domingo, 3 de janeiro de 2010

Titicaca – o lago dos povos perdidos








Texto e fotos de Dalton Delfini Maziero
(Expedição Titicaca)

Uma longa caminhada pelas margens do mais alto lago navegável do mundo revela marcas de civilizações tão antigas que a história mal registrou.

Ao levantar os olhos para o horizonte, reparei que a serra a minha frente havia sumido debaixo de uma espessa tempestade que engolia o Altiplano, a região semi-desértica onde repousa o Lago Titicaca, a incríveis 3.812 metros de altitude. O temporal avançava com violência em minha direção, empurrando uma gigantesca nuvem de poeira e, em questão de segundos, alcançou o pequeno povoado de Púcara, a 4 mil metros de altitude, enchendo de pó e terra a garganta de quem se encontrava desabrigado. Não bastasse o ar rarefeito da região, respirar se tornou algo próximo do impossível.

O efeito devastador do El Nino durante o último verão naquela região andina, responsável pela repentina tempestade, não estragaria os meus planos de fazer a volta completa, de 1.300 km (durante três meses e a pé!), em torno do lago navegável mais alto do mundo. Apesar dos preparativos para esta aventura solitária, que levaram quase um ano de pesquisas sobre a região, percebi já no início da viagem que só quem vive naquele ambiente hostil é capaz de enfrentar as dificuldades impostas por sua natureza. A alimentação não é rica nem farta, o frio e o calor se alternam de noite e de dia, castigando a pele sem piedade; e caminhar a quase 4 mil metros de altitude é sempre um esforço dobrado. Mas eu sabia das compensações por essas dificuldades: as longas margens do Titicaca iriam revelar, sem pressa, vestígios de culturas que se perderam no tempo. E foi o que aconteceu.

Num passado remoto, quando os primeiros homens, ainda nômades, chegaram ao Altiplano por volta de 15.000 aC. (no Brasil, há indícios de que o homem teria chegado à Serra da Capivara, no Piauí, há 50 mil anos!), foi a beira do Titicaca que encontraram um clima suportável, diferente do frio glacial das altas montanhas andinas.

Terra fértil
Com cerca de 8,3 mil quilômetros quadrados de água doce (algo como vinte vezes o tamanho da Baia de Guanabara), o lago é capas de criar uma espécie de microclima próprio, retendo em suas águas o calor solar para liberá-lo à noite, minimizando assim os efeitos do frio. A água em abundância proporcionou condições para superproduções agrícolas, o sustento básico de impérios que se desenvolveram ao seu redor.Os livros de História, contudo, pouco falam das diversas culturas que habitaram aquela região por milhares de anos. Limitam-se a descrever a civilização inca, já que era esse povo que dominava a região quando os espanhóis chegaram ao Novo Mundo, no final do século 15.

Contudo, só nas proximidades do Titicaca, mais de vinte grupos distintos já foram identificados. Muitos deles, como os Púcaras e os Tiwanakus, construíram ali cidades há mais de 3,5 mil anos. Nos últimos tempos, algumas descobertas têm lançado novas luzes sobre o ainda obscuro passado sul-americano. Um desses achados está a apenas 30km da cidade peruana de Puno: o sítio arqueológico de Sillustani, onde há sepulturas com mais de 10 metros de altura. Esse local está associado ao povo colla, que se estabeleceu no Peru por volta de 1200. E próximo dali, na cidade de Taraco, peças artísticas esculpidas em um só bloco continuam sendo desenterradas por camponeses e acabam vendidas no comércio ilegal. Algumas chegam a medir mais de 7 metros de altura!

Uma Ilha parada no tempo
Nas águas do Titicaca, no lado peruano, existe uma pequena porção de terra onde seus habitantes parecem viver distantes do mundo que os cerca. Na Ilha Taquile, de apenas 12 km quadrados e 1500 habitantes, ao contrário de todas as cidades próximas a ela, não se fala o aimara – a língua corrente no Altiplano -, mas sim o quéchua, o idioma dos ancestrais incas, cujo império se estendeu da Colômbia à Patagônia Argentina até seu aniquilamento pelos espanhóis, na primeira metade do século 16. Graças ao seu isolamento, Taquile não recebeu influências de grupos externos ou de invasores, o que permitiu que ali se mantivessem vários costumes antigos. Um deles é o de cultivar três regras básicas de comportamento, seguidas de forma rigorosa: não roubar, não mentir e não ser ocioso. Com certo orgulho, os locais gostam de dizer que ali não existe nenhum tipo de violência. Desde cedo, as crianças aprendem a ganhar seu próprio sustento, seja por meio do plantio, do artesanato, ou, mais recentemente, do turismo, ainda que ele seja incipiente. Mas a principal tradição desse povo está ligada ao fato de produzir suas próprias roupas. Hábeis tecelões, eles precisam, no entanto, seguir certas normas na confecção do vestuário. Os homens podem tecer apenas as calças, as camisas, as chompas e os chullos (uma espécie de gorro). Já as mulheres cabe a confecção de cintos, correias, ponchos e saias. Uma divisão de tarefas predeterminadas no passado, que eles próprios não sabem explicar a razão. Mas que ainda hoje respeitam.

Ruínas Perdidas
É caminhando nessa margem norte do Titicaca – um longo e árduo percurso que se
estende por cerca de 700 km, entre Juliaca, no Peru, e Achacachi, na Bolívia – que se podem ver ruínas ainda desconhecidas dos livros e do turismo. Nesse trecho não se cruza com viajantes, e só se pode contar com a ajuda dos nativos: seja para alugar um quarto ou conseguir o que comer.

Foi numa dessas conversas com os aimarás – descendentes diretos dos povos da antiguidade e que vivem ao redor de praticamente todo o Titicaca – que fiquei sabendo de estradinhas que levavam a cidades gigantescas e abandonadas há séculos nos cumes de montanhas. Merkemarca, Queñalata e Siani são alguns desses locais esquecidos, dos quais não se sabe praticamente nada, mas onde se encontram tumbas seculares abertas, ossos expostos e cerâmica fragmentada ao alcance das mãos. São ruínas que impressionam não só pelas imensas áreas ocupadas (superiores a até três campos de futebol juntos, por exemplo), mas também pelo seu abandono e desconhecimento.

História roubada
Ao longo dos séculos, devastações às ruínas próximas ao Titicaca apagaram para sempre registros que poderiam revelar fatos surpreendentes sobre civilizações antigas das Américas. A cidade de Tiwanaku, hoje um sítio arqueológico, é o principal exemplo dessas agressões. Os primeiros colonizadores espanhóis que a encontraram, quando estavam em busca de tesouros submersos no Titicaca, saquearam diversos objetos, como estátuas, máscaras de ouro e cerâmicas com motivos religiosos.
Antes deles, porém, os incas já haviam roubado peças sagradas daquele lugar. O monumento que mais sofreu com essas ações foi a Pirâmide de Akapana, que teve seu topo completamente destruído. Não bastasse, no início deste século grupos estrangeiros escavaram o sítio sem nenhuma fiscalização e hoje acredita-se que existam mais de 300 peças de Tiwanaku ao redor do mundo, compradas no mercado clandestino. Mas não foi só ali que ocorreram saques. O templo inca localizado na Ilha do Sol, o centro cerimonial da antiga Copacabana e as sepulturas de toda a margem do Titicaca (em especial Sillustani) também foram alvos de roubos. Tumbas foram abertas por quem buscava unicamente ouro. O próprio Titicaca foi vítima desses assaltos: em outubro de 1977, uma equipe de japoneses, que fazia investigações submarinas clandestinas, emboar repreendida pelo governo boliviano, se apossou de uma boa quantidade de pequenos objetos religiosos, que estariam no fundo daquelas águas desde um passado longínquo, quando peregrinos vinham de longe homenagear o grande lago.

Teste de Fé
Talvez motivados por ambientes como esses é que os aimarás vivam mergulhados em um mundo mágico, habitado por estranhas criaturas. Na trilha que leva em direção às ruínas de Huata – outro local abandonado – fui questionado por camponeses que queriam saber por que eu seguia por aquele caminho. A razão de tal preocupação era simples. Huata é uma pequena península desabitada, mas onde estátuas de apenas 60 cm de altura, sem formas definidas e enterradas pela metade no chão, são adoradas como deuses protetores da agricultura. Tamanho cuidado com quem se aproxima de tais imagens não é à toa. Sem outros meios de ganhar a vida, o plantio é a base de sustento daquela gente, e as pequenas estátuas representam para eles a garantia das safras.

Antigamente, essa crença no sobrenatural fez do Titicaca o principal alvo de peregrinações no continente sul-americano. Pessoas de lugares distantes vinham movidas pela fé em busca de santuários, localizados principalmente na Ilha do Sol, hoje no lado boliviano. O trajeto não era fácil. O viajante seguia pela margem sul até o vilarejo de Yunguyo, onde um estreito de terra dava acesso à Península de Copacabana. Durante o percurso, sua fé era testada por sacerdotes que impediam a passagem dos incrédulos e dos que traziam poucas oferendas (que geralmente consistiam em ouro). Hoje, antigas crenças são lembradas nas festas populares, animadas por máscaras que representam as criaturas lendárias.
Tudo isso, visto de perto, comprova que o continente sul-americano tem muito mais a contar do que os livros se limitaram a dizer até agora. Pouco se sabe, por exemplo, sobre os urus – um grupo que desenvolveu técnicas de construção de ilhas flutuantes sobre as quais vivia, fabricadas com uma espécie de junco chamado totora. Dos Tiwanakus, que povoaram o Altiplano por 3 mil anos, também quase nada é conhecido, a não ser as poucas ruínas que deixaram, prova de terem sido uma das mais avançadas civilizações anteriores aos incas. De acordo com arqueólogos bolivianos, o que hoje é visto no sítio arqueológico de Tiwanaku não representa nem 5% do que era essa cidade no passado. São capítulos desconhecidos da História, mas que ainda podem ser testemunhados ao caminhar, sem pressa, pelas margens do grande lago.

Fonte: Revista Terra (julho / 1998)

Um comentário:

  1. SIMPLESMENTE FANTÁTICO. EXISTEM AINDA MUITOS LUGARES INEXPLORADOS, ISSO ME DEIXA MUITO FELIZ!
    AINDA NÃO SABEMOS O REAL VALOR DE VER SEM TOCAR, APRECIAR SEM LEVAR PARA CASA.
    AINDA IREI DAR UM PULINHO LÁ.
    PARABÉNS PELA MARATONA, QUEM SABE NÃO ARRISCO TAMBÉM.
    ABRAÇOS.
    Ilma Machado

    ResponderExcluir