sábado, 6 de fevereiro de 2010

El Dorado - Em busca dos antigos mistérios Amazônicos (Parte 2)

Texto de Dalton Delfini Maziero

Em entrevista exclusiva, o pesquisador e artista Roland Stevenson nos revela fatos surpreendentes sobre o mito do El Dorado. A descoberta de uma estrada inca em plena floresta brasileira, o saque sistemático de estrangeiros ao nosso patrimônio cultural e a comprovação da existência do lendário lago Parime, são apenas algumas das polêmicas desta matéria. Seria o ouro inca, proveniente do Brasil? Seria o El Dorado, mais do que uma lenda?


Continuação...

7) Seria correto afirmar que o El Dorado foi um cemitério pré-colombiano, ou estaria mais para um depósito de ouro?

O El Dorado não era o cemitério, mas os arredores da ilha Maracá, que foi habitada por milhares de indígenas. A especulação de casas de ouro e muros de cristal ficou por conta dos expedicionários que precisavam de verbas para continuarem suas buscas. Contudo, os espanhóis e ingleses tinham fé, porque os indígenas da Guiana usavam adornos auríferos. A escolha da ilha como cemitério, é porque os indígenas tem a superstição de que os espíritos dos mortos não atravessavam a água, especialmente se os rios possuem cachoeiras e corredeiras que fazem barulho, sendo esse o conceito geral dos nativos da região.

8) Quais as fontes históricas que o levaram a desenvolver sua tese?

Todos os expedicionários do final do século XVI acabaram convergindo a Roraima em sua busca, na época considerada como parte da grande Guiana. As fontes históricas principais que indicam tratar-se do lendário lago Manoa ou Parime são, via Orenoco: Berrio (1584); pelo norte, rio Caroni: Berrio (1591), Maraver e Vera (1593) e Raleigh (1595); pelo leste, rio Essequibo: Keymis (1596); e finalmente pelo sul, rio Branco: Roe (1611). Fora isso, as coordenadas indicadas por Juan de Salas (1570) são perfeitas, pois no outro lado das serras que hoje chamamos de Pacaraima, onde nasce o rio Caroni, só existe o lavrado de Roraima.

9) Como tem sido a recepção da população de Manaus e dos meios de comunicação de sua cidade em relação a pesquisa do El Dorado?

Decepcionante, tomado com arraigado preconceito. Quem procura o El Dorado é louco. Não querem saber se existem ou não fundamentos históricos. E na minha profissão como artista plástico, acham tratar-se de uma tática publicitária para vender quadros. A culpa disso em parte se deve a que alguns amazonenses pagam para que se divulgue serem eles os melhores do mundo. Então, se aparece um atrevido dizendo que descobriu Manoa, já pode se imaginar o resultado. Porém, olhando o assunto com visão profunda, parece tudo formar parte de uma história romântica, pois se desde o começo todos concordassem, perderia a graça...

10) E como tem sido a recepção do meio científico e acadêmico às suas descobertas?

Quando o arqueólogo Gregory Deyermenjian fez as publicações nos EUA sobre a descoberta do lago, tivemos a tremenda surpresa de que existia uma campanha internacional contra nossas pesquisas, pois esses jornais foram ameaçados e intimados a não apoiar nosso trabalho pela Royal Geographic Society, da Inglaterra...inclusive temos o fax enviado pelo diretor Mr. John Hemming..., sob pena de não mais lhes colaborar com matérias, além de desprestigiá-los. Falava barbaridades caluniosas a meu respeito. Deste modo, compreendemos a reação contraditória dos jornais brasileiros, que negavam-se a divulgar
a descoberta. O caso remonta a 1987, quando anunciei a possível descoberta do Manoa, indicando que provavelmente o lendário El Dorado se localizaria a ocidente do lago, conforme os mapas de Hondius e Hariot, onde hoje se encontra a ilha Maracá. Um mês depois de meu anúncio, a ilha Maracá foi interditada para pesquisas do "meio ambiente" pela Royal Geographic Society, em convênio com o INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia). O curioso era que somente os ingleses podiam entrar na ilha. Aos brasileiros era permitido pesquisar somente no lavrado, a partir da ponta da ilha. Existiam sim, "fiscais" brasileiros...era ridículo o controle com tantos britânicos...mais de 200...e umas poucas canoas para todos, além de que, para chegar ao centro da ilha, precisa-se uma expedição de 5 dias com acesso somente por navegação dos dois braços do rio Uraricuera. Depois de investigar o movimento da ilha e escutar o próprio vigia que fazia o policiamento fluvial de Maracá, conhecido como "Amazônas". Seu nome é Walquimar Felix de Souza, que relatou que os ingleses tiravam toneladas e mais toneladas de material hermeticamente embalado, enviado de avião para a Guiana inglesa e daí para Inglaterra. Existem testemunhas também dos numerosos caixotes que sempre aguardavam embarque no aeroporto de Boa Vista ...inclusive quando houve intenções de inspecioná-las, até o Itamaratí se opôs ao exame. Indagando ao vigia da ilha sobre o conteúdo das caixas, ele expressou desconhecê-lo, porém calculava que seria ouro pelo excessivo peso delas, pois precisavam numerosas pessoas para carregá-las e tendo muito cuidado no transporte porque eram coisas delicadas. O INPA alegou depois que se tratava de terra para análise na Inglaterra. Mas tantas toneladas durante um ano? E ainda delicada? Aliás, o resultado dessas análises nunca retornou ao Brasil, como também nenhum estudo considerável e útil, exceto alguns folders insignificantes que justificassem os Cz$ 14 milhões (dinheiro de março de 1987) gastos no projeto só pelo Governo Federal, segundo explicava o diretor do INPA, cientista Herbert Schubartem, em 1988.
O INPA também esclareceu que as cargas seriam animais empalhados. Mas tantas toneladas assim? Então se trataria da maior matança do século, fugindo a norma da preservação. Igualmente continham herbários dissecados e insetos, mas nunca vi insetos e folhas tão pesados! Ante tanta ingenuidade, decidi denunciar os ingleses nos jornais, especialmente pelo fato de que seu diretor John Hemming não era um naturalista e sim um historiador. Ele escreveu um livro, "Em busca do El Dorado", onde na página 203 descreve nitidamente que numa ilha do lago eram enterrados os defuntos com todos seus pertences auríferos. No ato que fiz a denúncia, revelando tudo nos jornais, os 200 ingleses desapareceram do mapa, abandonando o Brasil, talvez pensando que as autoridades tomariam alguma providência, mas não aconteceu absolutamente nada. E nem eu fui processado por calúnia, conforme se chegou a divulgar. Foi fácil livrar-se de um louco visionário... Futuramente, daqui a algumas gerações, quando os museus da Inglaterra mostrarem o que foi levado da ilha, constará que John Hemming foi o descobridor material dos objetos, mas não o espiritual, porque cientificamente eu fui o primeiro a anunciar a descoberta, e se alguém registrar estes acontecimentos, os ingleses ficarão como estratégicos huaqueros (ladrões de túmulos), o que aliás, já eram antes disso, como aconteceu no Egito, Gibraltar, Canadá, Peru...


11) Então, toda a imprensa estrangeira foi contra suas descobertas? Não houve reação favorável?

Houve reações muito boas, sim, especialmente se não existe o preconceito. Qualquer protesto ou contestação surge somente pela falta de conhecimento. Desde modo, quando o jornal The Herald (Flórida, EUA) dedicou seu suplemento dominical às pesquisas, o arqueólogo consultado expressou que as lhamas não poderiam sobreviver na Amazônia para vir buscar os minérios pelo caminho pré-colombiano. Contrariando sua contestação, existe em Manaus um criador de lhamas na fazenda São Salvador, km 16 da BR 010. Elas estão perfeitamente aclimatadas, e todos os anos são expostas nas exposições agropecuárias. Em 1988 fiz uma exposição de arte e pesquisas em Viña del Mar, no Chile, tendo uma excelente acolhida pelos jovens, que achei muito abertos às novas propostas, tanto que o principal jornal do Chile, El Mercurio, dedicou sua revista de Domingo às descobertas. O Brasil não fica por menos na classe jovem, pois recentemente a Universidade do Amazônas fez uma exposição sobre meu trabalho, tendo uma excelente receptividade, embora não faltou algum protesto pelo fato de eu não possuir um diploma acadêmico. Para equilibrar essa falha, apresentei um painel com minhas distinções em que constam três prêmios em concursos mundiais e dois nacionais, além dos regionais. Aliás, sou o único artista de Manaus que possui essa qualificação.

12) Você poderia citar alguns dos profissionais, nacionais e estrangeiros, que já trabalharam na sua equipe?

Os profissionais que posso citar foram, desde o começo, o missionário Casimiro Beksta, professor de antropologia aplicada do CENESC (Centro de Estudos do Comportamento Humano) de Manaus, a quem cito com muito carinho porque teve a paciência de me orientar todos esses anos dos problemas antropológicos da Amazônia.
Depois a arqueóloga carioca Arminda Souza, na época funcionária do SPHAN (Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Porém, influenciada pelo preconceito dos "especialistas" de Manaus, sobre minhas pesquisas não convencionais, especialmente na busca do "ilusório" lago do El Dorado, preferiu ficar de fora, perdendo a chance de figurar para a posteridade histórica do Brasil, como participante da grande descoberta de Manoa. Também desde o começo, vinha me orientando o geólogo Frederico Guimarães Cruz, na época funcionário do DNPM de Manaus. Já em 1986 trocávamos opiniões sobre uma grande mancha escura existente em Roraima, detectada pelos mosaicos aéreos do RADAMBRASIL. Pelo que indagamos se trataria dos vestígios de um lago. Frederico frisou que para isso deveria haver marcas d'água nas rochas. Assim, nos primeiros dias de janeiro de 87, lancei-me a investigar. Tendo como resultado o já citado encontro com os sinais do nível d'água do grande lago, embora isto achava-se na terra mesmo e não nas rochas. O Dr. Fredi é um homem de caráter e personalidade, jamais se importou com o preconceito do povo, tanto que me honrou fazendo o prefácio de meu livro. Em função disso, quando o Brasil conseguir romper a barreira do desconhecimento, ele será lembrado como participante da descoberta desse lago extinto, o lendário Manoa. Em 1987, entrou o geólogo roraimense Salomão Cruz, irmão do governador Getúlio Cruz, na época. O Dr. Salomão era diretor da CODESAIMA, tornando-se um ativo colaborador, fornecendo-nos uma toyota da empresa para pesquisas. Seus conhecimentos da região ajudou-nos significativamente ao afirmar de forma categórica a constituição lacustre do lavrado, não tendo dúvidas de que a área esteve submersa. Embora não havia conhecimento de quantos lagos se trataria. Coube a nós, com altímetro na mão, percorrer centenas de km, seguindo as marcas do nível da água até a Guiana, constatando que pertencia somente a um lago, independente das diferenças estruturais do solo. A seguir foi a vez do geólogo Gert Woeltye, na época professor da FUA (Fundação Universidade do Amazônas), assim como funcionário do DNPM de Manaus. Quem percorreu o lavrado de Roraima junto com numerosos alunos, fazendo aula in-loco sobre a extinção do lago. Tivemos a honra de que todos seus dados técnicos sobre o lago, foram inseridos em nosso livro. O último profissional participante foi o arqueólogo norte-americano Gregory Deyermenjian, que nos acompanhou numa expedição a Roraima em 1997, constatando os problemas geológicos e históricos de Roraima. No retorno aos EUA, fez uma palestra no centro principal do Explorer Club em Nova York, e Expedition News de Connecticut.


Continua...

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