Por que este cadáver foi sepultado segurando cerâmica de tartaruga há 2,8 mil anos

Descoberta em El Salvador pode ajudar arqueólogos a compreender crenças funerárias de uma antiga sociedade da Mesoamérica

Por: Arthur Almeida – 27/07/2026

Um esqueleto encontrado com um recipiente de cerâmica em forma de tartaruga marinha junto à mão está intrigando arqueólogos em El Salvador. O sepultamento, descoberto no início de julho no sítio arqueológico Pasaje 4, em Antiguo Cuscatlán, e divulgado semana passada em comunicado do Ministério da Cultura de El Savador, pode ter cerca de 2,8 mil anos e pertencer a uma civilização anterior à dos maias.

A combinação entre a posição incomum do corpo — de bruços, com o rosto voltado para o solo — e o objeto funerário levantou novas hipóteses sobre os rituais e as crenças religiosas dessas populações antigas. O esqueleto ainda será submetido à datação por radiocarbono (técnica que analisa a idade de ossadas a partir dos átomos de carbono presentes nelas), além de análises de DNA para identificar, entre outros aspectos, o sexo biológico da pessoa sepultada ali. Veja abaixo galeria de fotos:

Enterro fora do comum

A escavação foi conduzida pelo arqueólogo Carlos Flores Manzano, doutorando da Universidade Yale, com supervisão de especialistas da Direção Nacional do Patrimônio Cultural. Os restos mortais foram encontrados sob uma camada de cinzas deixada pela erupção do vulcão Plan de la Laguna, que aconteceu entre aproximadamente 850 e 830 a.C.

Esse contexto geológico sugere que o sepultamento pertence ao Período Pré-Clássico Médio da Mesoamérica. A fase compreende entre cerca de 1000 e 400 a.C., quando diversas comunidades da região começaram a estabelecer aldeias permanentes e desenvolver formas mais complexas de organização social.

Para além da posição incomum do corpo, os arqueólogos encontraram um pequeno vaso de cerâmica moldado na forma de uma tartaruga marinha próximo à mão do indivíduo. Embora os responsáveis não atribuam um significado específico ao objeto, sugere-se que ele possa ter desempenhado um papel simbólico no ritual funerário.

Uma das interpretações propostas por Manzano afasta a ideia de que o enterro esteja necessariamente relacionado a um sacrifício humano: “Em vez de estar ligada a sacrifícios, a posição incomum do sepultamento pode estar relacionada a uma antiga compreensão do cosmos e do submundo”, afirma o arqueólogo ao jornal Diario El Salvador.

Segundo essa hipótese, o vaso em forma de tartaruga marinha poderia estar associado ao Cinturão de Órion, conjunto de estrelas que, na cosmologia maia registrada séculos depois, fazia parte da jornada sagrada das almas. Por mais que essa interpretação ainda não tenha sido comprovada para o sepultamento recém-descoberto, ela aponta que o objeto poderia simbolizar uma passagem espiritual, e não simplesmente acompanhar o morto como oferenda.

Os restos mortais encontrados estavam em posição ventral (com a face voltada para baixo), a 17 graus a leste do norte, e, segundo estimativas iniciais, podem ser um esqueleto de 850 a.C — Foto: Ministério da Cultura de El Salvador 

Debate sobre sacrifícios humanos continua aberto

A descoberta também reacendeu uma antiga discussão entre arqueólogos sobre a existência de sacrifícios humanos na região durante esse período. Na década de 1970, o arqueólogo William Fowler escavou um sítio conhecido como Estrutura E3-7, em Chalchuapa, onde encontrou 33 esqueletos humanos.

Na época, ele interpretou o conjunto como evidência de prisioneiros de guerra sacrificados, principalmente porque alguns corpos apresentavam indícios de que braços e pernas teriam sido amarrados. O Ministério da Cultura informou que o novo sepultamento apresenta características semelhantes às encontradas em Chalchuapa e que há possibilidade de outras sepulturas existirem na mesma área.

Entretanto, essa interpretação não é consenso. O portal Live Science destaca que o próprio Flores Manzano questionou, em um estudo publicado em 2020, a hipótese de que todos aqueles sepultamentos representassem sacrifícios humanos. Para ele, algumas dessas práticas podem estar mais relacionadas a rituais funerários e concepções religiosas sobre o universo do que à execução de vítimas.

Após a extração do esqueleto, serão realizados estudos de datação por radiocarbono para determinar a idade estimada dos restos mortais, e também será feito um teste de DNA para determinar, entre outras coisas, se o esqueleto pertence a um homem ou a uma mulher — Foto: Ministério da Cultura de El Salvador

Próximos passos da pesquisa

Além do esqueleto e do vaso cerâmico, os arqueólogos identificaram sulcos utilizados para o cultivo de mandioca preservados sob camadas de cinzas de diferentes erupções vulcânicas. Esses vestígios ajudam a reconstruir a ocupação humana da região ao longo de séculos.

Os pesquisadores acreditam que a área possa esconder um conjunto maior de sepultamentos, semelhante ao encontrado anteriormente em Chalchuapa. Caso essa hipótese seja confirmada, o sítio poderá fornecer novas informações sobre as práticas funerárias e a organização social das populações pré-hispânicas que viveram onde hoje está El Salvador.

Para evitar danos durante a retirada, o esqueleto foi envolvido em uma camada protetora de gesso antes de ser transportado ao laboratório. Agora, os pesquisadores realizarão exames de radiocarbono, análises químicas e testes genéticos no material. Esses estudos deverão indicar a idade exata dos restos mortais, o sexo biológico, aspectos da alimentação, possíveis doenças e até pistas sobre a causa da morte.

De acordo com Manzano, os trabalhos laboratoriais devem durar aproximadamente um ano. Somente após a conclusão dessas análises será possível determinar com maior segurança por que essa pessoa foi enterrada de bruços e qual era o verdadeiro significado do recipiente em forma de tartaruga colocado junto ao corpo.

Fonte: Porque este cadáver foi sepultado segurando cerâmica de tartaruga há 2,8 mil anos

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