sexta-feira, 9 de abril de 2010

Sítios arqueológicos depredados



Foto: Alex Régis – “O guia Antônio Cesar mostra preservação do Lajedo Soledade”

Isaac Lira (repórter)

Dizem que o sol e o tempo são os melhores desinfetantes. Ambos teriam o poder de esclarecer, revelar o que está obscuro. A crença parece ainda mais sólida quando se pensa na atual situação dos sítios arqueológicos do Rio Grande do Norte. Relegados ao obscurantismo, por conta da política equivocada dos órgãos públicos, os tesouros arqueológicos do Estado sofreram com a depredação e o total desinteresse da população em geral, sendo salvos, quando muito, pela ação abnegada de arqueólogos e amantes da arqueologia. Hoje, o recente interesse pelo assunto dá os primeiros passos para uma mudança de rumo na área.

O RN tem 178 sítios arqueológicos cadastrados e tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O número oficial nem de longe reflete a riqueza do “real patrimônio” do Estado. Apenas em Santana do Matos, município da região do Seridó, onde existem dois sítios cadastrados, foram encontrados mais de 80 áreas com vestígios dos grupos pré-históricos que habitaram o que hoje corresponde ao território potiguar. As pesquisas no município foram lideradas pelo arqueólogo Valdeci dos Santos Jr., em parceria com o pesquisador Gilson Luiz da Silva. Santana do Matos não é a única cidade com um tesouro debaixo do chão. Carnaúba dos Dantas, Apodi e praticamente toda a região do Seridó, são férteis em vestígios, como ossos humanos, ferramentas, cerâmica, armas e pinturas rupestres. As datações mais antigas são de 10 mil anos atrás.

Embora não tenham atraído a atenção do poder público e da iniciativa privada, os artefatos vêm sendo objeto de interesse de alguns poucos pesquisadores e “comerciantes” do mercado clandestino desde a década de 70. Quando não caem nas graças desse seleto público, as peças arqueológicas são furtadas ou mesmo depredadas. Em Santana do Matos, na Serra do Urubu, e em outras localidades, há rochas com pinturas de grupos pré-históricos literalmente pichadas. Pessoas da própria comunidade fizeram outros desenhos na pedra e chegaram inclusive a grafar seus nomes, com a data da inscrição e até telefones. Em outros casos, aventureiros coletam artefatos como ossos e ferramentas para coleções particulares e venda no mercado clandestino. Há ainda um tipo de depredação mais cruel. Empresas de mineração e realizadoras de obras de grande porte já foram responsáveis por destruir sítios inteiros. Segundo o Iphan, há 10 anos, uma mineradora explodiu um conjunto de rochas com inscrições em Parelhas.

De acordo com especialistas, o que mais contribui para a dificuldade em preservar e divulgar as riquezas arqueológicas no Estado é a falta de investimento. Até bem pouco tempo a política do Iphan era manter os sítios “intactos”, longe da interação com o público comum. Uma vez descobertos e estudados, os vestígios pré-históricos eram “deixados lá”, segundo o que relata a atual superintendente da regional do Instituto no RN, Jeanne Nesi. Havia a ilusão de que mantidos longe dos leigos, eles permaneceriam no mesmo estado em que haviam sido encontrados. Na prática, observou-se o contrário. Sem o envolvimento da comunidade e de estudiosos, os sítios foram descaracterizados, até mesmo quando encravados nas regiões mais distantes. É o caso das pinturas da Serra do Urubu, um dos locais de maior dificuldade de acesso, no topo de uma serra. Paradoxalmente, é lá que o estrago é maior e impossível de ser sanado.

Atrair público para preservar sítios

O que a experiência mostra é que a exploração, desde que realizada de forma sustentável, traz mais benefícios. Defendidos por fundações, organizações não-governamentais, iniciativa privada, ou adotada pelo poder público, a melhor maneira de preservar é atrair o público leigo, além de ser um filão econômico interessante. No Brasil, o Parque Nacional da Serra da Capivara, um dos berços da arqueologia da América do Sul, é um exemplo a ser seguido. Até mesmo no Rio Grande do Norte, que não tem ainda uma tradição tão forte como de outros estados, Recife, por exemplo, há marcos nesse sentido. O Lajedo de Soledade e os sítios de Carnaúbas dos Dantas são dois exemplos.

Os dois locais dividem o posto de “sítios mais importantes” do Estado, mas por razões distintas. O Lajedo atrai milhares de visitantes todos os anos, tem uma estrutura para receber turistas, completamente bancada pela Petrobras, após anos de luta da Fundação de Amigos do Lajedo da Soledade (Fals), capitaneada por Maria Auxiliadora da Silva, a Dodora. Contudo, a cidade de Carnaúba dos Dantas tem uma quantidade maior de sítios, com pinturas que representam cenas mais detalhadas. Em termos de material coletado, Carnaúba foi palco da datação mais antiga do Estado: 9,8 mil anos. Mesmo assim, o Lajedo de Soledade, em Apodi, tem mais fama e recebe muito mais visitantes, ainda que a cidade de Carnaúba venha conseguindo manter a integridade de seu patrimônio. O motivo? Simples. Investimento.

Investimento

Ao contrário do Lajedo de Soledade, as pinturas rupestres de Carnaúba dos Dantas, assim como o restante dos sítios do RN à exceção do existente em Apodi, não são de fácil acesso. Não possuem estradas sinalizadas e nem pousadas por perto para abrigar possíveis turistas. No famoso Lajedo ocorre justamente o contrário: há estradas em estado razoável de conservação, pousadas, restaurantes, um museu, centro de artesanato, guias turísticos de prontidão, etc. O resultado disso é mais de 100 mil visitantes em pouco mais de 20 anos.

A reportagem da TRIBUNA DO NORTE percorreu alguns sítios pelo interior do Estado e pôde perceber a dificuldade de acesso na maioria deles. Nos sítios Xique-xique I e Xique-xique II, tivemos de contar com o apoio do guia e coordenador municipal de Turismo, Carlos Dantas. Os dois sítios, que possuem pinturas da chamada Subtradição Seridó, dentro da Tradição Nordeste, estão encravados no alto de dois “serrotes”, cada um em uma propriedade privada diferente. Em Santana do Matos, como foi possível comprovar ao lado do pesquisador Gilson Luiz, os vestígios ficam ainda mais distantes, em serras longínquas e inacessíveis.

A falta de estrutura não influencia unicamente na possibilidade de que turistas visitem os sítios, mas também na preservação dos artefatos. As pinturas de Carnaúba são um exemplo. O próprio contato com visitantes – a respiração, o pisoteio no terreno do sítio arqueológico – já traz um impacto ambiental. Por isso, essa exploração e divulgação turística deve ser feita com cuidado. O contato praticamente direto do visitante com o artefato é desaconselhado. Como em Carnaúba os visitantes – e eles existem, apesar da pouca divulgação e das dificuldades de acesso – ficam cara a cara com a rocha pintada pelos grupos pré-históricos, a tinta, influenciada também pelo desgaste do tempo e do clima, está cada vez mais apagada.

Até mesmo em Lajedo de Soledade há um projeto para se construir uma passarela por entre as ravinas que contém as pinturas. Além de evitar o contato direto, isso possibilitará a presença de idosos que, de outra forma, não conseguiriam chegar até lá.

Uma esperança para os sítios ainda não contemplados é o Prodetur (o Programa de Desenvolvimento do Turismo do RN). O projeto é transformar o potencial arqueológico do interior do Estado em um trunfo para a interiorização do turismo potiguar. “Sei que é importante o sol e mar de Natal, mas queremos dividir isso com o potencial turístico do interior”, fala o coordenador de turismo de Carnaúba dos Dantas.

Um dos primeiros projetos seguindo essa linha de raciocínio é a construção de escadarias e passarelas nos sítios Xique-xique, os mesmos visitados pela reportagem. Esse seria um ponto de partida para permitir a exploração e visitação desses artefatos em Carnaúba. Enquanto o poder público não age em Santana do Matos, o pesquisador Gilson Luiz da Silva sonha em criar o seu próprio museu e uma pousada para receber visitantes.

A Comunidade

Gilson Luiz da Silva sabe trabalhar e ganhar dinheiro como agricultor, professor, mecânico de carros e motos, eletricista, marceneiro e carpinteiro. Contudo, o que esse santanense gosta mesmo de fazer não dá, ainda, para fazer um tostão, muito pelo contrário. A paixão de Gilson é percorrer o sertão da cidade onde nasceu, subir serras e encontrar, coletar e estudar vestígios pré-históricos. Ao lado do professor Valdeci dos Santos, ele mapeou em sete anos mais da metade do que fez o Iphan em toda a sua existência.

A experiência de Gilson Luiz é um paradigma para explicar como o envolvimento da comunidade em projetos arqueológicos é fundamental para a preservação do patrimônio. Gilson é o responsável informal pela manutenção dos sítios perdidos entre as serras de Santana do Matos. Os habitantes dos povoados mais distantes já conhecem a paixão e a fama do pesquisador e sempre que encontram ou presenciam alguma depredação, informam ao paladino da arqueologia de plantão.

Ao mesmo tempo, se antes era comum a pixação e a depredação, os alunos das escolas públicas e os habitantes em geral agora contribuem com a salvação desses artefatos. Gilson, que foi professor na rede municipal de Santana do Matos, está acostumado a dar palestras para alunos e moradores. “Já cansei de explicar para eles, que finalmente entenderam a importância desse patrimônio”, explica Gilson. Embora em Santana do Matos os frutos desse trabalho abnegado ainda estejam em produção, o trabalho realizado em Lajedo de Soledade conseguiu frutificar.

Durante a visita ao Lajedo, a reportagem da TRIBUNA DO NORTE foi guiada por Antonio César. De apenas 19 anos, o rapaz já é guia turístico no sítio arqueológico de Soledade há sete anos. Ou seja, desde os 12 anos. César, assim como outros meninos da região, cresceu correndo por entre aquelas pedras e aprendeu cedo a entender o valor dos mal traçados riscos que enfeitam algumas rochas do povoado. Um dia acompanhou um dos guias turísticos treinados pela Fundação que cuida do Lajedo e se apaixonou pelo tema. De guia suplente, ele vive a expectativa de se tornar efetivo. César recebe R$ 20 por grupo de turistas que leva e instrui nos sítios arqueológicos do Lajedo de Soledade. Outras pessoas da comunidade também faturam com o turismo.

Mas nem sempre foi assim. Antes da maciça divulgação do local como destino turístico por parte da Petrobras, as pinturas rupestres do Lajedo também foram alvo de depredação. Um dos desenhos mais famosos daquele sítio é a representação de uma centopéia. Ao invés da “tinta vermelha” que é a base da maioria das pinturas, um “risco” branco, aparentemente feito com pedra, estraga boa parte da pintura. “Antes da conscientização da comunidade, isso de fato aconteceu”, admite Dodora, a presidente da Fundação que gere o Lajedo. O professor Roberto Airon, doutor em arqueologia lotado no Departamento de História da UFRN, explica a relação. “Se a comunidade que é a “dona” daquele patrimônio não tiver consciência da importância e da riqueza do sítio arqueológico fica difícil de conseguir preserva-lo”, encerra. Mais uma vez, o sol e o tempo são a única salvação.

Pesquisas

Em termos de pesquisas acadêmicas, o Rio Grande do Norte sempre esteve atrás de estados vizinhos, como Ceará e Pernambuco. Este último, inclusive, tem hoje a maior parte do material coletado em escavações no Estado. Após um início promissor com o Instituto de Antropologia Câmara Cascudo, ainda antes da fundação da UFRN, a pesquisa potiguar foi perdendo espaço até que o Estado fosse adotado pela professora da Universidade Federal do Pernambuco, Gabriela Martin.

Na década de 80, a equipe da professora pernambucana mapeou boa parte dos sítios existentes no Seridó, o que deu origem à chamada subtradição Seridó em termos de pinturas rupestres.

Dentro das classificações possíveis, existe a Tradição Nordeste, cujas pinturas retratam a caça, o sexo, a dança e a luta. Essa Tradição é originada das pinturas encontradas no Piauí, em São Raimundo do Nonato. O que foi encontrado no Seridó é semelhante ao material do Piauí, mesmo com diferenças, o que faz crer que esses grupos pré-históricos deixaram aquele Estado e vieram ao RN, passando por outros locais.

Nesse contexto, as pinturas são consideradas uma expressão simbólica que denotam uma comunicação social, dentro dos parâmetros da Arqueologia. Em outras palavras, os desenhos “serviam” para satisfazer a necessidade de se expressar e comunicar desses grupos pré-histórico.

O mais provável é que isso constitua uma linguagem, mesmo que inacessível para a compreensão do homem contemporâneo. Além da Tradição Nordeste, existe a Tradição Agreste, geralmente desenhos de animais, carimbos de mãos, entre outros, e a Itaquatiara, com simbolismos puros (flechas, setas, riscos, etc).

Fonte: Brasil, http://tribunadonorte.com.br/ (04/04/2010)

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