sexta-feira, 11 de junho de 2010

"Preservação da história em marcas na terra"


Estudo indica que círculos feitos de terra, pedra, madeira ou plantas podem ter servido como currais para o gado transportado por tropeiros na época das charqueadas. A itenção do pesquisador é preservá-los para uma futura exploração turística

Pelotas. Logo que "descobertos" por acaso, em Capão do Leão, os anéis de terra com cerca de cem metros de diâmetro, em média, instigaram o jornalista Bruno Farias a descobrir a verdadeira origem, função e idade dessas formas geométricas apelidadas de "geoglifos gaúchos". Com auxílio de uma ferramenta disponibilizada na internet para visualização de imagens de satélite, o curioso jornalista - até então leigo no assunto - começou a se dedicar À temática praticamente desconhecida da comunidade e (ainda) de pouca relevância histórica, até mesmo nos meios acadêmicos.

Nessa pesquisa virtual e através de imagens aéreas, Farias já contabilizou mais de duas centenas de geoglifos no sul e sudoeste do Rio Grande do Sul, que podem ser de diversos outros materiais além de elevações de terra, como valas cavadas no chão, muros de pedras, madeira beneficiada, árvores (inclusive frutíveras), cactus e pau-a-pique. Dezenas desses círculos estão localizados na Estrada do Passo dos Carros, entre Capão do Leão e Pelotas, também chamada de "Corredor das Tropas" por ser a rota usada por tropeiros para o transporte de vacas, cavalos e mulas a partir do final do século 18.

Depoimentos de diversos moradores confirmaram que as estruturas eram cercas feitas por escravos no início da colonização para "hospedar" os animais que precisavam descansar durante a longa viagem, na época das charqueadas que durou até o início do século 20. Esses currais possibilitavam que os bichos não fugissem e se dispersassem na mata.

HIPÓTESE MAIS PROVÁVEL
Segundo mapas antigos e outras referências, os tropeiros que transportavam esses animais realmente passavam por ali. Textos históricos situam alguns desses currais de pau-a-pique e de pedra nos atuais municípios de Pelotas, Capão do Leão, Aceguá, Bagé e outras cidades próximas. "Porém, mesmo sendo citados, é raro encontrar referências visuais sobre os tais cercados, o que mantém o assunto misterioso", observou Farias.

Com a junção de mais de 60 entrevistas a provas documentais (como um livro de 1878 que relata a construção de um curral circular feito de areia com valas internas e muradas externas com a terra tirada dali mesmo, e um antigo mapa espanhol do final do século 19 que marca as rotas que circundavam o Estado a partir da região de Bagé) cada vez menos se cogita a possibilidade dessas construções, que são melhor visualizadas do alto (imagens aéreas) ou do espaço (imagens de satélite) terem raízes mais profundas, remontando à pré-história. "Comparando o mapa antigo com imagens de satélite atuais, pude verificar que os diversos entrepostos existentes no mapa coincidem com as atuais imagens desses currais", explicou o pesquisador.

O historiador Joaquim Dias estimou a Farias a idade dessas construções em aproximadamente 200 anos. "Mas a certeza só poderá ser obtida através do estudo de especialistas, como arqueólogos e botânicos. Eu sou apenas um curioso que luta pela disseminação, reconhecimento e preservação de mais essa parte da nossa história".

O QUE SÃO GEOGLIFOS
O geoglifo é uma figura em morros ou regiões planas que é melhor visualizada do alto, como por exemplo de um avião, helicóptero ou balão. Algumas podem ser vistas e percebidas do solo e outras não.

Essas figuras podem ser desenhadas por rochas de coloração diferente do solo ao seu redor ou por escavações fazendo desnível no solo. Podendo atingir de uma ponta a outra do desenho até 250 metros. São encontrados desenhos geométricos (como quadrados e círculos), além de antropo e zoomorfos, formas humanas e animais, respectivamente. No Brasil, os geoglifos mais conhecidos estão no Acre, mas que diferem, na época, função e origem dos "descobertos" no Estado, que são semelhantes a centenas visualizados também no Uruguai e na Argentina.


PROFISSIONAIS ESPECIALIZADOS VISITAM "CURRAIS"
O jornalista Bruno Farias levou até alguns desses locais, no mês passado, o paleontólogo da Universidade Federal do Pará (UFPA), Alceu Ranzi - responsável pelos estudos dos geoglifos do Acre - e o historiador Fábio Vergara Cerqueira. "Só de observarmos temos a certeza de que não são formas criadas pela natureza, mas sim feitas pelo homem. É preciso um estudo mais detalhado para comprovar exatamente quando e porquê. Pode ter sido feito na pré-história, por povos nativos ou, realmente, por tropeiros na época das charqueadas", afirmou Cerqueira.

Para Farias, a visita dos especialistas foi justamente para confirmar que apesar da aparência semelhante, os geoglifos gaúchos têm idades e funções diferentes dos de lá. "Aqui eles foram feitos nos últimos séculos para contenção do gado, enquanto os da Amazônia foram feitos por povos indígenas há milênios".

Ontem foi a vez da arqueóloga gaúcha que também atua na pesquisa dos geoglifos do Acre na UFPA, Denise Schaan, conhecer as estruturas construídas no Rio Grande do Sul. "As estruturas do norte e do sul do país são parecidas somente nas imagens de satélite. Ao se chegar perto delas, se vê que elas são completamente diferentes. As valas dos geoglifos do Acre são mais largas e muito mais profundas, enquanto que os morros de terra são baixos. Aqui é exatamente o oposto".


COMO FOI A DESCOBERTA
Tudo teve início com a criação de um blog para contar a história de Capão do Leão. "Que depois virou meu trabalho de conclusão do curso de Jornalismo, um site e, futuramente, um livro "Memórias leonenses: personagens lugares históricos e lendas de Capão do Leão". Então um dos capítulos do estudo se mostrou muito interessante, os velhos currais circulares de pedra, terra e plantas que podem ser vistos até do espaço e que seguem velhas trilhas dos tropeiros, adentrando sul e sudoeste do Rio Grande do Sul, cruzando todo o Uruguai até chegar na Argentina. "Resolvi ir a fundo no trabalho e transformá-lo em projeto para o mestrado de Memória Social e Patrimônio Cultural".

Segundo Cerqueira, ao ingressar no mestrado com um projeto desses ele poderá montar uma equipe multidisciplinar com arqueólogo e botânico para comprovar todas as dúvidas e mistérios que envolvem os geoglifos gaúchos".


CONSCIENTIZAÇÃO PARA PRESERVAR
Farias comentou que seu principal objetivo é conscientizar a população quanto à existência dessas estruturas e a importância da preservação para as futuras gerações. Ele quer mapear e descrever o maior número possível desses currais e rotas de tropeiros com a máxima exatidão possível, buscando não só a documentação deles como a sua preservação e, futuramente, seu aproveitamento pela população como rota turística. "Para isso, o trabalho é longo de cadastrar cada ponto como sítio arqueológico, providenciar o tombamento e, só depois, construir um roteiro turístico".

Ele já está em contato com diversas prefeituras para que a pesquisa continue sendo feita. "Assim essas verdadeiras obras de engenharia poderão ser documentadas e protegidas, primeiramente nas esferas municipais, para depois sim receberem tombamento estadual ou nacional".

POSSÍVEL DOCUMENTÁRIO NACIONAL
Os geoglifos gaúchos estão concorrendo para aparecerem na produção brasileira Detetives da História do canal de TV a cabo The History Channel. O tema concorre com vários outros e o vencedor terá gravado um documentário que será exibido na televisão. "Só o fato de concorrer já é uma grande divulgação para a região, principalmente para o turismo". As pessoas podem contribuir com o seu voto no site http://www.seuhistory.com.br/

Fonte: Reportagem especial publicada nas páginas 2 e 3 do jornal Diário Popular (Pelotas/RS) em 27/05/2010 com texto de Taline Schneider com fotos de Marcel Ávila, Bruno Farias e Eduardo Amorim; in "www.historiaxatualidade.blogspot.com/".

Leia mais sobre o assunto:
www.memoriasleonenses.xpg.com.br
www.geoglifosdosul.xpg.com.br
www.revistadehistoria.com.br

2 comentários:

  1. Procuro rota dos tropeiros, próximo ao Capão de leao/Rs rpf939@hotmail.com

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  2. Peça já seu livro "Geoglifos Gaúchos", tiragem limitada! R$ 29,90 cada c/ FRETE GRÁTIS p/ todo Brasil até 21/01/2014: http://www.facebook.com/geoglifosgauchos

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