quarta-feira, 5 de maio de 2010

Geoglifos da Amazônia: O povo domador das águas (Parte 2)



Franklin Levy
Instituto de Arqueologia Brasileira – IAB
Rio de Janeiro - RJ (março de 2009)

Foto: Sergio Valle.


Motivação
Uma chefia autoritária que mantivesse hierarquia de mandante a mandado, que organizasse um plano de conhecimentos e esforços que não beneficie o mandante, mas o coletivo por igual, não nos parece modelo politicamente realista na lógica de qualquer autoridade não democrática, nem obedece essa lógica ao que vemos como resultado no Acre.

No Acre, ainda não detectamos nenhum sinal, estrutura ou elemento de interpretação hierárquica ou de poder centralizado. E se encontramos variações no resultado do labor, foi o ritual que variou no tempo ou no espaço, alterando a forma do produto sem prejudicar o principio gerador. A forma geométrica desassociada da obrigação mítica, que seria tema justaposto à filosofia motivadora, criaria geoglifos de formas variáveis. Ainda pensamos que essa variação não deve ser por necessidades funcionais, e se obedecessem a chefia ou poder centralizado, haveria mais homogeneidade no aspecto da obra.

As teorias que apontam para a formação de grandes chefias que chamam de Cacicado, não se coadunam com o modelo encontrado no Acre nos construtores de Geoglifos. As argumentações relativas a este modelo, de dita complexidade cultural, com exacerbação hierárquica e autoritária, não resistiriam a analise na ótica do Perspectivismo (E. Viveiros de Castro 2002, A inconstância da alma selvagem) , ou de Carlos Fausto, 2008, (Donos demais: maestria e domínio na Amazônia) Assim entendida a gênese da autoridade e da obediência no contexto amazônico, e compreendendo as estruturas mentais que desenham esse modelo de sociedade, que ligados a uma cosmovisão peculiar, entendemos que a interpretação de dados arqueológicos não pode seguir o modelo Eurocêntrico com que imaginaram o Cacicado Amazônico. Exceção ate o presente para a ilha de Marajó, e para a região do Beni aludida, com Cacicados fracos ate hoje,Rodriguez, J. C.2005. Portanto a complexidade material adquirida, deve ser analisadas frente à dinâmica interna dos povos que a utilizaram, antes de extrapolar formas de status sem significado para seus usuários. C. Fausto,( 2008) encerra o seu artigo com C. Levi-Strauss ...podemos considerar a relação de mestria um traço característico da sociocosmologia amazônica, configurando um mundo de donos e inimigos, mas não necessariamente de dominação e domínio privado.

Dualismo e reciprocidade; a escolha do desenho.
Uma vertente para investigação, seria a de origem religiosa e mítica, funcionando no âmbito das obrigações. Cativa-nos enveredar por essa hipótese de comunhão total entre homem, mito e natureza, que desenha melhor a Amazônia do que uma verticalização autoritária de poder e organização.

Criaram o limite físico de forma inconteste, transformando-o em corpo vital. Habitar no interior dessas marcas seria vesti-las como o animal veste sua pele; como o espírito predador veste a pele da onça; como tudo que se transforma na Amazônia veste alguma identidade. Assim os homens dos drenos vestiriam seus drenos enquanto estivessem no seu interior. Já no exterior, despidos de tal identidade deveriam estar ansiosos por retornar ao seu cósmico equilíbrio. Vemos nesse raciocínio motivação suficiente para o esforço de conservação dos drenos e a tendência ao sedentarismo. A fronteira física da aldeia não se assemelha a permeabilidade da floresta ou ao vazio ilimitado dos campos. Ela é um todo, e é Uma, no físico e no imaginário. Acrescentar elementos decorativos a esse mundo unitário, é difícil de acreditar, mas pode corrigir o erro que outro cometeu transformando drenos quadrangulares em redondos, ou vice-versa. Não pensamos uma simples correção estética ou funcional, mas aquela que responde a novo modelo cosmológico e torna fator imperativo à redefinição do espaço na terra, ou a reorganização do espaço social que não reconhece mais o formato antigo como autentico. Essas são hipóteses a serem trabalhadas sob a perspectiva dualista.

Ao retorno, depois de um abandono, ou ocupando o espaço de abandono alheio, podiam encontrar que o equilíbrio do espaço vital não era mais redondo, então na correção se sobrepunha o novo desenho. Ou simplesmente, por força sincrética, se apelou para ambas as forças; do redondo e do quadrado. Não seria difícil que houvesse grupos que se denominassem redondos, e outros que se identificassem quadrados, e por fusão social se representassem os dois. O quadrado evoca à Terra, no conhecimento quase generalizado dos pontos cardeais pelos povos indígenas. Tendo o próprio corpo como referencia, à frente esta o Sol e as costas, onde ele se põe. Aos lados, cada idioma tem as suas definições para norte e sul. O redondo normalmente lembra astros, a começar pelo Sol e a Lua. Ainda é muito comum na cosmologia indígena, a idéia que “nada passa na Terra que não passe no céu” (Godinho Costa, 2003)(Germano Afonso, 2000, 2006). Assim, um é o reflexo do outro. O dualismo como estrutura de pensamento, que estrutura a organização social, assim também desenha o espaço físico.

E assim vestidos de terra ou das valas, definiriam seu nome, o de dentro e o que esta fora. Essa constante mutabilidade que faz parte da realidade, com sua identidade definida pelo lugar que ocupa no espaço da aldeia, e que é definido também por quem assim também o ocupa, o “vestir” é a metamorfose necessária a essa lógica pendular, inconstante e oportunista. Pesquisando nas línguas que julgamos seus remanescentes, talvez encontremos mediante a lingüística, pista de seus destinos, e resquícios de seus mitos, podendo assim, entender sua cosmovissão criadora (Vierteanen 2008:121). Entendemos que a motivação original, foi a função pratica dos drenos, que acabaram expropriados pelos mitos. Com a incorporação mítica, se distanciaram os elementos produtivos dos cosmológicos. E como tudo na Amazônia tem um Dono, que se traduzido em pessoa física, teria papel de relevância, dividindo o poder e a administração, comandando o esforço de cavar e manter os drenos, e as atividades comunitárias e estes associados. Nessa hipótese, vemos mais um elemento justificando o equilíbrio e longevidade para este sistema pela divisão patronal, onde o xamã e outra autoridade política dificilmente assumiriam essa função.

Diversificação
Visualizamos ate aqui de forma concentrada dentro dos limites dos drenos, a unidade que se congregava, política e solidariamente. Entendemos foi formadora de unidade agrícola de produção e de sustentação diversificada, de habitação sedentária, mas se sustentável o ano todo com fartura, deveria aplicar recursos de diversificar criativamente sua produção recorrendo a outros ecossistemas de apoio sazonal. O local dos geoglifos é tornado viável pela ação antrópica, mas a várzea tem naturalmente um período de grande produtividade, e recursos que as terras firmes carecem, e as entressafras exigem. Tanto para a complementação da dieta como para descanso da área valetada. A presença nas várzeas, longe de casa, se caracteriza num acampamento sem as estruturas da sede. Essa viagem às praias, aproveitando os rios baixos e mais piscosos e as terras aluvionais das margens que ficaram livres para cultivo, oferecia fartura. Os igapós, ou meandro desligado do rio pela baixa das águas, também ofereciam criadouro natural de peixes. Esses acampamentos caracterizavam sítios, embora altamente produtivos em recursos alimentares, muito pobres em material arqueológico, e sem estruturas de terra. Os poucos cacos de cerâmica que hoje encontramos em pequenos sítios, que associadas tipologicamente aos geoglifos, pertenceriam desta maneira aos mesmos grupos, embora separado geograficamente. A perspectiva é que no período da seca, se formassem pequenos grupos que se afastassem dos geoglifos irradiando para as terras baixas em excursões temporárias para retornar nas chuvas á rotina comunitária. Alguns teriam ficado para manter a aldeia e as plantações, fazer as queimadas, e preparado o ambiente para receber os que retornam, e preparar o trabalho de conservação dos drenos.
Teria assim dois ecossistemas à disposição, multiplicando seus recursos, plantando nas secas nos aluviões hidromorfos junto às matas ciliares, sem esquecer que é o período mais piscoso do ano.

Ainda devemos considerar as observações de Dias Junior, Carvalho e Zimmermann (2006), que em suas análises conclusivas nos informam que o modelo que parece emergir desses estudos, nos termos dos dados até agora disponíveis, sugere que os sítios com estruturas poderiam representar pontos geográficos de referencia. Seriam pontos centrais de atração que jogariam um papel importante nas relações entre privilegiados ou valorizados pelas antigas comunidades que se espalhavam por outros locais de suas vizinhanças, mas que permaneceriam compartilhando os mesmos padrões ao longo de um determinado tempo, e de certo espaço.

A este raciocínio podemos somar as nossas deduções de uso sazonal da várzea para aumentar a diversidade dos recursos econômicos, explorando o ambiente de forma total.

Muretas externas
As valetas como elemento defensivo, me permitam confirmar tal suposição, mas excluindo o elemento humano como prioridade e motivação; sem excluir que nalgum momento tenha sido também útil nesse sentido. Dias( 2006: 118) relata em Tarauacá valeta retilínea com seu topo plantado de abacaxis, fazendo verdadeira cerca viva. Os Marubo , segundo E. V. C. por informe de P. Cesarino 2005, relata que costumam plantar carreiras de abacaxis ao longo do caminho do rio para se proteger dos maus espíritos que vêem nas folhas lanças, e se assustam fugindo do local. Portanto protegidos dos espíritos que mais temem que o inimigo, podem ter atribuído as muretas essa função.

Sabendo também que eram exímios e obstinados manipuladores da paisagem, e na necessidade de manter o ambiente de savana como padrão, ao qual tiveram êxito durante dois milênios, devem ter feito uso intenso e constante da queima do capinzal, assim como também sempre se fez no Pajonal de Moxos, limpando o ambiente e preparando o solo para as culturas de inverno. O fogo os livraria das pragas peçonhentas, e os drenos ainda úmidos e suas muretas externas mais altas, protegeriam o ambiente domestico e plantações, no seu interior, do conseqüente incêndio. Desta maneira teriam controlado o avanço da floresta sobre as pradarias, mantendo o horizonte livre e a visão ao longe, caminhos limpos, controlando o hábitat e facilitando os deslocamento e os contatos intergrupais, assim reforçando a noção de espaço vital. Concluímos que a ação antrópica se sobreporia à climática ou ecológica, podendo assim explicar a falta de paisagem florestal do período estudado.

Não falamos aqui da diversidade cultural, ou das varias tradições culturais que abarcam, nem das fases, que as analises de cerâmica nos fornecem, ou da diversidade arquitetural dos drenos. Centramos atenção na funcionalidade e na gênese criativa que orientou suas formas; onde a razão cosmológica joga um papel na mesma ordem que a telúrica- ambiental. O principio holístico que desenhou o homem Amazônico, esta aqui presente num horizonte milenar de equilíbrio e integração, com sucesso mais longevo que a maior parte das culturas conhecidas.

Atribuímos seu colapso à mudança ambiental: a floresta avançou sobre a savana mais rápido que as suas queimadas pudessem controlar, porem, tão lento que nenhum homem pudesse assistir esse processo completamente: alterando seu universo físico, ecológico, paisagístico, alterou sua identidade de “povo dos drenos”, para “povo da floresta”. A mudança na terra correspondeu à mudança cosmológica, apagando da memória o povo que foram. Talvez na memória mítica restem vestígios tão interessantes quanto os que deixaram na terra. Há que pesquisar.

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