sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

O Soroche e a Coca


Texto Dalton Delfini Maziero
(Diário da Expedição Titicaca, 1997)

Para enfrentar as altitudes montanhosas, os aymaras tomam certas precauções. Quando saem para longas caminhadas, costumam carregar uma pequena dose de álcool e um pedaço de chancala. Além de alimentar, esses produtos servem para estimular o corpo contra o frio e o cansaço. Mas, em se tratando de altitude, nada substitui a folha de coca. A coca é tão importante para o aymara como o dinheiro para nós. Só que eles têm um motivo a mais para empregá-la. Seu uso é cultural, um gesto quase sagrado.
Quando caminham nas altitudes, tentam combater a todo custo o soroche, também conhecido como "Mal dos Andes". Dizem que a coca ajuda a evitá-lo.

O soroche é um efeito causado pela falta de oxigênio. Apresenta sintomas claros e perigosos: indisposição geral, seguida de forte dor de cabeça e uma ânsia de vômito incontrolável. Uma vez que a pessoa apresentar tais sintomas, o melhor é baixar seja lá de onde estiver, o mais rápido possível, por algumas centenas de metros ou o quanto for necessário. Ele ataca principalmente quem não faz uma aclimatação adequada. Controle mental, respiração calma e profunda, ajudam a eliminar os primeiros sinais de indisposição. Os aymaras sentem menos seus efeitos por terem nascido no Altiplano, a quase 4000 metros. São naturalmente adaptados. Possuem um pulmão mais fundo e um coração ligeiramente maior que o nosso. Além disso, seu corpo fabrica uma maior quantidade de glóbulos vermelhos, conseguindo com isso, carregar oxigênio acima do normal.

Em minhas viagens, presenciei pessoas fortes como um touro caírem de quatro, vítimas do soroche. Outras, aparentemente fracas e magras, caminhavam e até corriam acima de 5000 metros sem o menor problema! A força física parece não ser determinante sobre seus efeitos. A melhor garantia para não ser pego de surpresa, é subir gradativamente as montanhas, evitando movimentos bruscos. Atenção especial para quando estiver agachado! Levante-se com calma. Nunca de uma só vez. Desta forma estará se precavendo contra tonturas e desmaios.

Vários cronistas falam dos efeitos do soroche e da utilização da coca. O padre José de Acosta (História Natural e Moral das Indias), nas décadas posteriores à conquista, deixou-nos um interessante relato sobre os efeitos do Mal dos Andes. Ele escreveu, baseado em experiência própria, o seguinte texto: "Ora, muita gente sustenta que o soroche não passa de fábula, há quem afirme tratar-se de simples exagero, mas eu lhes direi o que foi que me aconteceu. Há no Peru, uma cadeia muito alta de montanhas, que os peruanos denominam Pariacaca. Eu fui lá para cima, como eles dizem, quando se vai para a região mais elevada da serrania. Ali, fui subtamente acometido de uma tão mortal angústia, que tive anseios de me lançar do cavalo ao chão, vime tomado de tamanha ânsia de vômito, e de tanto vômito, que pensei que acabaria pondo para fora a minha alma, porque, depois que o alimento subiu, juntamente com a fleuma, apareceu a bile, e mais bile, esta amarela e a outra vermelha, até que, logo a seguir cuspi sangue... finalmente, declaro que, se eu tivesse prosseguido, indo mais para diante, acredito que teria, com toda certeza, morrido. Este soroche ocorreu porque o ar era tão fino e tão penetrante, que ia pelos intestinos a dentro..."

Há muito tempo, a coca é utilizada para combater tal problema. Segundo alguns, para se precaver deste mal, basta mascar algumas folhas com uma massa chamada llipta, que tem o poder de fazer reagir o princípio ativo da folha, liberando a droga. Dizem que um dos ingredientes da llipta é cinza calcárea, mas embora tenha perguntado a muitos aymaras, nenhum soube me precisar do que é feita. Crença ou não, teria adiante, em minha própria viagem, a oportunidade de experimentar a llipta e tirar conclusões.

O uso da coca é rotineiro. Por este motivo, foi associada à lendas e registrada por viajantes. Em muitas comunidades, a folha é quase uma substituta para o dinheiro. Com ela se paga favores e até mesmo trabalho. É símbolo de cordialidade e bem querer. Quando um estrangeiro resolve contratar um grupo de trabalhadores aymaras, ao final do contrato, é de bom tamanho que ofereça uma quantidade de folhas de coca e álcool ao grupo, como estímulo e sinal de que o acordo será cumprido. Muitas lendas nos remetem à origem desta planta, com uma série de variantes, conforme a região e a cultura a que pertencem.

Certa vez, um grupo de indígenas havia ultrapassado os cumes mais elevados da Cordilheira Real, seguindo a região conhecida como Yungas. Nela, decidiram limpar os terrenos para plantação, ateando fogo. Assim fizeram, levantando uma enorme coluna de fumaça que sujou os cumes do Illampu e do Illimani. Os homens não haviam feito aquilo por maldade, mas acabaram irritando o deus Khuno, que tinha seu reino estabelecido nas neves eternas. Sua fúria foi imediata, lançando sobre a região dos Yungas uma tempestade como nunca haviam visto. Muitos homens morreram, enquanto outros, abrigados em cavernas, viam as terras serem completamente destruída por vendavais e chuvas torrenciais. As casas e lavouras foram devastadas. Abriram-se enormes erosões, e todos os caminhos foram inundados, aprisionando os homens na região. Quando finalmente a tempestade passou, os que sobraram saíram temerosos de suas cavernas deparando-se com um mundo arruinado. Quanto trabalho desperdiçado! Isolados e desesperados, foram atingidos pela fome. Comiam o que ainda havia sobrado. Uma das poucas plantas que restava em meio ao caos, era um pequeno arbusto de folhas verde brilhante. Apanharam um punhado delas e imediatamente começaram a mastigar. Para surpresa geral, uma maravilhosa sensação de bem estar surgiu! Mais do que isso! A fome havia passado e sentiam-se fortes novamente para escaparem dos Yungas. Em poucos dias, estavam de volta ao seu povoado, onde entregaram as folhas milagrosas aos sábios locais. Assim, os aymaras conheceram a coca.

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