quinta-feira, 14 de abril de 2016

Extermínio dos primeiros povos americanos é explicado pelo DNA

Foto: Múmia "La Doncella", encontrada na Argentina J. Reinhard

Maior estudo de pré-colombianos indica extinção de linhagens depois da conquista da América

Por: Nuño Domínguez

Desde 2010, uma equipe internacional de cientistas esteve extraindo amostras de cabelo, dente e ossos de múmias e cadáveres de antes da conquista da América. O material remonta a um período entre 8.000 anos e 500 anos atrás. O DNA nessas amostras permite investigar como foi a chegada dos verdadeiros conquistadores do continente e qual seu parentesco com as populações indígenas atuais.

Acabaram de ser publicados os resultados da maior análise desse tipo, que estudou 92 restos mortais encontrados principalmente no Peru, na Bolívia e no Chile. Os pesquisadores sequenciaram o genoma mitocondrial, a parte do DNA que passa das mães para os filhos, e o compararam ao de populações atuais da América do Sul. Os resultados indicam que grande parte das populações indígenas originais desapareceu depois da chegada dos conquistadores espanhóis. Segundo o trabalho publicado na Science Advances, nenhuma das linhagens genéticas encontradas nas múmias chegou aos indígenas da atualidade.

Estudos anteriores de menor envergadura tinham mostrado um enorme declínio de população entre os indígenas depois do desembarque dos europeus. Os autores daquele trabalho culpavam sobretudo as doenças oriundas do velho continente, como a varíola, mas a escravização, a guerra e o colapso das sociedades pré-colombianas também desempenharam um papel indiscutível.

“Em nosso estudo não determinamos qual porcentagem de população desapareceu, mas vimos que a conquista teve efeitos devastadores na população local já que, em alguns pontos da costa oeste da América do Sul, pelo menos metade desapareceu”, explica Wolfgang Haak, pesquisador do Instituto Max Planck para a Ciência da História Humana de Jena, Alemanha, e coautor do estudo.

O trabalho estima que os primeiros humanos chegaram à América há 16.000 anos, aproximadamente um milênio antes do que estimavam estudos anteriores. Tratava-se de um grupo reduzido que se separou das populações siberianas entre 2.000 e 9.000 anos atrás. Naquela altura, o corredor de terra que unia a Eurásia e a América pelo estreito de Bering era inacessível devido às geleiras, por isso os autores do estudo acreditam que os primeiros americanos tenham chegado pela rota marítima ao longo da costa do Pacífico, que se abriu antes da via terrestre.

Esses primeiros grupos conquistaram todo o continente em 1.500 anos, como demonstram os restos arqueológicos encontrados no sul do Chile. As diferentes populações se distribuíram em grupos pequenos e separados, “como ilhas no oceano”, explica Bastien Llamas, pesquisador da Universidade de Adelaide, na Austrália, e coautor do trabalho. Esse fato contribuiu para que “quando os europeus chegaram, a maioria dessas populações morresse”, afirma. Essa situação foi especialmente grave nas cidades incas e de outras culturas da costa ocidental, explica o trabalho. De todos os cenários possíveis para explicar os dados genéticos analisados, o único que se encaixa é o da mortalidade em massa depois da chegada dos europeus, um cenário que também coincide com testemunhos históricos da época, ressalta Llamas.

Cadáver no sítio arqueológico de Huaca Pucllana, em Lima (Peru), onde foram analisados vários indivíduos para este estudo Proyecto de Investigación, Conservación y Puesta en Valor Huaca Pucllana

Linhagens perdidas
“É evidente que outras populações da América do Sul sobreviveram e se tornaram os ancestrais das populações indígenas atuais”, acrescenta o especialista em DNA antigo, mas sua diversidade genética diminuiu com a perda de parte das linhagens originais. É difícil saber até onde chega essa perda, pois uma das limitações do estudo, conforme admite Llamas, é que existem poucos dados genéticos de populações atuais de regiões como Machu Picchu e outros epicentros das culturas pré-colombianas para compará-los com os genomas antigos. “Possivelmente existem populações atuais descendentes das linhagens analisadas, mas temos uma lacuna nos dados”, reconhece.

Carles Lalueza-Fox, pesquisador do CSIC e especialista em genética de populações, oferece uma opinião independente sobre o estudo. A conclusão é “sem dúvida razoável”, ressalta, mas ainda faltam dados para sustentá-la. Por sua forma de transmissão de mães a filhos, é normal que “as linhagens mitocondriais se extingam de forma natural em qualquer população sem necessidade de propor causas disruptivas externas; é um fenômeno esperável cada vez que uma mulher ou não tem filhos ou só tem filhos homens”, detalha.

Para Marcos Galego, pesquisador espanhol que trabalha na Universidade de Cambridge (Reino Unido), trata-se de um estudo “muito bem elaborado” e de conclusões bastante plausíveis. “Há muitos estudos anteriores que indicam que morreram cerca de 95% de nativos”, ressalta.

Em todo caso, ainda resta dar o passo mais importante: extrair o DNA nuclear, onde se encontra o grosso do genoma e se armazena informação muito mais detalhada das linhas paterna e materna. Isso permitiria saber qual foi o papel de doenças importadas pelos conquistadores como o sarampo ou a varíola e ajudaria a quantificar até onde chegou o extermínio dos índios depois do primeiro contato.

A equipe de cientistas que assina o novo estudo, que inclui especialistas da Universidade de Harvard e a da Califórnia em Santa Cruz, nos Estados Unidos, assim como de Chile, Argentina, México, Bolívia e Peru, já está tentando obter esse material genético. “Esperamos poder extrair DNA nuclear dessas múmias ou de outras, mas não acredito que o panorama geral mude muito, a lógica nos diz que o desaparecimento deve ter afetado tanto homens como mulheres”, conclui Haak.

Fonte: http://brasil.elpais.com/brasil/2016/03/31/ciencia/1459446271_454060.html (02/04/2016)

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