sexta-feira, 11 de junho de 2010

Sociedade que habitou Brasil era mais complexa do que se pensava

Pesquisadores examinam sambaqui em Santa Catarina
Foto: Paulo Antônio Dantas de Blasis/Agência Fapesp/Divulgação


Pesquisa coordenada pelo professor Paulo Antônio Dantas de Blasis, do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP), indica que as sociedades sambaquienses, que habitaram o litoral brasileiro durante um período entre 2 mil e 7 mil anos, mantiveram hábitos e culturas mais elaboradas do que se imaginava. As informações são da Agência Fapesp.

Os cientistas estudaram desde 2005 no litoral de Santa Catarina as sociedades que construíram morros conhecidos como sambaquis ("montes de conchas", em tupi-guarani). Essas comunidades ocupavam uma faixa do litoral brasileiro que ia da região Sul até o Nordeste. Contudo, elas desapareceram há cerca de mil anos. As construções foram observadas já pelos primeiros colonos europeus que chegaram ao País. "Mas, até hoje, sabemos muito pouco sobre a finalidade dos sambaquis", disse Blasis à agência. Segundo os pesquisadores, entre as principais funções desses morros estava a funerária. Os mortos era enterrados em covas rasas e a pesquisa do material encontrado pelo estudo indica que eram feitas grandes festas funerárias que reuniam várias comunidades sambaquianas. Restos de comida eram depositados sobre os corpos, que depois ficavam sob conchas.

Os túmulos tinham forma de pequenos montes e eram construídos lado a lado, sendo que mais corpos eram colocados em novas camadas e, no final, formavam um único monte. Ao longo do tempo, o cálcio das conchas se espalha pela estrutura, que ficava petrificada.

Esse ritual funerário, além de outras descobertas, indica que essa sociedade era mais sofisticada do que pensava. "A maneira de tratar os mortos é bem característica de cada cultura", disse Blasis.

Ainda de acordo com o estudo, ao contrário do que se estimava, os sambaquianos não eram nômades, mas estabeleciam comunidades fixas, o que exigia um maior grau de organização. A pesquisa indica também que eles eram mais numerosos do que se imaginava, com milhares de comunidades espalhadas pela costa e que interagiam entre si, como indicam os rituais funerários.

Essa característica de interação entre as comunidades levou os cientistas à hipótese de que os sambaquis também funcionavam como um marcador territorial, para servir de aviso de que o local pertencia a determinado grupo. Para estudar essa hipótese, o grupo fez escavações e utilizou equipamentos como radares de superfície e instrumentos de datação de objetos com o método de carbono 14 e da luminescência opticamente estimulada.

Os pesquisadores afirmam ter criado um mapa do desenvolvimento dessa sociedade e construído uma "supercronologia regional". Participaram do estudo geólogos, bioantropólogos, geofísicos e arqueólogos, entre outros profissionais, além de especialistas em paleoclimatologia. "Essa especialidade diz sobre as oscilações do nível do mar, se há vestígios de mangue, se o ambiente era mais frio em relação ao clima de hoje ou se o solo era mais salgado comparado ao atual, entre outras informações", disse Blasis.

Os cientistas afirmam ainda que o Estado de Santa Catarina foi escolhido para o estudo por ter os maiores sambaquis remanescentes, já que a maioria dessas estruturas, que chegavam a 70 m de altura, foi destruída. A cal extraída dos sambaquis foi utilizada na construção civil entre os séculos XVII e XIV e, além disso, a degradação continuou pela ação humana até a década de 1970.
A pesquisa indica também que essa sociedade desapareceu de forma pacífica. "Nos ossos encontrados não há sinais de mortes violentas, o que sugere que os sambaquienses podem ter desaparecido de forma pacífica ao se miscigenar com outros grupos", afirmou Blasis.

Fonte: http://noticias.terra.com.br/ciencia/noticia/ (10/06/2010)

Um comentário:

  1. Estão em exposição no Museu do Homem Americano (o popular Museu do Homem de Sambaqui), no Colégio Catarinense, em Florianópolis/SC, ossadas de habitantes de sambaquis com pontas de flecha cravadas em seus ossos. Mas, em arqueologia, uma andorinha sozinha não faz verão né...

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