Inovação: como a tecnologia ajuda a ampliar o olhar de arqueólogos

 

Ferramentas de análise de grandes volumes de dados se somam a técnicas tradicionais, como escavações, para enriquecer estudos sobre civilizações passadas

Por: Paloma Oliveto

09/08/2021

Filmes de aventura e documentários históricos ajudaram a criar a imagem que vem à mente quando se pensa em um arqueólogo: bermuda, colete e chapéu, pele queimada pelo Sol, mãos sujas de terra, rodeado por ferramentas que ajudam a trazer o passado à luz. Mas, com o avanço das tecnologias de análise de grandes volumes de dados — o chamado big data —, hoje já é possível escavar ainda mais profundamente sem necessariamente ir a campo.

Mais comumente utilizadas na ciência para estudos climáticos, astronômicos, genéticos e pesquisas médicas, as ferramentas de big data também estão rendendo estudos arqueológicos que, de outras formas, seriam difíceis ou mesmo impossíveis de serem realizados. A análise de dados, a inteligência artificial e o uso de satélites e drones não substituem as técnicas tradicionais da área, mas contribuem para ampliar e enriquecer esse campo, dizem especialistas.

“Algumas perguntas são realmente difíceis de responder quando você está olhando apenas para uma ‘pequena história’, cavando uma trincheira nos restos de uma única casa”, diz o antropólogo Parker VanValkenburgh, professor da Universidade de Brown, nos Estados Unidos, que tem se valido de projetos digitais para estudar a vida pré-colonial nos Andes. “As grandes questões sobre o Império Inca são muito difíceis de responder com apenas uma picareta e uma espátula”, justifica. Segundo ele, o big data “pode fornecer aos arqueólogos uma visão ampla e abrangente dos assuntos que estudam, gerando novos insights e novas questões históricas”.

VanValkenburgh e o também antropólogo Steven Wernke, da Universidade de Vanderbilt, nos EUA, trabalharam, recentemente, com o etno-historiador Akira Saito, do Museu Nacional de Etnologia do Japão, para desenvolver dois bancos de dados on-line e de acesso aberto. O objetivo foi trazer novas perspectivas sobre o reassentamento forçado do Império Inca, na década de 1570, pelos conquistadores espanhóis. O Link Aberto do Dicionário Geográfico da Região Andina (Logar) foi elaborado para juntar informações de fontes primárias sobre locais relevantes para os estudiosos da região dos Andes.

A ferramenta inclui informações coletadas de um registro abrangente do reassentamento conhecido como Tasa de la Visita Geral, mantido pelo vice-rei do Peru. A Plataforma Geoespacial de Cultura, História e Arqueologia Andina (GeoPACHA) complementa o Logar. Trata-se de uma plataforma de código aberto baseada em um navegador que permite aos usuários descobrirem e documentarem sítios arqueológicos nos Andes, pesquisando sistematicamente satélites e imagens aéreas históricas por meio de redes de equipes treinadas.

Os três pesquisadores criaram um extenso mapa das cidades coloniais planejadas (reducciones) construídas durante o reassentamento em massa. Isso os ajudou a identificar um padrão intrigante na distribuição dessas reduções: parecia seguir uma ordenação semelhante à da infraestrutura imperial inca: ou seja, o sistema de estradas desses povos. “Os espanhóis, após cerca de 40 anos no Peru, estavam tentando descobrir como governar esse vasto território”, diz VanValkenburgh. “Eles imitaram diretamente o que os incas estavam fazendo. O reassentamento foi uma das iniciativas no centro dessa tentativa de reimaginar a governança espanhola em um modelo inca.”

De acordo com o pesquisador, na arqueologia, a ciência de big data está ainda na infância, em comparação a outros campos, como astronomia e genética. “Mas o que ela promete é nos permitir olhar para processos e padrões em uma escala continental, possibilitando, por exemplo, examinar as maneiras pelas quais sociedades inteiras se adaptaram às mudanças climáticas durante longos períodos de tempo.” Porém o pesquisador ressalta que uma dependência excessiva de métodos arqueológicos baseados em dados poderia “distanciar os estudiosos das próprias pessoas e civilizações que suas pesquisas procuram compreender melhor”.

Caçadores-coletores
Na Argentina, pesquisadores estão utilizando técnicas estatísticas de aprendizagem automática para analisar os padrões de mobilidade e do uso de tecnologia dos grupos de caçadores-coletores que habitavam o Cone Sul da América desde a chegada desses povos, há cerca de 12 mil anos, até o fim do século 19. Para o estudo, eles utilizam big data de sítios arqueológicos localizados no extremo sul da Patagônia.

Ivan Briz i Godino, arqueólogo do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas (Conicet) da Argentina e integrante do grupo de estudos, conta que a presença de humanos no continente americano data de pelo menos 14,5 mil anos, segundo datações feitas em sítios arqueológicos como Monte Verde, na região chilena de Los Lagos. Mas os primeiros colonos continuaram se deslocando em direção aos confins do sul da América.

Agora, o Conicet e duas instituições espanholas — o Conselho Nacional de Pesquisa da Espanha e a Universidade de Burgos — analisaram as relações entre mobilidade e tecnologia desenvolvidas pelas sociedades originárias do extremo sul da Patagônia. O resultado parcial do estudo, publicado na revista Royal Society Open Science, é baseado em um extenso banco de dados de todas as evidências arqueológicas disponíveis da presença humana na região, desde o momento em que os primeiros grupos chegaram, no início do Holoceno, até o fim do século 19.

Os cientistas utilizaram um sistema estatístico que permite ao computador aprender a partir de muitos dados (nesse caso, referentes aos elementos tecnológicos característicos dos sítios) para efetuar classificações e previsões. “É por meio de algoritmos de classificação automática que identificamos dois pacotes tecnológicos ou ‘paisagens’: um que caracteriza grupos de caçadores-coletores que faziam as próprias ferramentas de pedra e osso, e outro que caracteriza aqueles que tinham tecnologia náutica, como canoas, arpões e conchas de moluscos para fazer contas”, explica Briz.

Os resultados do estudo também possibilitaram a obtenção de mapas com os assentamentos das duas comunidades, o que, por sua vez, ajudou a localizar grandes regiões nas quais esses povos interagiam e compartilhavam seus conhecimentos tecnológicos. No caso dos grupos com tecnologia náutica, está confirmado que chegaram por volta do início do Holoceno Médio (há cerca de 6 mil anos) desde os canais e as ilhas do Pacífico Sul, movendo-se ao longo da costa do que hoje é o Chile.

“A arqueologia tradicional identifica sítios, sociedades e seus possíveis contatos com base em elementos específicos selecionados por especialistas, como desenhos de pontas de armas ou elementos decorativos”, diz Briz. “Mas, aqui, mostramos que é mais interessante analisar conjuntos de elementos tecnológicos como um todo, utilizando técnicas de inteligência artificial que nos permitem trabalhar com grandes volumes de dados e sem ideias pré-formadas subjetivas.”

“Algumas perguntas são realmente difíceis de responder quando você está olhando apenas para uma ‘pequena história’ (…) As grandes questões sobre o Império Inca são muito difíceis de responder com apenas uma picareta e uma espátula”

Parker VanValkenburgh, professor da Universidade de Brown

Avanços também na pesquisa histórica

Não é apenas a arqueologia que se beneficia das ferramentas de big data. A pesquisa histórica também é favorecida pela análise de grande volumes de informações. É o caso de um projeto da Universidade de Indiana, nos EUA, que inseriu um novo capítulo no estudo da Revolução Francesa ao demonstrar como as inovações retóricas e institucionais foram as bases da fundação da república francesa e inspiraram futuras democracias. Os autores vasculharam, com a ajuda da inteligência artificial, as transcrições de 40 mil discursos do mandato de dois anos da Assembleia Nacional Constituinte, o primeiro parlamento da revolução.

Adotando ferramentas analíticas para rastrear padrões de uso de palavras, eles descobriram que os princípios, ideais e objetivos da Revolução Francesa surgiram e evoluíram nos discursos e debates da assembleia. Também constataram que alguns dos trabalhos mais influentes ocorreram nos bastidores do evento político.

Rebecca Spang, coautora de um artigo sobre o estudo, publicado na revista Pnas, explica que historiadores e cientistas políticos há muito debatem se os eventos da revolução produziram seus ideais ou se os ideais é que moldaram a revolução.

Padrões de fala
Ao analisar os padrões de palavras do Arquivo Digital da Revolução Francesa para determinar se os vocábulos eram novos e se persistiram ou desapareceram, os pesquisadores forneceram evidências para o argumento de que os debates na assembleia produziram os princípios da revolução.

Eles descobriram, por exemplo, que os integrantes da assembleia mais alinhados à esquerda usavam novas formas de falar, algumas das quais se popularizaram e ganharam influência, enquanto os membros mais conservadores se valiam de combinações de palavras familiares para atrasar as mudanças que eram discutidas.

“Crucialmente, uma coisa que essa tecnologia pode fazer é nos ajudar a identificar novas perguntas e apontar para novas interpretações que, de outras formas, seriam muito difíceis”, diz Spang. De acordo com ela, um número cada vez maior de historiadores aplica ferramentas do tipo em suas pesquisas. Mas, para tanto, a cientista social ressalta: é preciso que países e instituições digitalizem seus acervos. Sem isso, muitas informações sobre o passado podem jamais virem à luz. (PO)

Fonte: Inovação: como a tecnologia ajuda a ampliar o olhar de arqueólogos (correiobraziliense.com.br)

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