Mina com 11 Mil Anos em Caverna Submersa Surpreende Arqueólogos


Este sítio arqueológico, preservado como uma cápsula do tempo nas profundezas de um sistema de cavernas no México, oferece um vislumbre raro das vidas e ações de alguns dos primeiros habitantes das Américas.

POR MAYA WEI-HAAS
07/07/2020

Na primavera de 2017, dois mergulhadores deslizaram pela primeira vez por uma passagem estreita numa caverna submersa sob a península de Yucatán, no México. Os mergulhadores já tinham nadado ao longo de quase 800 metros através deste sistema de cavernas, serpenteando em torno de torres de rocha que se projetavam do chão e do teto, quando finalmente chegaram a uma zona da caverna que tinha apenas 70 centímetros de diâmetro.

“Era um portal para outro sítio diferente”, diz um dos mergulhadores, Sam Meacham, diretor do Centro de Pesquisa do Sistema Aquífero de Quintana Roo (CINDAQ).Na câmara que se estendia para além da pequena passagem havia um cenário preservado com detalhes impressionantes: um local de mineração de pigmento de ocre vermelho com 11 mil anos de existência, com ferramentas e zonas de fogueiras.

A mina, descrita num novo estudo publicado no dia 3 de julho na Science Advances, é um dos poucos sítios arqueológicos que revela onde e como os humanos da antiguidade extraíam os pigmentos que eram usados para diversos fins no mundo inteiro, incluindo rituais mortuários, pinturas rupestres e até como protetor solar.

“Passei muito tempo a imaginar as diferentes formas como as pessoas recolhiam estes pigmentos minerais”, diz a autora do estudo Brandi MacDonald, arqueóloga da Universidade do Missouri e especialista em pigmentos de ocre. “Mas ser capaz de observar isto desta forma, e com este estado preservação, deixou-me perplexa.”

A descoberta também oferece um vislumbre raro sobre a vida de alguns dos primeiros habitantes das Américas, que viveram em Yucatán milhares de anos antes da ascensão dos maias. Um destes primeiros habitantes era uma rapariga a quem os arqueólogos chamam Naia, que provavelmente morreu há cerca de 13 mil anos noutra caverna perto da mina recém-descoberta. Pelo menos nove outros indivíduos foram identificados no sistema de cavernas sob Quintana Roo, e os seus restos mortais ficaram preservados durante milhares de anos, depois de as cavernas terem ficado submersas com a subida do mar há 8 mil anos.

Mas os cientistas ainda não sabem o que as pessoas estavam a fazer nas profundezas deste submundo sombrio. Será que estavam a enterrar os seus mortos? Será que procuravam fontes de água doce?

“O que estavam a fazer lá em baixo?” pergunta Roberto Junco, diretor do gabinete de Arqueologia Subaquática do Instituto Nacional de Antropologia e História (INAH), o órgão regulador de arqueologia no México. “Agora temos evidências muito fortes para pelo menos uma das razões... mineração de ocre.”

Explorar a escuridão
A descoberta da mina começou por acaso, quando os alunos de uma turma de espeleologia – liderados por Fred Devos, mergulhador de cavernas do CINDAQ – avistou um túnel, que anteriormente tinha passado despercebido, no sistema de cavernas Sagitário. Devos e Meacham regressaram rapidamente ao local para explorar. Depois de um longo mergulho através da passagem estreita, os mergulhadores ficaram surpreendidos com o que encontraram.

O local é como uma cápsula do tempo para a atividade humana: a câmara tem vários poços e concreções partidas – estalactites ou estalagmites – que foram usadas como martelos improvisados. Há restos queimados de carvão e rocha das fogueiras que outrora iluminavam a caverna, e as pilhas de rochas organizadas, conhecidas por moledos, indicavam o caminho aos mineiros.

“O Fred e eu começámos imediatamente a apontar para todas aquelas coisas” diz Meacham. “Não são coisas naturais, e não há nada que pudesse fazer aquilo a não ser humanos.”

Devos contactou Eduard Reinhardt, especialista em geoarqueologia da Universidade McMaster, para falar sobre o local. Apesar de inicialmente Reinhardt ter ficado cético, no ano seguinte foi ao México para mergulhar na secção da caverna que tinha os artefactos, e que mais tarde foi nomeada La Mina (A Mina). “O local é fenomenal”, diz Reinhard.

Para além disso, a mineração não se limitava apenas a uma caverna.

Nos mergulhos anteriores, Meacham diz que observaram coisas estranhas que estavam onde não deviam estar, incluindo rochas empilhadas e concreções dispostas no chão da caverna. No entanto, como há muitas pessoas a praticar mergulho nas cavernas de Yucatán, havia a dúvida se estas coisas se deviam a atividades antigas ou modernas, diz Reinhardt.

Agora, com um exemplo tão evidente de uma mina de ocre antiga, a equipe pôde confirmar que pelo menos outros dois locais suspeitos, em cavernas submersas a cerca de 32 km a sul de La Mina, em Quintana Roo, também eram operações de mineração. De acordo com a datação por radiocarbono, o trio de minas estava em atividade há 10 ou 12 mil anos atrás.

“Não é um exemplo único”, diz Reinhardt. “Havia um programa ativo de prospeção para encontrar e extrair ocre. E não há dúvidas de que existem mais locais destes.”

Ligações coloridas
Em parceria com outros cientistas e mergulhadores, a equipa de investigação começou a documentar as antigas zonas de mineração dentro dos locais identificados. Ao longo de 100 mergulhos, totalizando mais de 600 horas debaixo de água, a equipa recolheu amostras e fez registos em vídeo, para além de captar dezenas de milhares de fotografias para reconstruir um modelo tridimensional de La Mina. A análise mostra uma imagem colorida das expedições bem planeadas ao subsolo que foram feitas por gerações de pessoas conhecedoras da paisagem durante cerca de 2 mil anos.

O carvão encontrado nas minas é proveniente de madeira com alto teor de resina e que provavelmente foi selecionado pela sua capacidade de queimar durante longos períodos de tempo, de acordo com a análise do autor do estudo, Barry Rock, da Universidade de New Hampshire. O local também parece preservar o processo utilizado pelos antigos mineiros para escavar os materiais, diz Reinhardt. Os mineiros seguiam ao longo dos leitos de depósitos até o ocre se esgotar. Depois, deslocavam-se para outras zonas para cavarem outros poços. “Eles compreendiam... alguns princípios geológicos básicos que só foram realmente codificados ou formalizados em meados do século XVII.”

Os pigmentos também eram de qualidade elevada, com poucas impurezas e um grão muito fino, acrescenta MacDonald. Isto significa que os seus tons vibrantes têm impacto em tudo o que tocam. “Conseguem tingir de forma absurda.”

No entanto, não se sabe exatamente o que as pessoas faziam com esta abundância de pigmentos. O ocre é um material rico em ferro que os humanos usam há centenas de milhares de anos pelo mundo inteiro. Estes pigmentos eram usados para fazer uma pasta vibrante em conchas de abalone na África do Sul, há cerca de 100 mil anos, e realçam o contorno das mãos erguidas nas paredes das cavernas de Chauvet, em França, feitas há cerca de 30 mil anos. E também revestem uma mulher que foi enterrada numa caverna no norte de Espanha há cerca de 19 mil anos.

Mas há outras utilizações para o ocre que têm fins práticos – seja como repelente para mosquitos ou protetor solar. E também pode ter servido de base para adesivo no fabrico de ferramentas. Alguns indígenas africanos e australianos ainda utilizam atualmente estes pigmentos vibrantes em rituais e para fins práticos.

Porém, ainda não se conhece qual era a finalidade do ocre minerado nas cavernas de Yucatán. “Neste momento, ainda não sabemos”, diz MacDonald.

O que estavam lá a fazer?
Os cientistas encontraram indícios nas minas que podem sugerir rituais ou uma vertente espiritual. Os locais de mineração estão localizados no fundo de sistemas subterrâneos, longe do alcance da luz, diz Holley Moyes, da Universidade da Califórnia, em Merced, especializada no estudo de rituais feitos pelos maias em cavernas. Moyes diz que, em quase todos os casos encontrados ao longo da história da humanidade, a utilização desta chamada “zona escura” servia para fazer rituais.

“As cavernas serviam para todos os tipos de bem e mal; e eram provavelmente a característica natural mais sagrada”, diz Moyes. Encaradas como entradas para o submundo e como fontes de água sagrada, as cavernas eram lugares particularmente espirituais para os maias, que construíram as suas vilas e cidades em Yucatán milhares de anos depois de a mina ter sido abandonada. O ocre também era sagrado para os maias e para outras culturas mesoamericanas, como os astecas, e destacava-se na arte e em rituais. “É algo que tem que ver com a cor vermelha.”

Parte do desafio na compreensão destas ações antigas passa pela separação entre o que é espiritual e o que é prático, diz James Brady, especialista em arqueologia de cavernas na Universidade Estadual da Califórnia, em Los Angeles, que não integrou a equipa do estudo. “Hoje em dia, para muitas pessoas, a religião é uma coisa que se pratica ao domingo de manhã”, diz Brady. Mas provavelmente não era assim há milhares de anos. “Pode ter sido importante que o ocre viesse de um lugar sagrado, e pode ter havido uma jornada especifica até às cavernas para o obter.”

Independentemente das intenções que levavam à extração do ocre, os investigadores estão entusiasmados com a descoberta. A preservação impressionante do local fornece uma janela sem precedentes para as atividades dos primeiros habitantes das Américas e pode ajudar a direcionar futuras investigações sobre a utilização de cavernas.

“Aqui no México estamos muito entusiasmados por trabalhar neste projeto”, diz Roberto Junco do INAH. “Este é verdadeiramente um daqueles momentos em que há uma enorme mudança de paradigma.”

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

Fonte: https://www.natgeo.pt/historia/2020/07/mina-com-11-mil-anos-em-caverna-submersa-surpreende-arqueologos

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