terça-feira, 3 de agosto de 2010

Sillustani- Antigo cemitério pré-inca

Texto de Dalton Delfini Maziero
(extraído de seu diário de expedição, 1997)

Sillustani é um dos maiores e mais conservados complexos de sepulturas pré-colombianas da América do Sul. Situado numa pequena península da lagoa Umayo, revela como os antigos povos indígenas tinham um cuidado todo especial quando o assunto era a vida pós-morte.

Na noite em que cheguei a Atuncolla, fui obrigado a suportar uma imprevisível serenata. Rolava dentro do saco de dormir, embalado pela cantoria de dois bêbados, que resolveram tocar trompete e bater bumbo, em frente, à igreja até às 3 horas da madrugada! A gritaria era acompanhada por um cachorro que não parava de latir. No fim, acho que consegui “apagar” por um par de horas. Durante a noite, fez muito frio. De certa forma, fiquei feliz por ter arrumado aquele chiqueirinho em que estava. Deitado sobre meu isolante térmico, para não entrar em contato com a poeira do chão, fiquei observando um verdadeiro mar de estrelas pela janela! Nunca havia visto um céu tão espetacular quanto aquele. Eram tantos pontos de luz, que eles quase se uniam numa única e enorme massa branca. Logo me levantei, preparei um chá com pão e tratei de “pular fora” daquele quarto deprimente.

Sai para ruas desertas, debaixo de um maravilhoso sol. Nesta manhã, definitivamente, entrei no clima da viagem. Quando estiver nesta cidade, caminhe em direção a Sillustani e dê uma boa olhada do alto de uma pequena elevação atrás de Atuncolla. O espetáculo é belíssimo! O pampa de Joyelaque, como pano de fundo, tendo em primeiro plano, o povoado, com suas casas típicas e aparência de abandono. Mas a beleza da paisagem estava, principalmente, na luminosidade, como viria a confirmar mais tarde, ao longo do trajeto.

Não dá para descrever o colorido translúcido, amarelado, que se espalha pelas montanhas, pampas e pela vegetação. Uma visão paradisíaca e de tanta paz que não consegui resistir a tentação de ficar ali por alguns minutos, simplesmente saboreando aquele momento. O ar ainda gelado, a condensação que sai com a respiração e o silêncio, quase que absoluto, completavam a cena. “Lavei a alma” naquela manhã e, pela primeira vez, desde que havia chegado ao Altiplano, consegui relaxar de verdade.

Caminhei “feliz da vida” em direção a Sillustani, enquanto observava tudo, atentamente, em minha volta. O terreno, na saída de Atuncolla, possuía indícios de antigas construções que agora se misturavam com muros e cercados contemporâneos. Era difícil diferenciar um muro antigo de um moderno. Ambos foram feitos com o mesmo material e técnica. Conforme me aproximava de Sillustani, notei que os morros pelo caminho possuíam pequenas edificações de pedra. Eram tumbas antigas, com toda certeza. Estava entrando em terreno sagrado que, por muitas gerações e culturas, fora utilizado como centro cerimonial e religioso. Respeito, é o mínimo que se pode ter num local como aquele...

Numa manhã fria e nebulosa de 1242, tudo é dor e sofrimento na capital do orgulhoso povo colla. Em Atuncolla, o sacerdote inicia os preparativos para o enterro. Ele já havia previsto, ao consultar as folhas de coca, que o momento da morte aproximava-se para o seu senhor. As folhas são poderosas, elas não mentem! Não tinha como evitar a morte... Sabia disso, mas estava ciente de que, a partir daquele instante, seu papel era fundamental para que o morto seguisse o caminho do além. Conhecia muito bem as obrigações e procedimentos a serem tomados nos próximos oito dias. Era a tradição e todos deveriam segui-la, sem restrições. O ritual tinha que ser levado adiante. Esta era sua função.

Após levar o corpo e deitá-lo em local sagrado, seguem-se cânticos religiosos e evocações aos deuses. Ervas aromáticas são preparadas e queimadas por conhecedores de uma medicina milenar. Todos os ingredientes são conferidos, minuciosamente, por homens que vivem para esse único e especial momento: o da morte.

Brandindo a lâmina de obsidiana (espécie de rocha vulcânica) com a autoridade que lhe é conferida, o sacerdote abre o corpo de seu senhor, extraindo as vísceras e intestino do cadáver. Recolhe o sangue e rompe sua caixa craniana em busca do cérebro, que também será retirado e tratado com ervas especiais. Um trabalho meticuloso e paciente. O interior do corpo, já vazio, é então tratado com bálsamos, ervas aromáticas, cal e substâncias que guardarão, ao longo do tempo, seus segredos. Ele é posto em posição fetal, abraçando os próprios joelhos, para lembrá-lo do início da vida, antes do seu nascimento. Representando que aquilo não era o fim, mas apenas, um novo começo.



Necessitava estar preparado para aquela ocasião, com todos seus bens e pertences. Levar as melhores roupas e ornamentos consigo. Em seu rosto, pousaram uma máscara de ouro. Seus braços recebiam braceletes e, para seu corpo, eram-lhe conferidos ornamentos dignos de um chefe. Noites e dias se passavam durante esse processo. Enquanto o sacerdote cuidava do morto, os familiares realizavam seus preparativos. Imediatamente, todos se mobilizavam. Iniciavam cânticos que iriam durar até o momento do enterro. Era uma música fúnebre e triste, marcada pela batida compassada de bumbos. Os súditos de Atuncolla também ajudavam, cantando, chorando dias e noites e dançando compulsivamente. Sabiam das tradições e da importância de cada atividade. Tudo deveria ser realizado conforme os mandamentos sacerdotais.

Na casa dos parentes próximos, existia algo mais do que tristeza no ar. Apreensão, ansiedade... Como se algo estivesse prestes a acontecer. As crianças observavam, em silêncio solene, pressentindo sem perceber, os reais motivos daqueles preparativos. Algumas eram tratadas com atenção fora do comum, vestidas e levadas a participarem dos rituais que se seguiam na cidade. Dançavam, virando objetos de culto e reverência. O mesmo se passava com a esposa do falecido, irmãos e outros parentes. Durante oito dias, a viúva quase não falava, apenas cantava lamentosamente em movimentos ritmados, enquanto ajeitava suas roupas pretas. Todos preparavam uma grande quantidade de comida e chicha para beber na cerimônia. Além dos parentes, os servos do senhor também se preparavam para o grande momento. Raspavam suas cabeças e cobriam seus corpos com cinzas. Ao final do sétimo dia, após danças e cânticos intermináveis, todos se encontravam em completo estado de êxtase. Finalmente, havia chegado o tão esperado momento.

Era noite em Atuncolla. Gelada e estrelada, como sempre foi nessa região. A lua, enorme e prateada, havia comparecido como se já soubesse o que se seguiria.
Tochas iluminavam o caminho, carregadas por homens que entoavam um lamento fúnebre.
Na praça central, todos se reuniam ao comando do sumo-sacerdote, na noite do último dia de cerimônias. Após umas poucas palavras, em memória do morto e lembrando as obrigações da comunidade, voltavam-se ordenadamente em direção a Sillustani. A caminhada era seguida ao compasso dos tambores. O cadáver, agora mumificado e envolto em mantos coloridos de rara beleza, seguia na frente, sendo carregado em sua liteira até o templo sagrado, localizado na praça em Sillustani. Sua tumba, já terminada há anos, apenas aguardava o momento, pacientemente. Era magnífica! Entalhada em pedras e polida cuidadosamente, subia em direção ao céu com sua forma cônica. Em seu anel superior, um lagarto esculpido simbolizava o silêncio e a paz do local. Seria o guardião da tumba para toda a eternidade. Estava associado ao culto que se seguiria, ao espírito dos mortos.


O luar fazia de Sillustani um espetáculo sinistro e belo. Suas dezenas de torres fúnebres pareciam observar o cortejo que se aproximava lentamente, expondo seus perfis, em contraste com a luminosidade da lua. A laguna Umayo, ao lado, com suas águas tranqüilas e prateadas, lembrava a todos que aquele era um terreno sagrado, de meditação.

Por alguns instantes, o cortejo parou nas proximidades do templo central e, num silêncio absoluto, ficaram a pensar no significado de tudo aquilo. Num único gesto, o sacerdote dá o sinal para a liteira entrar no templo, enquanto o cortejo aguarda do lado de fora. A cerimônia, então tem início, com rezas e cânticos comandados pelos religiosos. A múmia recebe seus últimos preparativos, sendo-lhe dirigida à palavra. Explicam o caminho que ela deverá seguir. Logo, todos se dirigem às proximidades da tumba, onde segue-se o sacrifício de lhamas e ovelhas. Elas deverão acompanhar o senhor em sua longa jornada, por isso devem ser mortas. Seu sangue é escorrido, ainda quente, em um recipiente talhado em rocha porosa.

O Pajcha cerimonial é posto de lado para uma cerimônia posterior. Os servos e alguns parentes que haviam se preparado durante longo tempo, aproximam-se da pequena entrada da tumba para o grande momento. O morto não necessitará somente de animais e objetos para o seu caminho... Algumas crianças, que haviam participado de forma tão especial de todas as cerimônias, percebem o real motivo de suas presenças ali. Como conter o medo do desconhecido? Como controlar o horror que seus olhos presenciavam? Agarradas em suas mães, observam, desnorteadas, esperando algum tipo de intervenção. Recebem, como resposta, apenas um olhar carinhoso e resignado, selando, definitivamente, seus destinos. Assim falam as tradições, e elas não podem ser julgadas.

Um a um, os servos são imolados. Familiares e algumas pessoas se oferecem, espontaneamente, para acompanhar seu senhor. O sacerdote, com uma firmeza que só profissionais experientes são capazes de demonstrar, fazia a lâmina de sua faca perfurar corpos em busca do coração ainda pulsante, na certeza de estar prestando o derradeiro benefício ao seu senhor. Outros são inseridos vivos na tumba e lá passam seus últimos momentos em meditação, controlando seu horror, até o momento em que também estariam ao lado de seu líder. Após os sacrifícios, o sacerdote entoando rezas, toma em suas mãos o sangue reservado e, com ele, banha as paredes do túmulo.
Finalizado o ritual, voltam para Atuncolla, deixando a necrópole de Sillustani em seu silêncio eterno. As homenagens, no entanto, não param por aí. Muitos continuam em suas casas, bebendo e comendo em lembrança do morto por vários dias. Os terrenos de outros chefes viram campos de dança e lamento. Durante a noite, saem a caminhar, contando em voz alta os seus momentos com o falecido. São acompanhados por tambores que batem ao ritmo de suas pronúncias. Ao final, embriagados e amargurados, ainda tentam acompanhar seu senhor, suicidando-se. Era prova final de sua adoração.




Segundo informações de vários cronistas, o sepultamento de um morto deveria estar bem próximo do descrito. Quando você estiver olhando para aquele conjunto de tumbas, tente imaginar os detalhes dos rituais e procedimentos usados pelos antigos collas. Apesar de tudo, a sensação que tive em Sillustani foi de uma paz sem igual! Talvez tenha sido este o verdadeiro motivo da escolha daquela península. Localizada a cerca de 33 km de Puno, encontra-se "abraçada" pela laguna Umayo, a uma altitude de 3910 metros sobre o nível do mar, ou seja, está mais alta que o próprio lago Titicaca.

A laguna Umayo faz parte inseparável de Sillustani. Sua importância é também fundamental do ponto de vista religioso, pois ali, eram feitas oferendas de chicha e sangue. Alguns antigos acreditavam que, em suas águas, viviam os espíritos que saíam das sepulturas. Possui cerca de 7 km de comprimento, e é formada por água salobra. Recentemente, encontraram vestígios de tumbas, plataformas e templos soterrados em uma pequena ilha com topo plano. Além de ter sido um centro de peregrinação e sepultamento, tornou-se hoje, um santuário ecológico. Peixes e aves selvagens fazem do local, algo especial. Trutas, suches (espécie de peixe), sapos, cobaias, chocas e patos, convivem harmoniosamente na região, atraídos pelas suas águas.

Uma boa dica para quem quer conhecer mesmo Sillustani, é sair caminhando de Atuncolla bem cedo para atingir a necrópole antes dos turistas, quando a paz é rompida pelo falatório. Circular entre monumentais tumbas é uma experiência única, observando detalhes por vezes desapercebidos, como figuras esculpidas e encaixes de rocha que mexem com a imaginação.

Mas o local não foi sempre assim. Ele passou por várias etapas antes de ser utilizado como solo sagrado. Inicialmente, foi visitado por povos nômades que vagavam na região em busca de cavernas, alimentos e água. Deixaram as marcas de sua presença espalhadas pelo Altiplano, na forma de artefatos e pedras esculpidas. Este período é conhecido como “Pré-cerâmico”, e estendeu-se aproximadamente de 10.000 a 3.000 a.C.

No período seguinte, o “Formativo”, surgem diminutas aldeias. Algumas atingem o estágio de urbanização. Isso ocorreu por volta de 1.000 a.C. até 1.100 d.C., sofrendo influência direta de grandes culturas regionais como a pucara e a tiwanaku, que inovaram as técnicas agrícolas e arquitetônicas de forma definitiva, além de introduzirem um novo estilo de arte e de práticas cerimoniais. De 1200 a 1450 de nossa era, segue-se um dos períodos mais importante, conhecido como “Período de Desenvolvimento Regional”. Com a queda e fragmentação do império tiwanaku, surgem uma série de pequenas culturas regionais concentradas ao redor do Titicaca. Entre elas, estão os collas que impulsionam o trabalho organizado, criando profissões bem definidas como as de sacerdotes, comerciantes, escultores e arquitetos.

Nesta época, Sillustani já era uma área sagrada, contendo tumbas de origem pucara e tiwanaku, cada qual construída conforme suas técnicas e influências. Com os collas não foi diferente. É por este motivo que encontramos, em Sillustani, sepulturas de vários tamanhos e formatos, de acordo com o povo que as construiu e o status de cada morto, pois, ao contrário do que muitos pensam, não foram enterrados somente grandes senhores, mas também pessoas de menor prestígio. Isso reflete uma sociedade dividida em classes.

O “Período dos Incas” foi curto (1450 a 1532) e marcado por vários anos de lutas. Tentaram, de todas as formas, conquistar a região. O domínio só veio, em definitivo, com sucessivas invasões de Pachacutec, Yupanqui, entre outros imperadores, que souberam, através de alianças políticas, impor suas regras. As sepulturas, finamente polidas, provêm deste período.

Todo este processo foi interrompido com a invasão espanhola. No Período Colonial, de 1533 a 1824, tanto Sillustani quanto a capital, Atuncolla, passam a
pertencer ao governo espanhol. Sua chegada causa uma revolução regional. Povos são deslocados para trabalharem nas minas e uma verdadeira “caça ao tesouro” tem início, resultando no saque de tumbas, templos e pirâmides. Nesta fase, vários sítios arqueológicos foram devastados e cidades, abandonadas. Foi o destino de Atuncolla, que junto a Sillustani, entrou em franco declínio.

Em 1824, no “Período Republicano”, o local foi palco de diversas revoluções. Com a independência do Peru, Sillustani pertenceu a muitos proprietários particulares. Entre eles, estavam a fazenda Umayo, uma cooperativa agrária chamada “Sais Umayo” e um senhor sem maiores referências, de nome Braulio Avila. Este parece ter sido o último proprietário da necrópole. O local foi ainda de posse da Comunidade de San Antonio de Umayo antes de ser tombado como patrimônio arqueológico peruano.

No início do século XX, as tumbas foram alvo do interesse de estudiosos que arriscaram todo tipo de teoria para explicar as gigantescas e enigmáticas construções. Algumas absurdas, como a publicada na revista “American Anthropologist” (1905) por Adolph F. Sandelier. O autor afirma que suas torres eram, na verdade, enormes silos para armazenamento de cereais, sendo as minúsculas portas utilizadas para a retirada dos grãos!

Em “Cidades Perdidas e Antigos Mistérios da América do Sul”, o viajante e pesquisador, David H. Childress, menciona o fato de ainda não terem sido encontradas ossadas dentro das chullpas, colocando em dúvida, a própria utilização destas como sepulturas. No entanto, o arqueólogo Arturo Ruiz Estrada, em 1971, exumando as tumbas de Yurac Ayawasi – conhecidas também como “Torres Funerárias Brancas” – descobriu várias oferendas constituídas por colares de turquesa, depiladores de cobre e furadores de ossos. Por entre as peças, encontrou 15 esqueletos pertencentes a pessoas de idade e sexo diferentes. Cinco anos mais tarde, o mesmo arqueólogo realizou uma importante escavação em um pequeno pedaço de terreno, ao lado de uma das chullpas. Conseguiu desenterrar 1280 peças, sendo 501 de ouro!



Andando solitariamente em meio às tumbas, resolvi observá-las do ponto de vista das "múmias". Adoro mudar de perspectiva, de vez em quando. Escolhi a famosa chullpa do Lagarto (com 12 metros de altura) e rastejei de barriga pela minúscula porta. Emparedado vivo, fiquei sentado em posição fetal até que minha vista se acostumasse à escuridão. Não demorou muito para distinguir o formato circular à minha volta, o chão de terra e o teto cônico, montado com pedras sobrepostas num belo trabalho realizado, certamente, por especialistas. O ar não chega a ser gelado, podendo ser respirado sem problemas. O difícil, neste momento, é não imaginar o desespero de ser emparedado vivo!

O que passaria na cabeça daqueles que estavam prestes a morrerem em sacrifício, ou trancados nos sepulcros? Seriam suas convicções tão fortes assim? São tantos os "será que "... No fim, permanecemos sempre com mais dúvidas do que respostas. Acho que, no fundo, jamais saberemos, em detalhes, o que se passava neste local. Quando resolvi sair da “minha tumba”, fui ofuscado pelo sol forte. Do lado de fora, alguém me aguardava.

— Senhor, vou lhe contar a história de Sillustani, falou um garotinho tentando seu ganho do dia. Não tinha mais do que uns sete anos de idade e, antes que pudesse recusar, ele começou.

— Estas chullpas se chamam Sillustani, e foram feitas pelos incas para enterrarem seus mortos.

— Espere! Espere! – falei ainda ofuscado pela luminosidade, interrompendo-o – Obrigado, mas eu já conheço a história... e, além do mais, estou com pouco dinheiro. Não tenho como pagar. É claro que ele não acreditou e continuou falando todo tipo de absurdo em relação à história local.

— Olha! – tentei uma segunda vez, mudando de tática – Se você quiser contar, tudo bem, mas eu não tenho dinheiro para te dar. Ele parou, pensou um pouco e concluiu:
— Tudo bem, eu conto e você me dá uma moeda.

E, logo em seguida, continuou sua descrição fantasiosa. Dois minutos depois, ele havia me dobrado. Paguei-lhe uma moeda para que calasse a boca e mais uma para me deixar fotografar suas lhamas. Saiu feliz, e eu continuei aproveitando o silêncio das ruínas.

De frente ao enorme túmulo do Lagarto, comecei a relembrar algumas coisas que havia lido sobre o local.

O verdadeiro nome de Sillustani se perdeu no tempo. Os antigos cronistas que visitaram a região citam os monumentos apenas como sepulturas ou torres. Não sabemos quem começou a usar esse termo mas, segundo a terminologia aymara, Sillustani vem de Sillustahara, que significa "lugar em forma de unha". É óbvio que se refere ao formato da península onde está localizada. Como uma "unha", avança em direção a laguna de Umayo.

Já as sepulturas são conhecidas como chullpas, nome popular e vulgar para referir-se a elas. O correto seria chamá-las de Amaya Huta, ou "Casa dos Mortos". Além do mais, chullpa não significa somente o sepulcro em si, mas também (e principalmente) o fardo funerário em que o morto será envolto, constituído de um manto feito de palha trançada, em forma de cesto, ou de tecido.



Muitos ainda se surpreendem com as técnicas de construção desses enormes monumentos, que chegam a atingir 12 metros. Mesmo com a resposta frente ao olhos, os visitantes especulam a possibilidade de levitação das pedras ou outras explicações místicas que só servem para irritar ou fazer rir os guias locais. Não se deixe levar por conclusões precipitadas e teorias fantasiosas! A obra é digna de admiração sim, mas definitivamente não possui grandes segredos quanto à sua realização.

Indo a Sillustani, visite a chullpa conhecida por “Torre Funerária com Rampa”, interrompida, provavelmente, pela chegada dos espanhóis. Como seu nome já diz, ela apresenta uma rampa que servia para arrastar as pedras até a altura desejada, sendo retirada, uma vez terminado o trabalho.

Na “História del Nuevo Mundo”, o padre Bernabé Cobo faz uma menção específica à técnica de construção das chullpas. Diz textualmente: "Como careciam de gruas, rodas e engenhos para subi-las (as rochas) faziam um terraplano escarpado à obra, e por ele as subiam rodando; e quando ia crescendo o edifício, tanto assim iam levantando o terraplano."

Três eram os materiais básicos para a construção das chullpas: pedra, terra e barro. Para levantar as sepulturas, eram convocados arquitetos, pedreiros, lapidadores, capatazes, transportadores, etc... Tudo com antecedência necessária, já se antecipando o grande momento da morte. A argila de cor branca, conhecida como caolinita, era utilizada, muitas vezes, para unir as pedras e dar maior consistência à junção. Misturavam até gramíneas secas, como o ichu e chilliwa. Sillustani não foi formada somente por sepulturas em forma de "cones invertidos". Existem tumbas subterrâneas, semi-subterrâneas e monticulares. Em todas elas, usavam-se pedras de variados tipos, inclusive rocha vulcânica.

Bernabé nos conta que viu martelos fabricados de seixos negros e duros, retirados de leitos de rios, com os quais lapidavam as rochas de consistência mais mole, com leves pancadas. Depois, para o polimento, utilizavam areia ferruginosa, esfregada a exaustão, com o auxílio de uma pedra mais dura do que a esculpida. O mesmo autor desmistifica o modo como carregavam as enormes rochas. Nada de telepatia, levitação ou forças vindas do além. Existia sim, uma força no local para movê-las, mas era unicamente humana. Dezenas, às vezes centenas de braços!: "Traziam-las (as rochas) até onde era necessário arrastando-las". Polo de Ondergado colabora com a idéia: "O faziam tão devagar, porque o faziam a força de braços". E Gutiérrez de Santa Clara explica que os indígenas moviam essas pedras... "tirando-as com muitas cordas... e que eram tão grandes que quinze juntas de bois não as trariam".

O conhecimento dos povos antigos costuma ser subestimado. Decididamente, eram profundos conhecedores da arte de trabalhar as rochas. Sabiam distinguir as fraturas naturais das mesmas, definindo assim, os pontos exatos onde introduziam suas cunhas para arrancá-las das montanhas.

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