segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Pachamama














Texto de Dalton Delfini Maziero
(Diário da Expedição Titicaca)

Os aymaras possuem uma visão bastante particular sobre a existência da terra. Sim, porque a concebem como única e indivisível! Até a chegada incaica na região, o cultivo da terra tinha uma função coletiva, e um objetivo quase religioso. Plantavam em conjunto, mesmo que em um terreno particular, mas com resultados que favoreciam a coletividade. Pachamama gera a vida para que seja partilhada entre os homens, não para ser aproveitada de forma particular.

O respeito e veneração são tamanhos, que os aymaras criaram certos códigos com os quais podem relacionar-se e compreender as vontades e desgostos da Mãe Terra, ou Pachamama, como é usualmente chamada. Contudo, o conceito utilizado de Mãe Terra, não se refere somente à ela, no sentido material. Seu significado é muito mais complexo. Pachamama encontra-se em todos os lugares ao mesmo tempo. É a criadora benevolente da vida, e por conseqüência, extrapola o simples conceito de tempo. Tanto, que não existe uma data comemorativa. Tornou-se inseparável do cotidiano das pessoas. Não representa somente o solo divinizado, abençoado pelo alimento que nasce.

A determinação de Mãe, usado constantemente, significa apenas o termo mais próximo que foi encontrado pelos ocidentais para tentar compreendê-la. Não existe uma terminologia nas línguas ocidentalizadas que possa, ou consiga sequer, expressar o seu verdadeiro significado. Pachamama é o próprio tempo em movimento. É o espaço indivisível, e por isto também é onipresente. Algo por demais global para ser traduzido em palavras. Talvez seja a própria vida, em seu sentido mais amplo.

De qualquer modo, os aymaras a concebem como uma entidade viva, portadora de desejos e acolhedora benevolente. Como todo ser vivo, comunica-se, alimenta-se e responde ao homem e outros seres de acordo com o tratamento que recebe. Os aymaras criaram toda uma mitologia para identificá-la. Desta forma, encontramos entidades míticas que fazem parceria com ela, convivendo e interferindo em seu modo de ser. Os aymaras conceberam assim, Huara Tata, deus dos poderosos ventos, tempestades e furacões. Segundo a crença nativa, ele viveria no topo de enormes montanhas, quando desce eventualmente para impor seu "poder" sobre Pachamama. O poder aqui mencionado não é concebido em sentido ditatorial, de imposição forçada. É o poder de criação. Pachamama é essencialmente feminina, e portanto criadora, geradora de vidas. Mas se a vida é gerada por dois, quem seria seu parceiro de sexo oposto? Huayra Tata!...que desce das montanhas para "dominar" Pachamama, para fecundá-la, gerando novos filhos.
O raciocínio aymara é simples e objetivo. O vento que varre os pampas e montanhas é quem trás as sementes e provoca a chuva. É ele que remove a terra da superfície, que faz as águas de lagos e rios subirem, para depois cair em forma de chuva. Portanto, ele fecunda Pachamama, que possui a graça da vida.

O homem do Altiplano respeita e compreende Pachamama. Sabe que como ser vivente, ela necessita ser cuidada, para que também cuide. Se o homem a protege, certamente será protegido. Sua visão, dirão alguns, com razão, é naturalmente ecológica! Proteja a Terra para não sofrer depois com as consequências. Em sua mentalidade, o camponês tem a certeza que Pachamama é como uma mãe. Seus princípios são os mesmos. Uma mãe fraca, triste e sem leite, irá gerar filhos doentes. Cuidar da terra, comemorar sua boa colheita, festejar a vida dos campos que florescem, é uma obrigação cumprida com prazer pelo homem andino. É dever e obrigação. É gratidão e felicidade. Em sua vida simples - do ponto de vista material - e complexa espiritualmente, o camponês andino segue feliz. Livre da ditadura da compra e posse. Sabe que a felicidade está unicamente em suas mãos, ao seu alcance.

Viva, e deixe viver, parece ser o lema altiplânico.

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