domingo, 31 de janeiro de 2010

Tatuapeense vive aventura inusitada






Tatuapeense faz expedição sozinho para estudar culturas da margem do Titicaca

Um pesquisador que mora no Tatuapé está prestes a dar início a uma aventura emocionante: percorrer cerca de 1200 km a pé na fronteira entre Peru e Bolívia para estudar história, arqueologia, lendas, mitos e costumes dos povos da região.

Entre agosto e outubro desse ano, o pesquisador e expedicionário paulista Dalton Delfini Maziero, morador do Tatuapé, estará realizando uma façanha: percorrer cerca de 1200 km a pé, em volta do lago Titicaca, o mais alto lago navegável do mundo, que fica na fronteira entre Peru e Bolívia, a uma altitude média de 4 mil metros. Essa expedição, denominada Projeto Titicaca, tem como meta estudar a história, lendas, mitos e costumes dos povos que habitaram e habitam ainda hoje as margens do lago. O resultado final desse trabalho será a publicação de um diário de viagem, exposição fotográfica, e palestras para escolas e universidades.

Para tanto, desde abril, Maziero vem desenvolvendo uma pesquisa histórica sobre o assunto. A expedição em si deverá ocorrer de agosto a outubro. Novembro e dezembro serão reservados para complemento de pesquisa e elaboração de um livro. Em janeiro o livro será finalizado e entregue. O expedicionário conta com o patrocínio de Solar Campestre e Aliada - Assessoria de Comunicação, Promoção e Eventos, além apoio da Academia Dandy Sports, que está treinando o historiador para esse projeto. No entanto, o Titicaca não deverá ser o único ponto a ser visitado pelo expedicionário. Ele é o primeiro trabalho do Projeto Vento Sul, também de Maziero. O Vento Sul, criado este ano, tem como objetivo pesquisar e divulgar conhecimentos em história e arqueologia por meio da realização de expedições científicas.

Escolha
O interesse pelo Titicaca, segundo Maziero, veio do fato de conhecer o local e de ter estudado o Titicaca desde a formação do lago até a época da conquista espanhola. De acordo com ele, isso o fez compreender não só o processo geológico como o de desenvolvimento humano. Maziero identifica o lago como pólo cultural muito forte, cheio de lendas e mitos. Ele afirmou que a primeira civilização lá estabelecida, a Viscachan, remonta 8.500 anos aC. Depois dela vieram grandes civilizações como Chiripa, Pucara e Tiwanaku. Elas foram fragmentadas em pequenos grupos que lutaram pela posse da região até a chegada do Império Inca, seguido pela colonização espanhola. Além disso, devido à água e a posição estratégica, a região do lago sofreu influências de culturas da cordilheira, litorâneas (Pacífico) e da floresta.

Todas essas culturas deixaram marcas, mesmo sendo influenciadas ou soterradas pelas posteriores. E é por meio de conversas com a população, entrevistas com historiadores, professores e arqueólogos da região, e acima de tudo, pela vivência da cultura, que Maziero quer identificar essas marcas.

Viagem
Maziero deverá iniciar a partir da cidade de Puno, a de maior estrutura nas proximidades do lago. Se afastará mais de 100 km do lago em dois momentos: a Sul, para visitar a caverna de Mazocruz, que tem um mural de 26 metros, e a Norte, para visitar ruínas da cultura Mollo. Os dois lugares são importantes sítios arqueológicos. Durante toda a viagem o pesquisador estabelecerá contato com familiares e amigos, mas em alguns locais, Maziero ficará incomunicável. Ele não receberá qualquer tipo de auxílio e terá, como única companheira, uma mochila de 18 kg com itens essenciais: filmes, duas máquinas fotográficas, roupa própria para enfrentar a neve nas altas altitudes, barraca e saco de dormir polares (agüentam baixas temperaturas), botas, kit de socorros e um fogareiro. A comida deverá ser adquirida nas regiões por onde ele vai passar.

Provavelmente, voltando de viagem, Maziero terá muito o que contar, inclusive sobre a engenhosidade dessas culturas antigas. Bons exemplos disso ele já dispõe hoje: há pouco tempo, arqueólogos redescobriram um sistema de plantio utilizado pelos povos antigos, que foi esquecido e soterrado com a colonização espanhola. Os Camellones - que remete às corcovas de camelos - aumenta a produção, tanto em quantidade quanto em tamanho dos produtos, em até cinco vezes. Trata-se do aproveitamento de áreas alagadas por meio da construção de "corcovas" de terra. Pequenos morrinhos que protegem as plantações das geadas e aproveitam a umidade natural e a terra fértil desses locais.

Outras engenhosidades são a utilização de grampos de metal para segurar construções quando de abalos sísmicos, modelagem de pedras para funcionarem como amplificadores e um método extraordinariamente simples de quebra de pedra. Eles utilizavam pedaços de madeira secos, que eram inseridos no veio da pedra, em fendas produzidas pelo homem, e posteriormente molhadas. A pedra fragilizada partia-se com a força da expansão da madeira. A cultura Urus também tem um costume pitoresco, ainda existente, do qual já falavam os espanhóis na época da invasão. Eles constroem ilhas artificiais com junco. Comunidades inteiras vivem nessas ilhas navegando no lago Titicaca. O junco em contato com a água se estraga em média de seis em seis meses, sendo substituído aos poucos pela parte da superfície da ilha.
Lago Titicaca

Para Maziero, a importância do Lago Titicaca não pode ser medida facilmente. Pela sua grandiosidade, ganhou, desde tempos remotos, uma importância vital para os povos da Cordilheira. Por lá se fixaram grandes impérios, cujas cidades, já no tempo dos Incas, não passavam de impressionantes ruínas. O Titicaca também teve povos guerreiros, que continuam sendo lembrados nas lendas regionais pela sua ferocidade, como os Lupakas (Homens-Sol) e Pakajes (Homens-Condor).

Suas águas geladas e límpidas guardam até hoje inúmeros mistérios arqueológicos, que fascinam os pesquisadores há décadas. Nos Ayllus (comunidades indígenas), ou mesmo nas cidades, proliferam as lendas sobre templos e ruínas pré-incaicas, submersas por um grande dilúvio em data remota, e sobre tesouros Incas atirados nas profundezas do lago no intuito de não caírem nas mãos dos espanhóis. Como se não bastasse, suas ilhas são reconhecidas na mitologia indígena como o ponto inicial da Gênese incaica, local onde surgiu o primeiro casal que deu origem ao grande Império Inca. Os indícios arqueológicos de ruínas como Tiwanaku e Sillustani atestam o alto grau de civilização de seus habitantes.

Formação
Sonhando ser arqueólogo desde criança, Maziero diz ter sempre pensado em expedições. Sua recordação mais remota é a de ter ficado fascinado pela Antiguidade ao ver um livro sobre o Egito Antigo. Em 1989, o paulista Dalton Delfini Maziero, hoje com 30 anos, formou-se em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC, tendo direcionado seus estudos para as culturas Pré-Colombianas e Período Colonial Americano. Desenvolveu, em 1988, um projeto de pesquisa em Iniciação Científica sobre o tema "Pirataria em São Paulo - Séc. XVIII". Em 1989, trabalhou no Departamento de Patrimônio Histórico da Prefeitura, quando desenvolveu atividades na organização de Arquivo Iconográfico. Completou em 1990, o I Curso Horizonte Geográfico de Arqueologia e desenvolveu iniciação arqueológica no sítio Calçada do Lorena, na Serra do Mar. Formou-se em 1992 no VII Curso de Organização em Arquivos Históricos pelo IEB-USP.

De 1994 a fevereiro de 1997, trabalhou no Arquivo Histórico Wanda Svevo, da Fundação Bienal de São Paulo, organizando documentação histórica e biblioteca. Ao conseguir patrocínio do Solar Campestre, da Aliada - Assessoria de Comunicação e Eventos e da Academia Dandy Sports, abandonou o emprego e montou o Projeto Vento Sul, cujo primeiro trabalho é o Projeto Titicaca. Praticante de camping selvagem e montanhismo há 16 anos, Dalton tem experiência expedicionária. Em 1986 viajou ao Peru e Bolívia pela primeira vez, percorrendo o Altiplano Boliviano e o Deserto de Nazca.

Já em 1988, voltou ao Peru de intuito de aprofundar seus conhecimentos na cultura incaica. Em 1990 atravessou o deserto do Atacama pela primeira vez, ao norte do Chile. Ainda neste ano percorreu o Parque Nacional de Lauca, situado a 5 mil metros de altitude. Em 1991 percorreu o deserto da Patagônia e Estreito de Magalhães, no extremo sul da América. Praticou trecking na região de Torres Del Paine. Em 1994 voltou a percorrer regiões remotas do Deserto do Atacama, no Chile. Como resultado dessa viagem, realizou, junto com Cláudio Delfini, a exposição fotográfica Atacama: o silêncio do deserto, que permaneceu na estação Santa Cecília do Metrô de 19/10 a 20/11 de 1994.

Fonte: Brasil, Jornal Tatuapé News (17/07/1997)

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