T’aqrachullo a cidade inca maior que Machu Picchu que quase foi esquecida
T'aqrachullo passou séculos sendo um nome praticamente
desconhecido fora das comunidades andinas — até que foi redescoberta pela
arqueologia
Por GiovannaGomes - 06/09/2026
T’aqrachullo foi, por muito tempo, um nome praticamente
desconhecido fora das comunidades próximas, escondido entre as montanhas
dos Andes peruanos.
Esse cenário começou a mudar depois que pesquisas arqueológicas revelaram um
importante complexo complexo multifuncional que se estendia por aproximadamente
17,4 hectares, reunindo quase 600 estruturas, entre as quais se destacam
praças, residências, túmulos, escadarias e sistemas de abastecimento de água. Situado
no município de Suykutambo, na província peruana de Espinar, o sítio com
dimensões ainda maiores que Machu Picchu impressiona por reunir milhares de
artefatos associados às antigas sociedades que habitaram a região. Ele
está 4.038 metros acima do nível do mar, em uma mesa elevada a cerca de 90
metros acima do desfiladeiro do rio Apurímac.
É importante dizer porém que, segundo os arqueólogos, T’aqrachullo
não surgiu com o Império Inca. Na verdade, tudo indica que pessoas já viviam
por lá há cerca de 2 mil anos, muito antes da expansão inca pelos Andes. De
acordo com informações do site Uros Expeditions, os primeiros habitantes
conhecidos ocuparam a região entre os séculos 1 e 2 d.C. e é bem provável que a
escolha do local estivesse relacionada à proteção oferecida pela geografia e
mesmo à existência de boas áreas de pastagem nas proximidades.
Com o passar dos séculos, diferentes sociedades deixaram sua
marca sobre a antiga ocupação. Entre elas estavam os Wari, que deixaram
vasta produção de cerâmicas e elementos arquitetônicos, além de uma antiga rede
de caminhos que, posteriormente, seria incorporada e ampliada pelos incas.
Após o declínio dos Wari, T’aqrachullo passou por novas
transformações. Primeiro veio a influência de populações ligadas ao altiplano
do Lago Titicaca. Depois foi a vez do grupo étnico Cana se estabelecer no
local. Estes, por sua vez, desempenhariam um papel importante durante a
expansão inca, chegando a estabelecer uma aliança com Túpac Inca Yupanqui.
Centro estratégico do império
Na época, T’aqrachullo foi incorporada ao domínio inca,
passando a funcionar como um centro estratégico do império. Afinal, a posição
permitia controlar uma importante passagem pelo vale do Apurímac e estabelecer
conexões entre Cusco e outras regiões dos Andes meridionais.
Mas a importância de T’aqrachullo não era apenas política ou
militar. Os registros coloniais de autores como Pedro Cieza de León e Juan
de Betanzos descrevem Ancocagua (outro nome pelo qual T’aqrachullo era
conhecida), como uma huaca, termo em quéchua utilizado para designar
lugares, objetos ou elementos considerados sagrados.
As pesquisas arqueológicas parecem confirmar esse ponto, já
que, dentre as estruturas encontradas estão os vestígios de um grande templo, o
qual acabou sendo modificado em diferentes períodos. Inclusive, há evidências
de que o espaço tenha sido utilizado em cerimônias relacionadas à água, ao Sol
e aos ancestrais.
Os pesquisadores também se depararam com objetos
associados a práticas ritualísticas, incluindo cerâmicas e conopas de turquesa,
pequenas peças de pedra que poderiam estar relacionadas a práticas religiosas.
A descoberta de um sepultamento secundário contendo os restos mortais de 84
indivíduos é mais uma evidência disso.
Outro aspecto extraordinário de T’aqrachullo é a quantidade
de objetos confeccionados em metais. Arqueólogos encontraram milhares de
artefatos e ornamentos produzidos em ouro, prata e cobre, muitos dos quais
parecem estar associados à elite e a cerimônias de grande importância. A
quantidade e a qualidade dessas peças sugerem que a cidade estava integrada a
redes políticas e religiosas muito mais complexas do que as de um simples assentamento regional.
Posição estratégica
Ao mesmo tempo, a localização de T’aqrachullo a transformava
em uma posição defensiva excepcional. O acesso à parte elevada era dificultado
pelos penhascos e por uma escadaria que conduzia ao topo da mesa.
Armas de pedra, pontas de obsidiana e esqueletos que
apresentam sinais de ferimentos indicam que o lugar também foi palco de
confrontos violentos. Essa dimensão militar tornou-se especialmente
importante durante os últimos anos do Império Inca, quando grupos indígenas continuaram
resistindo à conquista espanhola. Segundo os vestígios e os relatos coloniais,
a região de Ancocagua esteve envolvida nos conflitos que marcaram aquele
período.
Depois da conquista, T’aqrachullo acabou abandonada e, com o passar do tempo, suas estruturas foram parcialmente cobertas pela vegetação e pela erosão. Algumas pedras chegaram a ser retiradas e reutilizadas pelos moradores da região na construção de cercas e outras estruturas e, em determinado momento, o antigo complexo acabou se transformado em uma área de pastagem. Tempos depois T’aqrachullo seria redescoberta pela arqueologia.
Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.
Fonte: T'aqrachulloa cidade inca maior que Machu Picchu que quase foi esquecida - Aventuras naHistória

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