Mapeamento a laser descobre pirâmides e outras construções medievais na Amazônia

Por Flavia Correia, editado por Acsa Gomes  26/05/2022

Um artigo publicado na quarta-feira (25) na revista Nature descreve um conjunto de descobertas arqueológicas impressionantes escondidas na Amazônia boliviana.

Segundo o estudo, conduzido por pesquisadores da Alemanha e do Reino Unido, o uso de tecnologia a laser avançada possibilitou mapear grandes assentamentos que datam da Idade Média e apresentam construções de barro e pirâmides tão altas quanto prédios de oito andares.

O recurso aplicado é conhecido como LIDAR (sigla em inglês para Detecção de Luz e Varredura), uma tecnologia óptica de identificação remota que mede propriedades da luz refletida de modo a obter a distância e/ou outra informação a respeito de um determinado objeto distante.

Assim, os cientistas foram capazes de penetrar na vegetação densa que há muito tempo vem estimulando esforços de pesquisa na região, onde muitos especialistas acreditavam não haver sociedades sofisticadas até a chegada dos colonizadores europeus no século 16.

“Este é o primeiro do que espero ser uma enorme série de estudos que vão estourar a tampa de preconceitos sobre como eram as politizações pré-hispânicas na Amazônia em termos de sua complexidade, tamanho e densidade”, disse Chris Fisher, arqueólogo da Universidade do Estado do Colorado que escreveu um editorial acompanhando o estudo.

Segundo Fisher, considerava-se que a ocupação humana pré-hispânica da área era caracterizada por pequenos grupos com desenvolvimento social limitado e sistemas agrícolas. “Mas esses locais estão ultrapassando os limites do que chamamos de cidades”.

Pesquisadores usaram helicóptero para observar áreas remotas na Amazônia boliviana

Para a pesquisa, feita em 2019, os autores utilizaram um helicóptero dotado de equipamentos LIDAR para escanear seis regiões, totalizando 124 metros quadrados, no Departamento de Beni, uma área a nordeste da capital boliviana La Paz. 

Esse esforço revelou um total de 26 assentamentos em detalhes sem precedentes, incluindo 11 que antes eram desconhecidos. “As descobertas se somam a evidências crescentes que desafiam a noção de longa data de que a ocupação humana na Amazônia Ocidental era escassa”, disse ao The Wall Street Journal (WSJ) o professor de geografia da Universidade McGill, no Canadá, Oliver Coomes, que não teve envolvimento com o estudo.


Segundo a pesquisa, os assentamentos foram construídos pela cultura Casarabe, pessoas que ocupavam as planícies amazônicas – uma mistura de savana e florestas dispersas – em uma área de mais de 2,7 mil metros quadrados na atual Bolívia, entre cerca de 600 e 1,5 mil anos atrás. Para se alimentar, eles cultivavam milho e outras lavouras, além de consumir proteínas da caça e da pesca. 

Além da sociedade Casarabe, também existiam os povos Cotoca e Landívar, entre outros – o que já era de conhecimento de arqueólogos. No entanto, o novo estudo trouxe um fator surpresa, que é o tamanho e a arquitetura elaborada de muitos dos assentamentos.

Grande parte desses locais continha complexos montes monumentais conhecidos como lomas, hidrovias e reservatórios, além de pirâmides maciças cobertas com pequenas plataformas. 

De acordo com um dos coautores da nova abordagem, Heiko Prümers, arqueólogo do Instituto Arqueológico Alemão, esses assentamentos eram ligados por calçadas elevadas de até 10 km de comprimento que cortavam a savana. “Eles estão integrados em uma rede de estradas e canais. Isso implica um grau de cultura que nunca se imaginou existir na Amazônia antes”.

LIDAR é um divisor de águas, segundo os cientistas

Diferentemente da cultura Inca, que usava rochas andesitas ou arenito para construir seus monumentos, a arquitetura Casarabe era feita de terra, areia e lodo que os construtores modelavam. “Na época, parecia realmente fabuloso”, disse Fisher sobre o agrupamento de estruturas de barro que compõem os assentamentos recém-detalhados. “Mas, isso simplesmente não se sustenta como a pedra faz. Essas estruturas eventualmente se desfazem”.

Durante a pesquisa de campo, os sensores montados no helicóptero liberaram feixes de luz que refletiam os objetos no solo, e os programas de software interpretavam os sinais para produzir mapas tridimensionais dos assentamentos despidos da vegetação que os encobre. “LIDAR é um verdadeiro divisor de águas para a arqueologia na Mesoamérica e na Amazônia”, disse Coomes. 

Para Takeshi Inomata, antropólogo da Universidade Estadual do Arizona que não estava envolvida na nova pesquisa, o uso dessa tecnologia pode transformar a compreensão da história humana em áreas como a Amazônia e outras regiões tropicais remotas. “Tendemos a pensar que a floresta tropical era um ambiente hostil para as pessoas”, disse ele, acrescentando que a falta de evidências arqueológicas de antigos assentamentos em algumas regiões pode indicar não a ausência de tais assentamentos, mas sim a dificuldade em detectá-los.

Fonte: Mapeamento a laser descobre construções medievais na Amazônia (olhardigital.com.br)

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