quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

El Infiernito – observatório astronômico da cultura muisca


Texto de Dalton Delfini Maziero

A 7 km do povoado colombiano de Vila de Leyva, encontra-se um dos mais intrigantes centros astronômicos pré-colombianos da América, construído entre 600 e 1536 dC. pela cultura Muisca. Qual o verdadeiro significado de “El Infiernito” e seu alinhamento com os astros celestes? Seria os dolmens fálicos, uma tentativa de alteração do equilíbrio cósmico?

Caminhar pelo povoado de Vila de Leyva é como retornar ao passado. A vida ocorre tranqüila e cordial em meio às suas vielas e casarões coloniais. Fundada em 1572, por Hernán Suárez de Villalobos, Vila de Leyva guarda um patrimônio histórico, paleontológico e arqueológico como em poucos lugares da Colômbia. Seu rico passado paleontológico deve-se ao fato de ter sido – há 120 milhões de anos – fundo de oceano, antes da elevação da Cordilheira dos Andes. Uma grande e rica camada sedimentar ficou assim depositada nos vales próximos ao povoado. Em toda a região, um grande número de fósseis foi localizado, entre os quais, o esqueleto completo de Cronossauro. Muito deste patrimônio local, pode ser visitado a pé. Saindo da Plaza Mayor de Vila de Leyva, é possível atingir “El Infiernito” seguindo pela Carrera 10 sentido oeste. O observatório Muisca encontra-se à aproximadamente 7 Km (1:40 hora de caminhada).

Fóssil de Cronossauro

Num passado mais recente – 600 dC – toda a Cordilheira Oriental estava ocupada por culturas indígenas do tronco lingüístico chibcha. A maioria proveniente da América Central. Quando os europeus chegaram à Colômbia, encontraram vários grupos – entre eles os Muiscas, construtores de El Infiernito – partilhando de costumes e crenças semelhantes, sem formarem, contudo, uma unidade política. Estas tradições comuns contribuíram para a produção de adornos em metal - em especial o ouro - além de um intercâmbio de produtos naturais, como o sal - proveniente da região litorânea ocupada pelos Taironas - cerâmica, folhas de coca, algodão - com o qual teciam gorros e mantas - e esmeraldas.

Sacrifícios e Totenismo

As ruínas do centro astronômico Muisca revelam a presença de profundos preceitos religiosos. Múmias e oferendas – constituídas por figuras de homens e animais – foram encontradas no local. Além destes, sabemos também que era costume os antigos povos colombianos inalarem alucinógenos, como forma de se comunicarem com criaturas míticas, na esperança talvez de benefícios climáticos. Partilhavam em suma, de uma mesma visão cosmológica. A visão do cosmos é para nós, revelada nos artefatos encontrados pelos arqueólogos e huaqueros (caçadores de tesouros): muitas das peças de ouro hoje expostas nos museus colombianos, são claras representações de animais antropormofizados. Homens-Jaguar, Homens-Morcego, Homens-Pássaros, entre outros, revelam a necessidade dos indígenas no totenismo: a “transformação” humana em animal, adquirindo seus poderes através de rituais. Os sacerdotes e caciques locais manifestavam essa força e poder pelo uso de ornamentos específicos – feitos em ouro – como as narigueiras, peitorais e utensílios de orelha que lembravam características físicas de animais. Esses adornos lhes conferiam poder religioso e autoridade local.

Por volta de 1500, essas sociedades pré-colombianas eram essencialmente agrícolas e, por este motivo, voltavam seus olhos ao céu, na esperança de calcularem as melhores épocas para plantio e colheita. As previsões oriundas dessas observações eram acompanhadas de rituais, muitas vezes envolvendo sacrifícios humanos, cujo sangue sagrado era recolhido em vasilhas. Além do sangue, foram encontrados outros tipos de oferendas: comida, cristais, cerâmica, ostras, alucinógenos e conchas. Arqueólogos localizaram também alguns corpos em covas profundas, envoltos em peles e mantas. Sabemos que esta prática de mumificação ultrapassou a época da conquista espanhola. Algumas múmias datam de 1800 dC., revelando uma prática que perdurou mesmo com a chegada e permanência da religião católica.


Como outras sociedades que ocuparam a América do Sul, a Muisca nunca foi democrática. Somente homens de determinadas linhagens chegavam ao poder. Os grandes senhores (caciques) e os sacerdotes (jeques) eram os mais significativos. Dominavam as práticas religiosas e as ligações sobrenaturais com seres míticos. Eram iniciados desde jovens, e por isso adquiriam grandes poderes em relação às demais camadas sociais. Como eram personagens quase inatingíveis, dependiam de mandatários e pregoneros (mensageiros), que levavam aos povoados a lembrança da existência do cacique local, que cuidaria da segurança de todos em época de crise e guerras. Era prática comum um pregonero levar os ornamentos utilizados por seu cacique, como forma de legitimar o poder local.

A pedra como idioma cultural

Segundo as palavras de Eliécer Silva Celis, arqueólogo descobridor do observatório Muisca, “a pedra foi o idioma desta cultura, que as empregaram para manter sua obra eterna”. A escolha da rocha como elemento de expressão artística e ritualística foi comum a vários povos pré-colombianos. Foi utilizada por aqueles que já haviam atingido certa estabilidade em sua economia agrícola. A utilização da rocha, neste caso, atinge uma qualidade técnica que vai além da mera expressão da arte.

O sítio arqueológico aos poucos está sendo reconstruído com a ajuda da Universidad Pedagógica y Tecnológica de Colômbia e do ingresso cobrado aos turistas. Hoje, o espaço ganhou o nome de Parque Arqueológico de Monquirá. A reconstrução do local visa recuperar os danos causados pelas guerras inter-tribais; depredações em tempos da conquista espanhola e pela ação de huaqueros, caçadores de relíquias nos tempos modernos.


O monumento, com pedras alinhadas segundo pontos cardeais leste-oeste, é um exemplo surpreendente da astronomia primitiva americana. Eliécer acredita que, por meio da observação e dedução, os antigos astrônomos buscaram a relação entre as colunas de pedra e a posição dos planetas e estrelas. Muitas destas colunas são obvias representações do órgão sexual masculino, símbolo para os povos pré-colombianos, da fecundidade.

O matrimônio cósmico

A sacralidade da sexualidade humana e a preocupação pela fecundidade dos campos aparecem reveladas nesses colossais monólitos entalhados em pedra, detentores de valores espirituais e mágicos. Ao serem erigidos, convertem-se em manifestações simbólicas do sagrado. Transformam-se em objetos de culto religioso. Para os Muiscas, o desaparecimento da sombra do Sol nas colunas fálicas foi um provável sinal de que o astro havia se antropomorfizado e que, por meio delas, descido a Terra para fecundá-la.

Este “matrimônio cósmico” ocorria regularmente em março e setembro, e foi objeto de grandes festividades religiosas, ordenadas pelo sacerdote local. Não é fácil para nós, compreendermos todo o significado desta construção. Muito mais difícil, é entender os ritos e manifestações religiosas, e sua ligação com a vida desses povos. Muitas vezes, a mitologia regional nos fornece pistas sobre o grau de interferência do sagrado na vida desses antigos habitantes americanos: acreditavam que o Sol era dotado de uma força fecundante tão poderosa que, uma virgem nua exposta a seus raios, fica grávida imediatamente. De qualquer modo, é importante perceber no centro astronômico Muisca de Vila de Leyva, uma entre muitas manifestações do gênero. Ele não é o único existente na América, e por este motivo, nos revela uma prática comum a vários povos. Uma prática há muito tempo esquecida.


Para saber mais:
Observatório astronômico pré-colombiano no Brasil


Quem pensa que construções como El Infiernito encontram-se apenas na Cordilheira dos Andes, está enganado. Recentemente, os arqueólogos Mariana Petry Cabral e João Darcy de Moura Saldanha revelaram uma das mais significativas descobertas dos antigos habitantes da região amazônica: a existência de um observatório celeste em Calçoene, no Amapá. A estrutura erguida é formada por um conjunto de 127 rochas dispostas em formato circular. Algumas das quais, com mais de 3 metros de altura. Segundo os arqueólogos, “Nós sabemos que entre os atuais povos indígenas no Brasil o saber astronômico é bastante difundido, havendo inclusive muitas pesquisas na área da etnoastronomia. Não é nenhuma novidade atribuir este tipo de saber a estes povos. O que é novidade com este sítio arqueológico é a construção de uma estrutura onde a observação é concretizada, onde o fenômeno deixa de ser um momento efêmero, pois a estrutura tem durabilidade. Mesmo quando o fenômeno não está acontecendo (e ele acontece uma vez ao ano), é possível olhar para este bloco de rocha específico e saber qual a inclinação do sol durante o solstício de Dezembro, pois o bloco está alinhado com esse momento.”

Veja entrevista completa sobre o “Observatório Celeste do Amapá” em ARQUEOLOGIA AMERICANA: http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/2010/01/observatorio-celeste-do-amapa.html

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