Mais de mil anos depois, por que o colapso da civilização maia ainda é grande enigma na arqueologia? Entenda
Pesquisa internacional lança nova luz sobre as causas
do colapso ocorrido há 1.200 anos na Península de Yucatán
Por O Globo e La Nacion — Mérida, México -
26/02/2026
A civilização maia enfrentou
um colapso abrupto há cerca de 1.200 anos. Em aproximadamente um
século, cidades foram abandonadas, e populações inteiras deixaram vastas áreas
que estavam sob seus domínios.
Embora o povo que floresceu na Península de Yucatán, na
América Central, não tenha desaparecido, a drástica redução de sua influência
regional tornou-se um dos maiores enigmas da arqueologia e
da climatologia histórica.
Ao longo das últimas décadas, pesquisadores formularam
diferentes hipóteses para explicar o declínio, que vão de conflitos internos a
crises ambientais severas. Um estudo recente conduzido pelo professor Paul
Mayewski, da Universidade do Maine, acrescenta um novo elemento a esse debate
ao analisar núcleos de gelo com cerca de 1.200 anos.
O pesquisador examinou amostras para reconstituir as
condições climáticas do período. “A primeira coisa que analisamos foi nosso
registro de amônia”, explicou, ao detalhar como a concentração desse composto
químico pode indicar a presença de vegetação. Níveis elevados de amônia sugerem
clima quente e úmido, com abundância de plantas. Já concentrações reduzidas
apontam para períodos de seca prolongada, marcados por escassez de cobertura
vegetal e solos ressecados.
Por que civilização 'sumiu'?
Ao avaliar as camadas correspondentes ao período do
colapso maia, Mayewski identificou uma queda expressiva nos níveis de amônia. O
dado indica a ocorrência de uma seca intensa e prolongada na região — fenômeno
que pode ter provocado quebras sucessivas de safra. A escassez de alimentos
teria comprometido a sustentação das grandes populações urbanas, impulsionando
migrações e o abandono de centros considerados até hoje obras-primas da
engenharia e da arquitetura pré-colombiana.
O estudo também sugere um fator agravante: o
desmatamento. Pesquisas indicam que a derrubada de florestas para expansão
agrícola reduz a capacidade do solo de absorver radiação solar e compromete o
ciclo hidrológico. Com menor evaporação, há redução na formação de nuvens e,
consequentemente, na precipitação.
Nesse cenário, teria se instaurado um ciclo adverso:
menos chuvas levariam a secas mais severas, ao fracasso de culturas agrícolas
essenciais e a uma crescente insegurança alimentar — processo que poderia ter
sido intensificado pela própria expansão das áreas cultivadas.
A hipótese climática se soma a outras explicações para o
enfraquecimento da civilização maia, que resultou em seu “desaparecimento” de
amplas áreas antes ocupadas, deixando cidades monumentais vazias. Especialistas
também consideram fatores como disputas políticas, instabilidade interna e
pressão demográfica.
Séculos mais tarde, a chegada dos espanhóis à América
Central introduziu doenças que tiveram impacto devastador sobre populações
nativas, incluindo os maias.
Apesar das sucessivas adversidades, o povo maia sobreviveu. Atualmente, comunidades descendentes mantêm vivas tradições culturais em diferentes regiões da América Central, evidenciando a resiliência de uma das mais sofisticadas civilizações da história pré-colombiana. O estudo de Mayewski contribui para elucidar parte desse passado complexo, ainda marcado por múltiplas causas e interpretações.
Fonte: Maisde mil anos depois, por que o colapso da civilização maia ainda é grande enigmana arqueologia? Entenda


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