sábado, 10 de julho de 2010

Acllas do Sol - As sacerdotizas do império incaico

As Acllas do Sol seriam, como querem alguns, devotas pessoais do inca? Formavam um harém como no Oriente Médio? Qual era sua verdadeira função dentro da sociedade incaica? Muito mais do que meras assistentes, as acllas eram peças fundamentais no desenvolvimento das arte, política e religião do império, responsáveis pela propagação e aperfeiçoamento do saber.

Texto de Dalton Delfini Maziero

As Escolhidas do Sol
Quando Francisco Pizarro e seus homens invadiram o Peru em 1532, encontraram um mundo estranho aos costumes europeus. Infelizmente, poucos foram aqueles que tiveram o cuidado de descrever o que presenciaram. As poucas crônicas que chegaram até nós, estão cheias de equívocos e opiniões tendenciosas, que pretendiam claramente desmoralizar o mundo indígena. Este foi um dos caminhos encontrados pelos europeus para justificar a barbárie da conquista americana, e o conseqüente massacre dos povos nativos.

Entre os relatos, encontramos varias citações sobre a divisão social dos incas. Em especial, a das “Acllas do Sol”, chama a atenção: um grupo de mulheres reclusas, responsáveis por determinadas manifestações artísticas e religiosas. A idéia não é totalmente original, pois no mundo romano, existiam instituições semelhantes, chamadas Vestais. Na América, entretanto, elas pareciam ser mais complexas.

A palavra Aclla, na língua quêchua, significa “Escolhida”. O edifício onde viviam – algumas por toda sua vida – chamava-se Acllawasi. Na definição do padre Bernabé Cobo (1582-1657), autor de História Geral das Indias... “o acllawasi ou casa das mulheres escolhidas era uma instituição que reunia as Mamaconas ou Senhoras Mães que atuavam como dirigentes e a um número crescente de garotas que ingressavam em um regime de clausura entre os 10 e 12 anos. Eram recolhidas como tributo entre as mais nobres e belas...”

Uma educação rígida
Ao que tudo indica, a origem das acllas solares não ocorreu com a formação do império incaico. Muito antes, povos pré-incaicos já se utilizavam de instituições semelhantes, como os Tiwanakus, na região do lago Titicaca. Contudo, foi na civilização inca que elas adquiriram importância e certo poder político-religioso. Elas espalharam-se por todas as cidades, subdivididas de acordo com sua importância social e atividade. Na capital Cusco, um enorme edifício abrigava cerca de 1500 mulheres escolhidas. Umas serviam diretamente o inca, enquanto outras se ocupavam com o preparo do alimento, confecção de roupas, cultos específicos, desenvolvimento das artes, etc. O interior de um Acllawasi era quase como um monastério auto-suficiente. Limpo, organizado, paredes chapeadas de ouro, pátios grandes e recintos sagrados. Existiam também dormitórios e armazéns para mantimentos.

Todas recebiam uma educação primorosa assim que ingressavam. De acordo com a função – designadas pelas Mamaconas – aprendiam a tecer, fiar, dançar, cantar, preparar alimentos sagrados (como o zanqhu, um pão de milho utilizado pelo inca em cerimônias religiosas), bebidas especiais (como o akja, bebida cerimonial fermentada de milho, oferecida aos deuses) e fabricação de peças artesanais. Mais do que isso, eram portadoras de um conhecimento muito específico, sagrado e secreto, que passavam somente para membros de seu próprio grupo.

Para manter a ordem e segurança de toda esta estrutura, o inca enviava homens, encarregados de montarem guarda nos portões e também, de certas atividades físicas como construção de depósitos e transporte de mantimentos. Para evitar qualquer tipo de problema afetivo entre as acllas e os guardas, o inca transformava-os em eunucos, além de deformar sua face, cortando-lhes o nariz e lábios. Assim, dificilmente as escolhidas cairiam de amores por alguns deles. Mas nem sempre ocorreu desta forma, como nos mostra as duras punições para aquelas que engravidavam. Para elas e seus amantes, a pena era capital. O homem era pendurado pelos pés, sofrendo todo tipo de tortura até a morte. A aclla, expulsa da instituição, era enterrada viva logo após dar a luz; e seu filho, sacrificado ao Sol. Suas famílias eram desgraçadas perante a sociedade e suas plantações arruinadas. Muitas vezes, eram obrigadas a mudarem de localidade, evitando assim maiores discriminações.

As acllas não eram escravas do Inca
No auge do império, as acllas alcançaram importância política. Passaram a ser vistas com tamanha admiração pelas demais nações limítrofes, que muitas famílias esforçavam-se em ceder suas filhas ao Acllawasi incaico. Antes de mais nada, elas representavam o ingresso de sua comunidade num mundo sagrado, pois eram a partir deste momento, consideradas filhas do Sol. Além disso, tinham acesso ao que de mais moderno existia na época: técnicas agrícolas, artesanais, religiosas, etc. Essa verdadeira veneração pela acllas solares garantiu ao inca, a amplidão territorial – em alguns casos – sem necessidade de guerras. Serviam também como elemento de troca política, pois não era raro o inca oferecer uma aclla solar como esposa, ao chefe de uma nação que aceitasse se submeter ao seu império.

Durante o período colonial americano, muitos autores deturparam o significado dessas sacerdotisas. Elas não eram, ao contrário do que muitos ainda pensam, as “concubinas” pessoais do inca. Nem lhe deviam favores sexuais ou muito menos, formavam um harém particular como querem alguns. Muitas inclusive, dispunham de certa mobilidade dentro desta estrutura, podendo sair da instituição ao atingir determinada idade. Outras acabavam casando-se com nobres ou senhores estrangeiros, conforme sua própria natureza social. Eram respeitadas e portadoras de uma sabedoria somente partilhada pelos sacerdotes masculinos. Mais que isso, eram responsáveis pela difusão desse conhecimento, garantindo assim, a continuidade do império.

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