento. O humano saudável de pensamento e evoluído criará coisas que ajudarão a humanidade a permanecer por mais tempo na terra.

05 - Fiquei muito feliz ao observar o uso do mural como suporte para algumas de suas obras. O muralismo é fascinante e foi muito utilizado no mundo pré-colombiano. Como você enxerga o muralismo hoje, em especial nas grandes metrópoles, como São Paulo?

Sim, o muralismo pra mim sempre será uma das maiores expressões urbanas do mundo, seja qual for a finalidade. Atualmente temos expressões muralísticas de todo tipo e São Paulo é uma das principais cidades do mundo. Infelizmente existem pichadores, que acho ordinário. No Peru não foi diferente, pois centenas de murais invadiram por quase 5000 anos o território andino, tanto pintados, como em alto relevo, em mosaico e em texturas. Respeito ao meu trabalho, nos meus murais eu tento colocar essas influencias pré-colombianas junto com as contemporâneas. Penas, cobre, platina, bronze, pedras, barbantes, tinta, caneta e mais matérias servem para me expressar e não deixar morrer a tradição.


06 - Você vive no Brasil a cerca de 5 anos. Como enxerga hoje o envolvimento do brasileiro com o mundo pré-colombiano? Você acha que existe uma identificação do nosso povo com o mundo latino americano?

O brasileiro ainda confunde muito as nações hispano-americanas. O peruano com o mexicano, o boliviano com o colombiano, etc. Pra mim não é igual nordestino que paulista por exemplo. Eu fico procurando livros nas melhores livrarias de São Paulo e tem apenas um ou outro que fala sobre a gente. Pela internet é muito pobre e a maioria das informações é de blogueiros que viajam e comentam suas experiências. O Brasil precisa saber que o milho, o feijão e a batata que come todos os dias, vêm dos Andes. Que do lado dele fica a Cordilheira, cheia de historias, cultura e todo o que eles precisam para se complementar. A nossa historia e experiências estão para vocês, não precisam viajar e gastar uma fortuna até o Egito. Tem a gente do lado, e nós precisamos de mãos para descobrir milhares de mistérios desde os Andes venezuelanos ate a Patagônia. Gostaríamos que parassem de nos dar as costas e nos descubram! Estamos esperando por vocês!

07 - Como você enxerga hoje a posição do Peru em relação aos demais países latino americanos? Você acha que a arqueologia pode de alguma forma, nos aproximar, nos unir?

A arqueologia sim, porque quando você descobre alguma coisa nela você nota as semelhanças entre os povos e reafirma uma possível conexão cultural. Peru é o verso da civilização americana, os peruanos fizemos grandes esforços de dominação geográfica e temos aportado muito ao mundo por muito tempo desde recursos naturais metalúrgicos até alimentos.

08 - Aqui no Brasil, você está envolvido com a produção da Revista Paila, que é uma vitrine cultural peruana em nosso país. Qual seu papel nessa revista? Fale-nos um pouco mais sobre ela.

Sou o criador das capas e quem faz a diagramação. Às vezes escrevo também, gosto muito. O dono da revista Oscar Vásquez é um grande amigo e gosto de trabalhar muito com ele. Ele é louco que nem eu! É uma revista que fala sobre o Peru e América Latina (gastronomia, arqueologia, arte, economia, eventos) em português, para os brasileiros.

09 - Adrián, quais seus planos para o futuro? Algum projeto em vista que possa nos contar?

Atualmente pensando em fazer um pouco de roupa inspirada na moda pré-colombiana, continuar com a Revista Paila, ler muitas crônicas, continuar publicando artigos no meu blog e continuar pintando mural que contem as nossas historias para o Brasil e o mundo.

Comentários

  1. Adrián, tú eres un tesoro peruano. En tus expresiones resaltas los valores andinos de manera innovadora e impactante. Creo que sería interesante que también entres en alguna especie de diálogo com el mundo amazónico que es aún más antiguo en sus expresiones artísticas que el mundo amazónico. Ahora hay artistas indígenas de la selva muy buenos y poco conocidos afuera del Perú. No debes imitarles, sino ampliar tus horizontes con algunos insumos de ellos. Incluso en Brasil he conocido a un genial pintor Manxineru que vive en el Acre y a veces viene a Puerto Maldonado para pintura murallas u otra cosas cuando puede. Fijáte, por ejemplo en los pintores de visiones de ayahuasca. Me gustaría conocer tus apreciaciones sobre esto y si te interesa. Un fuerte abrazo!

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  2. Essa valiosa pessoa se tornou meu amigo a pouco tempo, me surpreendi muito com sua historia,e o mais importante e vc ter conquistado todos esses méritos com amor, força de vontade e respeito ao próximo. Parabéns Adrian por compartilhar essas valiosas informações!

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