terça-feira, 6 de abril de 2010

Pesquisadores anunciam a descoberta de um povo que habitou a Região Norte há cerca de 2 mil anos



Um imenso conjunto de construções produzidas pelo homem séculos atrás no interior da Floresta Amazônica vem intrigando historiadores e antropólogos. São cerca de 250 geoglifos (sinais no solo) feitos de argila e barro, espalhados pela porção oriental do Acre e por áreas de Rondônia, do Amazonas e do Peru. O pouco que se sabe até agora é que as edificações pertenciam a uma civilização ainda desconhecida, que viveu há cerca de 2 mil anos. O próximo passo das pesquisas é descobrir para que serviam as construções e o que aconteceu com o povo que as produziu.

As estruturas, cujo formato só pode ser percebido do alto, começaram a ser avistadas há cerca de 40 anos. Foi o desmatamento para a expansão da agricultura e pecuária que as revelou. Apenas em 2007, porém, uma avaliação mais detalhada passou a ser feita. “O avanço do desmatamento possibilitou a descoberta dos geoglifos que, desde a época do seu abandono, foram cobertos pela floresta”, explica uma das responsáveis pelo estudo, a historiadora da Universidade Federal do Pará (UFPA) Denise Schaan. A pesquisa foi publicada na última edição da revista internacional de paleontologia Antiquity.

As construções chegam a ter 350m de diâmetro e 2m de altura. Os pesquisadores estimam que elas serviam para vários fins. “Eram estruturas defensivas, que cercavam locais como aldeias, locais de encontros, rituais religiosos e realizações de cerimônias, além de moradias”, explica Denise. Por terem dimensões tão grandes, os pesquisadores precisaram fazer voos panorâmicos e utilizar imagens via satélite para analisar a totalidade das estruturas.

Comparando os vestígios da Amazônia com as Linhas de Nazca, famosos geoglifos encontrados no Peru, verificou-se que as estruturas tinham pouco em comum. As obras dos índios nazca possuem formas de animais, como pássaros, cachorros e aranhas, e possivelmente serviam para cultuar deuses ou para demonstração artística. Já as estruturas vistas na floresta são de formato perfeitamente geométrico, compostos principalmente de círculos e quadrados.

Uma das hipóteses apuradas pelos cientistas é a de que a civilização responsável pelas novas construções pudesse ter algum grau de parentesco com os incas, povo que viveu na Cordilheira dos Andes antes da chegada dos europeus à América. Porém, para Martti Pärssinen, cientista do Instituto Iberoamericano da Universidade de Helsinque, na Finlândia, não há vestígios de ligação entre as duas culturas. “No Acre, até agora, não encontramos qualquer evidência de presença inca. Pelo contrário, nossas pesquisas mais recentes demonstram que os geoglifos acrianos são mais velhos do que a cultura inca”, explica o pesquisador em entrevista ao Correio.

Estima-se que foram necessárias cerca de 80 pessoas para construir cada geoglifo. Considerando a população que exercia trabalhos domésticos e outras atividades, cada comunidade deveria agrupar cerca de 300 pessoas. Além das construções, havia estradas fortificadas que as ligavam. “Por isso, acreditamos que a população regional total deveria ter pelo menos 60 mil pessoas ou mais”, comenta o especialista.

Mito

A descoberta derruba o mito de que a qualidade do solo na Região Norte impediu a formação de grandes civilizações. “Cerca de 10 ou 20 anos atrás, acreditava-se que o solo pobre da Amazônia foi um entrave para o desenvolvimento humano nessa área. Agora, sabemos que não foi. Vida sedentária com organizações complexas era realidade antes da conquista europeia da América do Sul”, conclui Pärssinen.

Para os pesquisadores, existem várias hipóteses para o desaparecimento do povo. “No momento, não sabemos se a civilização desapareceu 100 ou 200 anos antes da conquista europeia”, diz o finlandês. Denise Schaan apresenta outra hipótese para o desaparecimento da civilização. “Eles podem ter sido antepassados dos povos arawak, que viveram naquela região a partir do século 18. Os arawak são conhecidos por construírem fortificações de terra”, explica.

Além das construções, os pesquisadores encontraram outros vestígios, como vasos de barro e machados de pedra. Entretanto, os demais aspectos da cultura, como seus hábitos, do que se alimentavam e como viviam permanecem um mistério para os cientistas. “Essas são algumas das questões que gostaríamos de resolver no futuro próximo”, comenta Pärssinen.

O valioso achado, no entanto, está ameaçado, segundo os pesquisadores. Aparentemente, as estruturas já perderam cerca de 50cm de sua altura. Além disso, a maioria das construções vem sendo destruída pelos fazendeiros da região. “Atualmente, quase todos os geoglifos conhecidos estão no interior de fazendas de gado. Alguns fazendeiros aproveitam parte das valetas para aparar água para o gado, outros constroem estradas sobre eles, destruindo-os”, lamenta a pesquisadora da UFPA.

» Entrevista: Denise Schaan

Leia a entrevista com a pesquisadora da Universidade Federal do Pará Denise Schaan, responsável pelo estudo que descobriu vestígios de uma civilização que viveu no Acre desde os tempos de Cristo.

Como eram estas construções?

Os geoglifos foram construídos entre os séculos I e XIV. Era estruturas defensivas, que cercavam locais como aldeias, locais de encontro (realização de festas, cerimônias), locais para rituais religiosos. Há também estradas que os conectam.

Como elas foram descobertas?

O avanço do desmatamento possibilitou a descoberta dos geoglifos que, desde a época do seu abandono foram cobertos por floresta. Atualmente quase todos os geoglifos conhecidos estão no interior de fazendas de gado e vem sofrendo impacto pelas atividades pecuárias principalmente. Alguns fazendeiros aproveitam parte das valetas para aparar água para o gado. Outros constroem estradas sobre eles.

O que aconteceu com este povo?

Sabemos pouco sobre as pessoas que habitaram os geoglifos, mas parecem ter sido antepassados dos povos Arawak que viviam naquela região no século XVII em diante. Os Arawak são conhecidos por construírem fortificações de terra. Descobrir o que exatamente faziam nos geoglifos é nosso tema de pesquisa para este e próximos anos. Até o momento temos 255 geoglifos localizados na região.


» Martti Pärssinen, cientista do Instituto Iberoamericano da Universidade de Helsinque


Quais as principais características dos geoglifos amazônicos?

A civilização recentemente descoberta no Acre construiu curiosos assentamentos geometricamente padronizados que eram ligados por um sistema de estradas. Além disso, fizeram uma espécie de terraplanagem nas terras em volta desses sítios, o que é exatamente o contrário do que anteriormente conhecíamos, onde esse tipo de assentamento fortificado era feito em valas, tendo ao redor uma estrutura íngreme, a fim de proteger as pessoas que viviam em seu interior.

O que se sabe até agora sobre essa civilização?

Nós sabemos muito pouco. O que se pode afirmar é que as pessoas dessa civilização parecem ter começado a construir os geoglifos há 2 mil anos, em regiões de várzea e terra firme no interior. A cultura floresceu pelo menos até ao fim do século 13. No momento, não sabemos se a civilização desapareceu 100 ou 200 anos antes da conquista europeia, ou somente após a introdução de doenças levadas pelo povo europeu no início do século 16. A civilização parece ter sido composta por cerca de 60 mil pessoas ou mais.

Esse povo poderia ser de alguma forma parente dos incas?

O sítio inca mais próximo fica situado a 200km ao sul de Rio Branco, em Las Piedras. No entanto, não encontramos qualquer evidência da presença inca no Acre. Pelo contrário, nossas pesquisas mais recentes demonstram que os geoglifos acrianos são mais velhos do que a cultura inca, que floresceu no fim do século 15 e início do 16.

Fonte: Brasil, www.correobraziliense.com.br/ (26/03/2010)

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