sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

A Guerra Ritual




Texto de Cristobal Makowski Hanula
(Publicado na Revista El Dorado, nº09, Lima, 1997)


A visão do passado pré-hispânico cheio de conflitos bélicos, heróicas defesas, lutas pelo poder e povoações aniquiladas pela força militar é realmente justificada? Não seria o funcionamento das instituições políticas dos Andes, um mal entendido entre o observador atual e os cronistas espanhóis do século XVI e XVII, incapazes de compreender o papel do combate em um mundo que ainda desconhecia os princípios da guerra total?


Fortalezas defensivas
A viagem de Lima ao norte do país, cruzando os vales costeiros de Casma, Nepeña, Chão e Virú, proporciona valiosa experiência para se formular uma opinião sobre o papel da guerra no Peru pré-hispânico. Em Casma, o viajante ficará impressionado pela decoração escultórica do templo de Serro Sechín. A fachada mostra imagens de seres humanos com aparatos cerimoniais e implementos em suas mãos que poderiam ser interpretados como armas, assim como corpos humanos amputados e descarnados: troncos, cabeças, colunas vertebrais, etc. Estes últimos pareciam pertencer aos vencidos cruelmente sacrificados.

A escassos 12 km do templo de Casma, se encontra a famosa fortaleza de Chankillo, descrita e desenhada por Squier no século passado.
Os muros externos de planta oval, tem se conservado até a altura de dois pisos (4 metros aproximadamente). Os cinco portais dessa construção formam um sistema de acesso restringido mediante paredes transversais que desviam o tráfego aos lados. A julgar pela cerâmica encontrada e datações em radiocarbono, a fortaleza é contemporânea com o templo novo de Chavín (V-III aC.) da conhecida cidade serrana de Chavín de Huántar.

Os casos de Chankillo e Serro Sechín não são isolados. Os investigadores que percorreram esses vales, relacionam um número considerável de construções defensivas cujo interior está cheio de cerâmica desse mesmo período. Todas elas estiveram em uso pouco antes do abandono do templo de Chavín. Já no Vale de Virú destacam-se sítios com arquitetura defensiva mais recente. As imponentes construções de adobe chamadas tradicionalmente de “Castelos”, datam dos tempos Virú e Mochica (I-VII dC.) Vários deles se distribuem estrategicamente na estrada da serra, lugar onde o vale se estreita e de onde partem algumas nascentes de água.

A aparente contemporaneidade da arquitetura militar e religiosa de grande envergadura no período anterior a formação das culturas clássicas, Mochica, Nasca e Wari, chamou a atenção dos arqueólogos no transcurso das últimas décadas, fazendo-os pensar na possibilidade de que as primeiras organizações políticas de caráter estatal na Costa Norte se formaram vários séculos antes do esperado, ou no mais tardar, no tempo de funcionamento do Templo Novo de Chavín.

As interpretações mencionadas se apóiam na proposta teórica de que os frágeis – mas altamente produtivos – sistemas ecológicos das vertentes ocidentais dos Andes Centrais criaram condições para o surgimento de conflitos pelo acesso de água e bem estar. A densidade demográfica cresceu rapidamente no terceiro e segundo milênio aC. A pressão de vizinhos até os vales férteis e fáceis de cultivar e/ou os conflitos entre as comunidades que co-habitavam esses vales criaram as guerras, conquistas, formação de elites guerreiras dominantes e – com eles – do Estado, como instituição que garantia a ordem social.

Armamento leve
Nesta mesma época, desenvolve-se a metalurgia complexa, que depois dominaria o uso comum de três metais (cobre, ouro e prata), assim como a técnica de vazado do cobre e obtenção do bronze, o qual aparece entre os séculos VI e VIII dC. Mesmo assim, o impacto da metalurgia do cobre na tecnologia de guerra foi muito mais limitado que no velho mundo. Desde a época comentada até a conquista, o armamento básico ofensivo do guerreiro, era composto de uma clava, um arco (chamado estólica) e uma funda. Localmente se usou também machados e boleadoras, composta de três pedras amarradas a uma corda comprida.

Curiosamente, uma arma tão eficiente como o arco era manejado somente por povoações
da selva, que a difundiram tardiamente na época do Tawantisuyu ou Império dos Incas. Na ausência de espadas, adagas, carros de batalha e de lança-projéteis de grande poder, a introdução do metal não chegou a revolucionar a técnica de guerra. Todavia, é de supor que as pesadas clavas e cabos recobertos de metal, difundidas entre os portadores da cerâmica Recuay e entre seus adversários costenhos, os Mochicas, tiveram que ser muito respeitadas por sua mortífera eficiência.

Como em outras partes do mundo, as placas de metal foram usadas também como proteções defensivas: escudos, ombreiras, peitorais, protetores de coxas, assim como saiotes recobertos com laminas redondas e retangulares, etc. Todavia, ainda que vistosamente douradas ou prateadas, estas aplicações tiveram pouco valor utilitário e definiam melhor e principalmente a categoria de seu usuário, tal como o demonstra, por exemplo, os utensílios dos reis Mochicas sepultados em Loma Negras e Sipán (II-IV dC). Neste último caso, resulta claro que as armas e atributos do guerreiro se converteram em símbolos de poder supremo substituindo os aparatos do sacerdote, presentes por rxemplo, nas tumbas de Cupisnique de Kunturwasi (IX-VIII aC.), na serra de Cajamarca. O tipo de armamento descrito e a ausência de máquinas de guerra implicam que os combate corpo a corpo decidia sempre o destino da contenda, na qual as fortificações exerciam um papel secundário.

O sacrifício dos vencidos
As últimas representações de batalhas na arte pré-hispânica dos Andes Centrais provém das cerâmicas criadas pelos oleiros Mochica entre V e VII dC. Comparando-se diferentes versões dessas cenas se pode demosntrar que os combates ocorriam duas vezes ao ano com um fim muito preciso: conseguir futuras vítimas para o sacrifício. Por isso nunca representaram os mortos, mas sim os vencidos, que são despojados de suas roupas e armas. Os perdedores de um desses combates anuais eram sacrificados nas ilhas, em honra as divindades do mar e do céu noturno, presididas por um deus com os atributos da coruja; terminado o segundo combate, o sangue dos prisioneiros corria nos santuários do vale para satisfazer as huacas (locais sagrados) da terra e do céu diurno, e em particular ao deus com personalidade de águia.

Os trajes dos guerreiros e de suas divindades protetoras sugerem que nos combates rituais se enfrentavam, em alguns casos, os representantes de uma mesma etnia e, em outros, de etnias diferentes. As imagens Mochica em lugar de conquistas, representam um ritual celebrado em alguma comunidade agrícola da serra, chamada em quêchua “tinku” e em aymara “ch’ajwa”.Nessas cerimônias, representantes de duas comunidades e de duas parcialidades se enfrentam com o fim de nutrir a terra com o sangue dos combatentes, propiciando a futura colheita; o rito põe também a prova a preparação e a valentia dos jovens.

Os combates rituais
Recentemente, pesquisadores chamaram a atenção ao fato de que a maioria das supostas fortalezas na Costa Norte carecem de baluartes. Foi notada também, a ausência de projéteis de fundas e pontas de lanças; só estando presentes facas de pedra polida. Contrariamente ao esperado, os recintos defensivos protegem minuciosamente construções de caráter cerimonial, e se encontraram em seu interior vasilhas relacionadas com o consumo massivo de chica (bebida cerimonial de milho). Além do mais, as trancas das portas de acesso estão dispostas do lado externo como para fechar alguém. Tudo faz pensar que as supostas fortalezas da Costa Norte foram construídas nas fronteiras entre comunidades para servir de cenários aos combatentes rituais. Sendo assim, para entendermos o papel da violência militar na sociedade andina, resulta indispensável descobrir suas regras e modalidades.

A ritualização dos comportamentos bélicos é um traço comum em todas as sociedades complexas pré-industriais. Os incas não são uma exceção. A participação direta nas guerras dos deuses protetores do império, do Trvão, do Sol e/ou da Montanha Sagrada (Apu) Huanacauri, era certa para a gente da época, pois suas estátuas presidiam os combates. Ademais, o calendário sagrado era regido sobre o tempo de guerra. Seu propósito, portanto, não foi profano. Tratava-se de comprovar se a sorte guerreira acompanhava ao governante e se, portanto, os deuses concediam ainda seu poder sobrenatural, o “cámac”. No caso do fundador do Império inca, Inca Pachacuti Túpac Yupanqui, parece haver aplicado um mandato religioso, posteriormente abandonado, que o obrigava a comprovar, no campo de batalha, a vigência de seu cámac a cada vinte anos, e comprovar deste modo seus direitos de governar. Caso contrário, outro senhor podia desafiá-lo, assumindo o risco de perder a própria vida e a de seus, e inclusive a imortalidade, quando seu corpo derrotado fosse destruído, seu crânio convertido em copa e sua pele em membranas para tambores de guerra. A existência dos combates rituais não excluem, ao nosso ver, as guerras de conquista. Pelo contrário, trata-se muito provavelmente de um mecanismo social complementário da guerra: os combatentes preparavam os futuros guerreiros, e selavam com sangue, as obrigações mútuas entre parcialidades, numa rede muito fina de interdependências e obrigações.

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