quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Amazônia não é uma região "tão primitiva", diz pesquisa.

Na região do Alto Xingu, foram encontrados vestígios de mais de 600 anos indicando a existência de civilizações antes mesmo da chegada dos colonizadores.

São Paulo - Um grupo de cientistas brasileiros e norte-americanos encontrou vestígios de uma civilização antiga na Amazônia, indicando que houve cidades “urbanizadas” no estilo grego antes mesmo da chegada dos primeiros navegadores europeus ao “Novo Mundo”. Os vestígios possuem mais de 600 anos de idade, de acordo com Mike Heckenberger, professor da Universidade da Flórida (EUA) e um dos líderes da pesquisa.

“O que achávamos que era primitivo na floresta Amazônica não é tão primitivo assim no final das contas”, afirmou Heckenberger. Segundo ele, os colonizadores europeus “dizimaram um grande numero de povos indígenas” e depois “esvaziaram os locais”. Isso fez com que a floresta crescesse e encobrisse os vestígios dessas civilizações.

Na região do Alto Xingu, próxima à Bacia Amazônica, onde os arqueólogos têm concentrado os seus estudos nas últimas décadas, há vestígios de comunidades urbanizadas supostamente do século XIII. De acordo com o Heckenberger, na Amazônia as cidades também eram cercadas por grandes muralhas, como na Grécia e Roma antigas.

Para a surpresa dos cientistas, as ruínas sobreviveram ao tempo no meio da floresta.
O grupo também encontrou vestígios de represas e reservatórios de água artificiais, que acredita-se terem sidos usados para a pesca e agricultura. Outra característica era a estrutura das cidades: eram conectadas por uma praça central e interligadas por uma rede de estradas idênticas, sempre apontando do nordeste para o sudoeste (em harmonia com o solstício de verão).

Heckenberger explica que ele e sua equipe conseguiram elaborar um mapa digital do complexo e denso agrupamento de cidades, a partir do uso de imagens de satélite e de GPS. Segundo o pesquisador, as duas maiores cidades possuíam dois centros distintos (um cerimonial, e o outro residencial) e eram cercadas por comunidades menores.

Os pesquisadores encontraram vestígios numa área de mais de 20 mil quilômetros quadrados, indicando pelo menos umas 15 cidades. Eles estimam que cada cidade possuía entre 250 e 2.500 habitantes, e, juntas, um total de mais de 50 mil pessoas. A hipótese é de que tenham sido destruídas pelos colonizadores europeus, com boa parte das populações dizimada.

Segundo o estudo, os vestígios desses agrupamentos são poucos porque as construções eram feitas de terra, e a floresta cobriu os traços deixados. Ainda assim, puderam ser identificados pelos membros da tribo indígena Kuikuro, considerados os descendentes diretos dos nativos que construíram as cidades. É possível perceber padrões semelhantes às das cidades antigas na organização das vilas dos Kuikuro.

O trabalho de Heckenberger e sua equipe reacende as incertezas sobre a vida na Amazônia, tanto em relação às organizações indígenas quanto à floresta, antes da chegada dos europeus. Ao que tudo indica, pelos vestígios encontrados, já não é mais possível afirmar com certeza que essa região da Amazônia era vazia antes da colonização. A pesquisa também comprova a existência de uma grande população habitando a região, que era organizada e complexa, e que alterou a paisagem da área.

As informações estão no artigo “Pre-Columbian Urbanism, Anthropogenic Landscapes, and the Future of the Amazon” (Urbanismo pré-colombiano, paisagens antropogênicas, e o Futuro da Amazônia”), publicado na revista Science. Entre os brasileiros que participaram do estudo estão Carlos Fausto e Bruna Franchetto, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Edithe Pereira, do Museu Paraense Emilio Goeldi (MPEG), e Afukaka Kuikuro, da Associação Indígena Kuikuro do Alto Xingu.

Fonte: Revista Science (Vol. 321. no. 5893, pp. 1214 – 1217)

Fonte: http://www.d24am.com/amazonia/povos/amazonia-nao-e-uma-regiao-tao-primitiva-diz-pesquisa/7220 (14/09/2010)

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