domingo, 17 de abril de 2011

Tesouro inca volta ao peru após quase um século

Repatriamento de relíquias arqueológicas de Machu Picchu levadas entre 1911 e 1915 para a Universidade Yale, nos EUA, é comemorado com exposição que comove os peruanos.

O tesouro arqueológico extraído há quase um século de Machu Picchu está de volta ao Peru. Pela primeira vez, os peruanos podem ver de perto o legado retirado pelo pesquisador americano Hiram Bingham de 1911 a 1915, período em que ele anunciou ao mundo a descoberta da cidadela de granito nos Andes e uma equipe passou a escavá-la. Sob os auspícios da Universidade Yale e da National Geographic Society, a expedição levou para os Estados Unidos algo em torno de 45 mil fragmentos, entre peças de cerâmica, metais e ossadas.

O primeiro lote das relíquias de Machu Picchu contém 363 peças e está em exposição no Palácio de Governo, na Praça de Armas, centro de Lima. Seu destino final será a Casa Concha, em Cuzco, para onde o acervo deve ser transportado nas próximas semanas. Conforme acertado com Yale, depois de anos de disputa, a antiga capital inca será o lar definitivo de um patrimônio cujo valor, tanto histórico como sentimental, não tem preço para os peruanos. "A importância das peças não é monetária, mas se trata de uma riqueza cultural inestimável. Os materiais arqueológicos nos contam o desenvolvimento de nossa civilização. É recuperação da história", diz o arqueólogo Jamer Nelson Chávez Antigona, responsável pela organização das peças.

A chegada do tesouro de Machu Picchu causou grande alvoroço no país. Muita gente ficou empolgada com a notícia, mas houve também quem não perdeu a chance de descarregar críticas. Para o diretor do Parque Arqueológico Nacional de Machu Picchu, Fernando Astete, o material não deveria ser hospedado em Cuzco, a cerca de 120 quilômetros do sítio arqueológico mais importante da América do Sul. "Sentido faria se as peças ficassem em Machu Picchu, não em qualquer outro canto." Polêmicas à parte, a exposição em Lima tem recebido cerca de 1,2 mil visitantes por dia. "Há muito interesse por parte dos peruanos. Há gente de todas as idades, é um motivo de orgulho nacional", comentou o estudante Fernando Ramírez, de 28 anos.

Datadas de 1450 a 1532, período de máxima expansão do império inca, as peças mais notáveis são vasos cerimoniais (conhecidos como quencos), recipientes usados em celebrações ritualísticas e de poder (os keros), artefatos confeccionados em cobre e prata e até um esqueleto. Há ainda cestos e vasilhas ancestrais, algumas com pedestal, outras com uma ou duas alças, muitas delas pintadas. Grande parte do material está identificado. "Estamos muito contentes por recuperar tudo isso", festejava a dona de casa Sofia Ata, de 56 anos. Natural de Cuzco, estava de visita a familiares na capital e aproveitou a ocasião para também conhecer a casa do presidente da República, que em breve terá novo inquilino. "Não podia perder a oportunidade de adentrar e admirar o palácio."

Mas, num país acostumado a controvérsias e posições antagônicas, muita gente contesta o teor do gesto de Yale. "A exposição é bonita, claro, ainda que muito pobre pela riqueza que o Peru teve. Havia muito ouro, muita prata... E só nos restam resquícios de toda a riqueza original do país", observa o advogado Orlando Leaño, de 41 anos. "Tenho a impressão de que isso que nos devolveram não representa nem 1% de tudo o que se perdeu ou nos levaram."

Com fala mansa e ponderada, mas ácida, Leaño faz pensar: "Não creio que orgulho seja a palavra correta para descrever o sentimento que deveríamos ter. Seria justo que um país que se diz irmão devolvesse ao outro tudo o que lhe tomou. Faz, aliás, muito tempo que nosso legado deveria ter sido devolvido", afirma. "De toda maneira, qualquer um pode notar que não devolveram o que havia de mais valioso. Fizeram isso apenas como quem passa a mão na cabeça de quem considera inferior."

De acordo com o arqueólogo Chávez, em dezembro deve chegar o segundo lote dos tesouros incas. Até 2012, tudo o que foi retirado estará de volta ao país sul-americano. "Juntas, todas peças configuram algo como 5 mil objetos", relata o especialista.

A devolução do que fora extraído do sítio arqueológico e de suas quase 200 tumbas incas pela equipe liderada por Bingham, no início do século passado, é o desfecho de décadas de reivindicação. Na época, a retirada e o envio da herança inca a Yale ocorreu com o consentimento do governo peruano, que alegava ter cedido o material para estudo por apenas 18 meses. Embora demorado, o acordo parece ter sido benéfico para todos.

Na condição de depositária das relíquias incas, Yale estabeleceu exigências para a devolução dessa herança, entre elas a construção de um museu e centro de pesquisa em Cuzco. O projeto foi desenvolvido em parceria com a Universidad San Antonio Abad, a principal da eterna capital inca. Estudiosos americanos e peruanos darão continuidade aos trabalhos de pesquisa em conjunto.

Fonte: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110417/not_imp707376,0.php (17/04/2011)

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