quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Cidade Perdida - Mistério e encanto na floresta de Serra Nevada


MATÉRIA ESPECIAL

Um dos motivos da fama de Machu Picchu está na comodidade com que o turista consegue atingir as ruínas. Ciudad Perdida, na floresta colombiana de Serra Nevada, é seu oposto. Para atingi-las, o turista tem que caminhar por três dias, em uma trilha cheia de obstáculos. Contudo, ao final do esforço, irá descobrir um dos mais fascinantes sítios arqueológicos de nosso continente. Uma cidade construída sobre patamares, que guarda ainda, uma série de mistérios a serem desvendados.

Texto e Fotos de Dalton Delfini Maziero
A caminho de Ciudad Perdida: mantimento para vários dias.

Após horas caminhando entre as pedras soltas do rio Buritaca - em meio a uma floresta verdejante e grandiosa - atingimos a entrada principal das ruínas de Cidade Perdida. Nada se via, apenas o início de uma escadaria que parecia não ter fim. Mais de 1500 degraus serpenteavam montanha acima, nos separando do maior povoamento Tairona já descoberto. A pausa antes de enfrentar esta derradeira subida é quase um ritual. Após dois dias inteiros de caminhada pesada, sob um calor insuportável, avançar por aqueles degraus seculares cobertos de limo exigia reflexão, respeito e fôlego. Neste momento, um silêncio quase absoluto impera entre o grupo de caminhantes, quebrado apenas pelo barulho interminável das águas do Buritaca em suas rochas.

Confesso que não sabia ao certo, o que esperar de Cidade Perdida. Macchu Picchu - no Peru - monopoliza as atenções do turista na América do Sul e, quando ouvi falar de uma cidade monumental de difícil acesso nas florestas colombianas, decidi tentar a sorte, entre trilhas, calor e a ameaça de guerrilheiros. A empreitada mostrou-se digna de um filme de aventuras. Nada traduz de forma tão literal, a sensação de tornar-se “Indiana Jones”. Parece que, a qualquer momento, uma saraivada de flechas irá romper o verde da vegetação em nossa direção!

Cidade Perdida exige cinco dias de caminhadas por uma trilha irregular, alternando florestas densas, descampados, subidas intermináveis e travessia de rios de vários tamanhos. Somente uma coisa é freqüente em todo o percurso: o calor. O suor escorre em bicas por todo o corpo, sem trégua. Por este motivo, estar preparado fisicamente e planejar muito bem o que levar na mochila, são quesitos fundamentais. Por sorte, a água é abundante nas montanhas de Serra nevada.

O calor faz da caminhada um esforço insuportável. Todo rio é bem vindo!

A Serra Nevada
A Serra Nevada de Santa Marta é um maciço montanhoso isolado do restante da Cordilheira dos Andes, que emerge abruptamente no litoral Atlântico da Colômbia. Possui uma área total de 21.158 quilômetros quadrados, formando uma gigantesca e impressionante pirâmide. É considerada a montanha litorânea mais elevada do mundo. Seus picos mais altos – o Simon Bolívar e o Cristobal Colón – atingem 5775 e 5770 metros e possuem neve perpétua. Estes picos montanhosos não estão a mais de 30 km do litoral. Por este motivo, seus cumes eram utilizados como “faróis” naturais pelos navegantes europeus que avançavam nas águas caribenhas do século XVI.

Nativa da região colhendo folhas. Estava obviamente, posando para os caminhantes...

O complexo de Serra Nevada possui uma infinidade de rios, que formam vales estreitos e ricos em variedade de espécies animais e vegetais, como as aves de corral, os cerdos e as palmeiras. Contudo, a importância da região não se resume apenas em suas características geográficas e ecológicas únicas. Ela foi também palco de densa povoação pré-colombiana e diversos grupos étnicos. Sua elevação abrupta e proximidade com o litoral permitiram o surgimento de pisos ecológicos, explorados pelas comunidades indígenas para o plantio de diversos produtos, como a cana de açúcar, yuca doce, mandioca, tabaco, coca, feijões, frutas e, mais recentemente, algodão e café, comercializados através de caminhos pavimentados com pedras, que interligavam o maciço montanhoso ao litoral e às regiões do interior do país.

A descoberta de Cidade Perdida
A primeira referência sobre a existência de um assentamento arqueológico de proporções monumentais em Serra Nevada ocorreu em 1975, quando o Instituto Colombiano de Antropologia obteve informações que um huaquero – caçador e contrabandista de artefatos pré-colombianos – haviam localizado uma grande cidade em local quase inacessível, na floresta de Santa Marta. Era Cidade Perdida, chamada tecnicamente de Buritaca 200. A primeira exploração oficial ocorreu um ano depois, em 1976, por um grupo organizado do ICA.

Em meio a floresta, um acampamento de militares colombianos. A questão da guerrilha lá é muito séria!

Hoje, aceitam-se duas datas oficiais para o descobrimento de Cidade Perdida. A primeira feita pelos huaqueros em julho de 1975, e a realizada pelo ICA em março de 1976, quando foram tomadas as devidas medições do sítio e, a devida identificação como a mais importante cidade da cultura Tairona, com todas as características de uma habitação de montanha.

A história dos huaqueros de Serra Nevada merece um capítulo à parte. Na década de 70, a prática de escavações ilegais em sítios arqueológicos havia se convertido em forma de subsistência. Tornou-se um fenômeno sócio-econômico que perdeu espaço somente em 1975, para o plantio ilegal de marihuana. A destruição dos sítios arqueológicos foi tão intensa e sistemática, que conseguiram organizar um Sindicato de Huaqueros com 10 mil afiliados, contando com representação jurídica outorgada pelo Ministério do Trabalho colombiano, mesmo em contravenção as leis sobre o Patrimônio Cultural do país.

Apesar de sua importância, Cidade Perdida não é o único centro urbano Tairona situado em Serra Nevada. Ela faz parte de um grupo de 250 povoamentos descobertos até o momento. Suas ruínas espalham-se entre 950 e 1300 metros sobre o nível do mar, nas proximidades do rio Buritaca. Para compensar o desnível do terreno, os Taironas construíram muros de contenção de até 12 metros, e um surpreendente sistema de canalização de águas. Cidade Perdida possui um total de 169 plataformas, com capacidade para 280 cabanas. Estas plataformas serviam para sustentação do terreno, evitando a erosão e ampliando o espaço útil da montanha.

Cidade Perdida foi construída em 700 dC., e foi centro político e econômico dos taironas, com uma população flutuante entre 1400 e 3000 habitantes. Sobreviveu à época da conquista espanhola e, durante 400 anos, permaneceu oculta em meio à floresta colombiana.

Para se chegar a Ciudad Perdida, deve-se enfrentar essa escadaria sem fim...
A Caminhada
A escadaria de acesso a Cidade Perdida é apenas uma pequena parte desta aventura. A rotina para quem pretende atingir as ruínas envolve muita caminhada, esforço físico e desconforto. Por estarmos dentro de um Parque Nacional (Parque Nacional Sierra Nevada de Santa Marta), não é possível realizar a trilha sozinho. Todos os grupos que adentram na floresta são orientados pelos guias da TURCOL, empresa que monopolizou o envio de turistas à região e, cuja organização, deixa um pouco a desejar.

O turista que se aventurar por esta trilha, irá encontrar duas cabanas onde fazer paradas obrigatórias, com possibilidade de se lavar em água corrente, dormir em redes e se alimentar. O guia - que também é o cozinheiro - orienta em tudo: na direção a seguir, no tempo de caminhada, no preparo do alimento, na organização das mulas e em problemas mais graves, como picadas de cobras, escorpiões, mosquitos e carrapatos, comuns na região. A dieta, rica em sopas de milho com batatas, pão e ovos mexidos é ideal para repor o desgaste físico e a desidratação sofrida pelos viajantes.

No caminho, plataformas arredondas indicam a proximidade das ruinas.

Ao longo da trilha é comum cruzarmos com militares armados. A cena assusta um pouco no início, mas eles estão ali justamente para garantir a segurança dos turistas. Um dos militares me explicou que chegam a viver nas matas por dois meses e, que agora, a região é segura. Antes de 1984, os guerrilheiros infestavam a região, defendendo plantações ilegais e fazendo reféns vários turistas que se aventuravam nas montanhas. Era uma forma de exigirem dinheiro como resgate. Após esta data, um acordo de não-agressão foi estabelecido entre os guerrilheiros e os paramilitares, tendo Cidade Perdida como zona de não enfrentamento. Mesmo assim, é recomendável que os turistas não se aventurem sozinhos na floresta.

As ruínas de Cidade Perdida são atingidas no terceiro dia de caminhada. Subir sua escadaria de entrada, degrau após degrau, até descobrir estranhas plataformas e muros arredondados é parte de uma experiência única. Em meio a árvores exuberantes, surgem plataformas e escadarias sem fim, num cenário arrebatador. Em Cidade Perdida, persiste um clima de mistério, facilmente explicado pela densa vegetação localizada dentro do perímetro das ruínas. Algumas de suas árvores alcançam 40 metros, com grande profusão de palmas, como a Tagua. Ao contrário de Macchu Picchu, aqui o visitante descobre a cidade aos poucos. Não existe uma visão geral da mesma, como a clássica foto da cidade incaica. Cidade Perdida precisa ser explorada, após o contorno de cada escadaria, de cada plataforma.

Trilhas estreitas beirando plataformas. Ciudad Perdida é um labirinto de pequenos caminhos em meio à floresta.


À noite, fomos brindados com um luar magnífico, que transformava gigantescas árvores em sombras quase fantasmagóricas. Infelizmente, as cabanas – que ficam dentro das ruínas – estavam em péssimas condições, devido a grande umidade. Muito do madeiramento podre serve de esconderijo para escorpiões e baratas. Para ajudar, os turistas costumam deixar tudo o que não querem mais carregar neste local, como livros, roupas, chinelos velhos, recipientes vazios... Na manhã seguinte, realizamos a visita oficial às ruínas. Atualmente, podem ser visitadas 50% de Cidade Perdida. O restante ainda está para ser desobstruído da vegetação. Mas isso já é suficiente para ver o maravilhoso exemplo de arquitetura pré-colombiana realizado pelos taironas. Eles praticamente “moldaram” suas residências a natureza, interferindo de forma harmoniosa quando necessitavam construir caminhos e plataformas de contenção, redondas em sua grande maioria. Essas plataformas podiam ser do tamanho de uma única cabana, ou enormes - com fins cerimoniais - como a que domina a região central das ruínas. Cidade Perdida teve uma enorme importância econômica e social para o povo tairona, além de ser local de ritos cerimoniais. Ainda hoje, o visitante pode observar petroglifos em algumas rochas. Para os nativos locais, esses estranhos sinais representam um mapa dos caminhos que ligam os diversos povoados de Serra Nevada e mesmo de Cidade Perdida. Para os colonos modernos, os sinais são provas da existência de tesouros enterrados.

Já próximo as plataformas principais.

O quinto dia é dedicado apenas ao retorno. São oito horas de caminhada sem trégua, até atingirmos o acampamento da primeira noite. Nesta altura, cada membro do grupo já desenvolveu seu próprio ritmo. A experiência da trilha de Cidade Perdida causa uma estranha sensação aos visitantes. Surge um sentimento familiar ao grupo que consegue, juntos, atingir as ruínas. Conhecer Cidade Perdida é um exercício de comunhão, partilhada junto com as belezas e sofrimentos que o local nos proporciona.

Os Taironas
No século XVI, existiam em Serra Nevada diferentes grupos étnicos. Entre eles os Tairos, cujo principal povoado era Taironaca. No século XVII, esses grupos foram chamados genericamente “taironas”, pelos cronistas espanhóis. Acredita-se que estes grupos tenham se estabelecido na região por volta de 400 de nossa era, atingindo seu auge no ano 1000. Sua maioria pertencia a família lingüística dos chibchas, dialeto compartilhado com diversos grupos da América Central, e das atuais Venezuela e Colômbia.

Aspecto de Ciudad Perdida. Cenário de Indiana Jones!

O primeiro contato dos conquistadores espanhóis com os povos indígenas de Serra Nevada ocorreu em 1526, quando o Capitão Rodrigo de Bastidas desembarcou na praia de Gaira, fundando Santa Marta. Sua chegada mudou o ritmo de vida nativo. Um século de guerras levou os indígenas a romperem com sua hierarquia, refugiando-se nas partes mais altas das montanhas. Como não ocorreu a colonização da região, a Serra acabou por tornar-se o principal refúgio de vários grupos que antes, viviam próximos ao litoral. O abandono de seus antigos povoados em terras baixas, permitiu à floresta recuperar seu antigo esplendor, formando uma barreira natural que favoreceu a sobrevivência de vários grupos até os dias de hoje. Entre eles, estão os Kogi, Arsarios e Arhuacos.

Os Kogi, em maior número, podem ser vistos pelos caminhantes que se dirigem a Cidade Perdida. Formam uma tribo de 6 mil indivíduos de língua chibcha. Não é raro reivindicarem a posse das famosas ruínas, por consideram-se descendentes diretos dos taironas. Muitas vezes, interditam o acesso a Cidade Perdida ao final do ano, com o intuito de realizarem seus ritos e cerimônias sagradas, para o restabelecimento da terra e o crescimento do número de animais da região. Esses ritos são partilhados com outros grupos étnicos da Serra Nevada, e envolvem cantos e danças durante vários dias e noites.

O centro cerimonial, em meio a floresta colombiana.

Em algumas antigas habitações taironas, ao escavar debaixo do piso de suas casas, encontram-se vasilhas cuidadosamente enterradas. A descoberta deste esconderijo nos faz pensar em tesouros perdidos, mas os recipientes possuem apenas contas de colar, e pedras de distintas cores. Este achado encontra explicação na prática dos Kogi. Ainda hoje, enterram ritualmente um pequeno recipiente debaixo do piso de suas casas. Para cada membro da família, depositam ali uma conta de colar que varia em tamanho, cor e forma, de acordo com os atributos tradicionais de cada linhagem. A cada membro da família que nasce, um novo objeto é acrescentada ao recipiente. Desta maneira, todos os habitantes estão identificados e protegidos dos espíritos guardiães da vivenda.

Cinco dias na floresta tem seu preço! Picadas, carrapatos e tudo mais que é possível atacar seu corpo...Mas vale a pena!!!


Um comentário:

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